Ela nasceu em Bofareira, uma comunidade pequena, discreta, como tantas outras da ilha da Boa Vista. O tipo de lugar que não aparece nos guias turísticos, mas que aparece na voz das pessoas que lá cresceram. Zulu cresceu entre violões partilhados, serenatas improvisadas e aquela forma íntima de fazer música que só existe quando ninguém está a tentar impressionar ninguém.
Foi ali que ela aprendeu o que é cantar de verdade.
A mudança para a Cidade da Praia trouxe aquilo que a vida costuma trazer quando se sai da terra onde se cresceu: liberdade, mas também o peso de construir tudo do zero.
Zulu estudou Gestão Hoteleira e Turismo. Depois Engenharia Civil. Entre os livros, as responsabilidades e a maternidade, a música foi ficando — não como plano B, mas como o único plano que fazia sentido. Havia noites em que cantar num restaurante ou num bar da capital não era um sonho a cumprir. Era uma conta a pagar. Era comida na mesa.
Mas há uma coisa que acontece com os artistas que constroem a sua identidade nos palcos pequenos: nesses palcos não existe margem para fingir. Cada atuação era uma exposição total. Cada silêncio do público, um espelho. Cada música, uma escolha sobre quem ela queria ser.
Sem saber, Zulu estava a construir algo muito mais sólido do que uma carreira. Estava a construir uma voz.
Há um momento na vida de quase todos os artistas, um encontro, uma noite, uma janela que se abre e que muda a direção de tudo.
Para Zulu, esse momento teve nome: José "Djô" da Silva. Produtor histórico, um dos homens que mais profundamente conhece a alma da música cabo-verdiana, líder da Harmonia Lda. Quando ele ouviu aquela voz intensa, emocional, difícil de categorizar, reconheceu nela algo raro: autenticidade que não se aprende.
A parceria resultou no EP "Briza", lançado em março de 2025.
O impacto foi imediato — e não pela razão errada. Não foi por ser nova. Foi por parecer antiga. Da melhor maneira possível.
Pouco depois, Zulu estava no Atlantic Music Expo e no Kriol Jazz Festival — dois dos palcos mais importantes da música lusófona e africana. Não como promessa. Como presença.
O que distingue Zulu não é a voz, apesar de a voz ser extraordinária.
É a capacidade de habitar tempos diferentes em simultâneo.
Na sua música, a morna coexiste com o jazz. O funaná dialoga com os blues. A coladeira dança com influências contemporâneas. Não é fusão por estratégia de marketing. É a expressão natural de alguém que cresceu a ouvir tudo — e que nunca sentiu que precisava de escolher entre o que era e o que queria tornar-se.
Num tempo em que muitos artistas africanos e lusófonos tentam globalizar-se através da imitação, Zulu internacionaliza-se através da autenticidade. E o mundo parece estar a responder. As nomeações nos Cabo Verde Music Awards — Artista Revelação, Música Tradicional, Coladeira e Funaná do Ano — não são apenas reconhecimento. São um sinal de que há um público que quer ser surpreendido.
Mas o gesto mais corajoso de Zulu pode não estar no EP. Pode estar num videoclipe.
"Bubista d'Otrora" recupera o Landú — um ritual antigo de conquista e casamento profundamente enraizado na história social da Boa Vista. Um ritual que muitos conhecem de ouvir falar, mas que poucos viram ganhar voz e imagem com esta dignidade.
O videoclipe não é apenas estética. É um manifesto silencioso: isto existiu, ainda existe, e merece ser visto.
A presença de crianças locais no projeto não é um detalhe de produção. É a afirmação mais clara do que Zulu acredita: preservar cultura não é construir um museu. É garantir que os mais novos cresçam a saber quem são.
Num mundo que acelera e esquece, há algo de profundamente necessário neste gesto.
Em maio de 2026, Zulu subiu ao palco em Paris para integrar o concerto de lançamento do álbum "Povo Brasileiro", do coletivo lusófono Rua das Pretas — um espetáculo que celebrou a confluência cultural entre Cabo Verde, Portugal e Brasil.
Não é apenas uma participação artística. É o retrato de uma artista que já não pertence apenas a um lugar — mas que leva sempre o mesmo lugar dentro de si.
A história de Zulu é maior do que ela. É a história de Cabo Verde: um país pequeno que continua a produzir vozes que o mundo não consegue ignorar. Um arquipélago que transformou o isolamento em cultura, a distância em poesia, a escassez em música.
Mas é também uma história muito pessoal — sobre uma mulher que nunca desistiu de ser ela própria quando teria sido mais fácil tornar-se outra coisa.
Num tempo em que tantos procuram uma identidade para exibir, Zulu tem uma identidade para habitar.
E talvez seja exatamente isso que se sente quando a ouvimos cantar. Não estamos apenas a ouvir uma voz. Estamos a ouvir alguém que sabe, com certeza, quem é.
Foto de destaque: Instagram zuluofficial_music