De uma ficcao: Ep1/piloto. A casa sangrenta: a porta de casa

De: Vitor

 

Com interpretação  de um conselho de animais que viviam na selva:

Numa vasta savana dourada, vivia um jovem lobo chamado Kael. Não era o mais forte da alcateia, nem o mais rápido, mas tinha um coração enorme. Protegia os mais pequenos, ajudava os mais velhos e estava sempre pronto para ouvir os outros.

Mas havia algo que ninguém via. Por dentro, Kael sentia-se cada vez mais cansado. Enquanto os outros lobos uivavam à lua e corriam pelos campos, ele começava a afastar-se. Achava que ninguém entenderia a tempestade que carregava dentro de si.

“Se eu desaparecer… talvez ninguém repare”, pensava.

Numa noite fria, Kael subiu sozinho até uma montanha rochosa, onde o vento parecia falar mais alto do que os próprios pensamentos.

Sentou-se na beira do precipício, olhando o horizonte escuro.

Foi então que ouviu uma voz lenta e firme atrás de si.

— Estranho lugar para um lobo tão jovem ficar sozinho.

Era uma coruja velha, chamada Sábia, conhecida por observar mais do que falava.

Kael suspirou.

— Às vezes, acho que já não tenho força.

A coruja aproximou-se sem invadir o silêncio.

— Sabes qual é a diferença entre um lobo e uma pedra?

Kael encolheu os ombros.

— A pedra carrega tudo sozinha. O lobo nasceu para viver em alcateia.

O jovem lobo permaneceu calado.

A coruja continuou:

— Quando um lobo se afasta demasiado do grupo, começa a ouvir apenas os ecos do medo. E o medo é um péssimo conselheiro.

No dia seguinte, Sábia levou Kael numa caminhada pela savana.

Mostrou-lhe uma manada de elefantes, onde os mais fortes caminhavam devagar para acompanhar os mais frágeis.

Depois, apontou para um grupo de suricatas, que se revezavam para vigiar enquanto os outros descansavam.

Mais à frente, viram um leão velho, já sem a força de antes, mas protegido pela sua família.

— Estás a ver? — perguntou a coruja. — Na natureza, os fortes não sobrevivem sozinhos. Sobrevivem porque pertencem.

Naquela noite, Kael regressou à alcateia.

Não contou tudo de uma vez. Apenas disse ao líder:

— Acho que preciso de ajuda.

E, para sua surpresa, ninguém o julgou.

Uma loba aproximou-se e disse:

— Pensávamos que querias distância. Não sabíamos que estavas a lutar sozinho.

Os dias passaram.

Kael começou a caminhar novamente com os outros, a descansar quando precisava e a perceber que pedir ajuda não o tornava fraco — tornava-o humano… ou, naquele caso, mais lobo.

Meses depois, encontrou um pequeno lobo escondido entre as pedras, isolado e triste.

Kael sentou-se ao lado dele.

— Sabes uma coisa? — disse calmamente. — Às vezes, a mente convence-nos de que estamos sozinhos. Mas isso nem sempre é verdade.

O pequeno lobo perguntou:

— E como sabes?

Kael olhou para a lua e sorriu.

— Porque um dia alguém ficou ao meu lado quando eu já tinha desistido de pedir ajuda.

Naquela noite, dois uivos ecoaram pela savana.

E pela primeira vez em muito tempo, Kael sentiu-se novamente parte da alcateia.

Moral da história:

Até os mais fortes se cansam. E não há vergonha em parar, falar ou pedir ajuda. Porque ninguém nasceu para enfrentar as tempestades da vida sozinho.