Aleijadinho, um escravo da Arte.

Filho de português com escrava, Aleijadinho foi alforriado pelo pai assim que nasceu. Mulato e proprietário de escravos, ele se casou e teve filho com uma negra forra. Na história da escravidão brasileira e nos atuais 130 anos de abolição da escravatura no Brasil, Aleijadinho construiu uma história diferente para o brasileiro negro. Escultor, entalhador e arquiteto, ele tornou um conjunto arquitetônico da arte barroca (do Ciclo do Ouro em Minas Gerais) um Patrimônio Mundial reconhecido pela Unesco.

Cada novo estudo bibliográfico sobre Antônio Francisco Lisboa acrescenta fatos, mas o nascimento continua incerto: 1730 ou 1738, em Cachoeira do Campo, distrito de Ouro Preto. Ele cursou até a escola primária e estudou com o pai, arquiteto e mestre de obra. Certamente, foi influenciado por artistas da época.

Aleijadinho conseguiu viver da arte. Tinha um ateliê com dois escravos entalhadores e outros ajudantes, incluindo um irmão. Em sociedade, fez parte da infantaria do Regimento de Homens Pardos de Ouro Preto e frequentou bailes populares até a metade da vida.

Por volta dos 40 anos, em 1777, uma doença degenerativa nas articulações o fez perder, gradualmente, todos os dedos dos pés e das mãos. Virou  Aleijadinho. Passou a andar de joelhos e adotou um tom mais expressionista nos trabalhos, bem diferente do equilíbrio e serenidade encontrados anteriormente em igrejas de cidades mineiras do Brasil colonial.

Na busca por uma arte genuinamente brasileira, escritores do movimento modernista dos anos 1920 resgataram a importância do mestre barroco e o mitificaram. Para o escritor Mário de Andrade, Aleijadinho “Era, de todos, o único de que se poderá dizer nacional, pela originalidade das suas soluções.

Era já um produto da terra, e do homem vivendo nela, e era um inconsciente de outras existências melhores de além-mar: um aclimatado, na extensão psicológica do termo."
Oswald de Andrade o definiu em poema: “Bíblia de pedra-sabão banhada no ouro das Minas.” A leitura predileta desse escultor, entalhador e arquiteto barroco era a Bíblia. À medida que o corpo se deformava, Aleijadinho vivia o calvário que ele criou no conjunto arquitetônico do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, formado por seis capelas sequenciadas e uma igreja que ostenta no pátio 12 profetas esculpidos em pedra-sabão.

Com exceção de alguns documentos que dão autoria artística a Aleijadinho, o grande conjunto de obra que ele produziu foi em parceria com auxiliares e outros artistas. O projeto arquitetônico da igreja de São Francisco, em Ouro Preto, é um trabalho em equipe. As pinturas no teto são de Manuel da Costa Ataíde.

Aleijadinho foi um artista requisitado pela beleza e sofisticação de suas obras. E sabia se valorizar. Em uma das biografias consta que a Irmandade do Carmo, de Sabará, não conseguiu contratá-lo diante da exigência de receber uma oitava de ouro por dia. Acharam caro e preferiram outro profissional.  Mesmo com grandes trabalhos, ele não conseguiu fazer fortuna por falta de administração. E ainda dava dinheiro a escravos e pobres.

Trabalhou até perder por completo os movimentos do corpo e a visão. Foi um verdadeiro e grande escravo da Arte. Em 1814, morreu cego aos 76 anos (ou 84), quando morava na casa da nora.

O bicentenário de morte do artista, em 2014, teve comemorações tímidas no Brasil. Mas um trabalho realizado três anos antes, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a Unesco, utilizou recursos digitais para conhecer as técnicas utilizadas nos 12 profetas. As estátuas passaram pela tecnologia de digitalização em 3D e robótica, a mesma utilizada em linhas de produção automotiva, e até então inédita no mundo das artes. Este recurso permitiu a preservação, o restauro e a produção de réplicas dos profetas, com alta precisão.

O fotógrafo argentino Horacio Coppola fotografou obras de Aleijadinho em duas cidades históricas mineiras, realizou exposições e publicou Esculturas de Antônio Francisco Lisboa O Aleijadinho

 

Silvio Reis, jornalista brasileiro

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2 Comments on "Aleijadinho, um escravo da Arte."

  1. mário de carvalho | 16 Maio, 2018 at 18:12 | Responder

    Silva Reis li com atenção o seu artigo e gostei e bate certo.Recordo-me de falar deste tema com o meu amigo Jorge Henriques Bastos,jornalista e escritor Brasileiro que trabalhou em Portugal no semanário Expresso, que alias me ofereceu uma biografia do Aleijadinho.
    E já que estamos no barroco,seria interessante que o sr. desse uma volta pelas igrejas desse época e visse a origem dos órgãos barrocos quase todos construídos em Braga,cidade no norte de Portugal.
    Obrigado pelo artigo e grande abraço.

  2. mário de carvalho | 16 Maio, 2018 at 18:19 | Responder

    Peço desculpa de lhe ter chamado silva em vez de silvio.

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