A multinacional europeia do setor aeroespacial e da defesa, a Airbus, confirmou o seu interesse em fornecer novos aviões de combate à Força Aérea Portuguesa (FAP), entrando formalmente na corrida para substituir os atuais F-16, aeronaves que servem Portugal há mais de três décadas e que se aproximam do fim do seu ciclo operacional.

A proposta da Airbus assenta no caça Eurofighter Typhoon, um dos mais avançados aviões de superioridade aérea da Europa, desenvolvido por um consórcio industrial envolvendo Alemanha, Espanha, Itália e Reino Unido. Contudo, a competição promete ser intensa: Portugal está também a ser cortejado pelos suecos com o Gripen E/F, da empresa Saab, e pelos Estados Unidos com o controverso e altamente tecnológico F-35 Lightning II, produzido pela Lockheed Martin.

A disputa ocorre num contexto geopolítico particularmente sensível, marcado pelo reforço das capacidades militares dos países da NATO, pela guerra na Ucrânia e pelo crescente debate europeu sobre autonomia estratégica em matéria de defesa.

Airbus quer “uma Europa mais forte” na Defesa

O presidente executivo da Airbus, Guillaume Faury, garantiu que a empresa não encara o mercado português apenas como uma oportunidade comercial, mas também como parte de uma visão mais ampla sobre o futuro da defesa europeia.

“Não estamos desesperados para ganhar todos os concursos, mas queremos garantir que a Europa caminha na direção certa”, afirmou Faury, citado pela imprensa económica.

A mensagem tem um claro subtexto político: a Airbus procura reforçar a ideia de uma maior soberania europeia na área da defesa, reduzindo a dependência de equipamento militar norte-americano.

Ainda assim, o responsável fez questão de afastar qualquer pressão sobre o Governo português, sublinhando que os investimentos da Airbus em Portugal não dependem da decisão sobre os novos caças.

“Estamos presentes em Portugal e não esperamos por concursos de defesa para investir no país”, assegurou.

Portugal já é uma peça importante no ecossistema Airbus

Portugal tornou-se, nos últimos anos, um parceiro industrial relevante para a Airbus. A empresa emprega atualmente cerca de 1.700 trabalhadores no país, mantém operações industriais ligadas à produção de componentes para os aviões comerciais A320 e A350, e trabalha com mais de 30 fornecedores portugueses.

A fábrica da Airbus Atlantic, em Santo Tirso, produz aeroestruturas e componentes de elevada precisão para aeronaves civis, consolidando uma presença industrial crescente da multinacional no território nacional.

Além da aviação militar, a Airbus afirma estar interessada em vários outros concursos portugueses, incluindo helicópteros, satélites, sistemas espaciais e cibersegurança.

“Somos muito fortes na cibersegurança, e isso é algo que oferecemos a todos os países europeus, incluindo Portugal”, acrescentou Faury.

O dilema português: F-35, Gripen ou Eurofighter?

A escolha portuguesa poderá definir a capacidade operacional da Força Aérea nas próximas décadas.

O F-35 norte-americano é visto por muitos analistas como o avião tecnologicamente mais avançado, graças às suas capacidades furtivas (stealth), sensores integrados e interoperabilidade total com a NATO. Contudo, o aparelho levanta preocupações devido aos elevados custos de aquisição e manutenção, bem como à forte dependência tecnológica dos EUA.

Já o Gripen E/F, desenvolvido pela Saab, apresenta-se como uma solução mais económica e flexível, frequentemente promovida pela sua eficiência operacional e menores custos logísticos. Países como Brasil, Suécia e Hungria apostaram nesta plataforma.

O Eurofighter Typhoon, por sua vez, posiciona-se como uma opção intermédia e europeia, reconhecida pela elevada capacidade de combate aéreo, robustez tecnológica e potencial integração industrial no espaço europeu.

Especialistas em defesa consideram que a decisão portuguesa poderá não ser apenas militar, mas também estratégica, económica e diplomática: escolher um sistema europeu pode reforçar a integração industrial europeia; optar pelo F-35 poderá fortalecer ainda mais a relação com Washington e a NATO.

Uma decisão com impacto para décadas

Portugal ainda não anunciou oficialmente um concurso público definitivo para a substituição dos F-16, mas a necessidade de renovação da frota é considerada inevitável.

A decisão final poderá ter implicações profundas na soberania tecnológica do país, na indústria nacional, no posicionamento geopolítico de Portugal dentro da NATO e até na criação de emprego qualificado no setor aeroespacial.

Como defendem vários especialistas europeus em defesa, o debate deixou há muito de ser apenas sobre aviões. Trata-se também de decidir que modelo de segurança e autonomia estratégica a Europa pretende construir nas próximas décadas.

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