Desde 2018, essa narrativa de exclusão começou a ser reescrita. A Pró-Garante – Sociedade de Garantia, SA surgiu não como uma mera instituição financeira, mas como o elo perdido entre o potencial empreendedor e a liquidez bancária. Sob a liderança estratégica de Antónia Cardoso, a instituição está a operar uma "metamorfose silenciosa" que projeta o país para uma nova era de maturidade económica.
A génese da Pró-Garante responde a uma estatística esmagadora: cerca de 98% das empresas cabo-verdianas são micro, pequenas ou médias (MPME). Elas sustentam 40% do emprego nacional, mas, ironicamente, eram as mais punidas pela rigidez do mercado. Sem prédios ou terrenos para hipotecar, o talento ficava à porta do banco.
A solução introduzida pela Pró-Garante foi a partilha de risco. Ao atuar como fiel depositária da confiança pública, a instituição removeu o "medo" do sistema financeiro. Como explica Antónia Cardoso, a Pró-Garante funciona como um lubrificante das engrenagens económicas, criando um ambiente onde o crédito deixa de ser um obstáculo intransponível e passa a ser uma ferramenta de dignidade.
O impacto traduz-se em números que impressionam pela sua escala num mercado insular: 102 milhões de euros em financiamentos viabilizados e mais de 63 milhões em valores garantidos. Mas, para além das cifras, o que vemos é a sobrevivência de negócios que atravessaram a tempestade da pandemia e a luz verde para projetos que, de outra forma, nunca teriam saído do papel.
Um dos capítulos mais fascinantes desta transformação é a implementação do Registo de Garantias Móveis (RGM). Trata-se de uma verdadeira democratização do conceito de "riqueza". Pela primeira vez na história financeira do país, equipamentos, maquinaria e até cabeças de gado passaram a ser aceites como garantias legítimas.
Esta mudança de paradigma retira o foco do "ter" (propriedade raiz) e coloca-o no "fazer" (capacidade produtiva). É uma vitória para o agricultor de Santo Antão e para a jovem empreendedora tecnológica na Praia. Esta inclusão ganha contornos de justiça social nos programas Banco Jovem e Mulher, onde a Pró-Garante chega a garantir 100% da operação. O facto de 63% dos beneficiários serem mulheres é um indicador cristalino: o crédito em Cabo Verde está, finalmente, a ter um rosto feminino e jovem.
A burocracia é, historicamente, o "imposto invisível" que mais castiga quem quer criar valor. A resposta da Pró-Garante foi a integração. Ao unir forças com a PróEmpresa (assistência técnica) e a PróCapital (capitalização de risco), criou-se a Casa do Empreendedor.
Não se trata apenas de um balcão único, mas de um ciclo de vida empresarial protegido. O empreendedor não é deixado à mercê da própria sorte após receber o crédito; ele é acompanhado, capacitado e fortalecido. É a transição de um Estado que apenas fiscaliza para um Estado que impulsiona.
Num mundo onde a crise climática não é uma abstração, mas uma ameaça direta a estados insulares, a Pró-Garante assumiu uma postura vanguardista. A sustentabilidade não é um "anexo" ao relatório anual; é um critério de exclusão.
Inspirada por padrões internacionais do Banco Mundial, a instituição garante que o capital flua apenas para projetos que respeitem o equilíbrio ambiental e o bem-estar social. É uma forma de pedagogia económica: para ter acesso ao crédito garantido, a empresa deve provar que é uma boa cidadã global.
Cabo Verde não termina na sua costa. A Diáspora é a nossa extensão emocional e económica mais vasta. A Pró-Garante, ao apoiar a Plataforma A Diáspora, sinalizou que o país está pronto para transformar as remessas familiares em investimento estruturante.
O trabalho que está a ser desenvolvido para criar linhas de garantia específicas para cabo-verdianos no estrangeiro é um passo de mestre. É o reconhecimento de que o capital da diáspora pode ser o motor da transição digital e da economia azul, desde que encontre no solo pátrio um porto seguro de garantias e profissionalismo.
Com a graduação de Cabo Verde para o grupo de países de rendimento médio-alto, a bitola subiu. A Pró-Garante entra agora numa fase de expansão de horizontes, preparando-se para apoiar não apenas as micro, mas também as grandes empresas em setores críticos como a economia azul, agricultura resiliente e transformação digital.
A estabilidade institucional — sublinhada por Antónia Cardoso como um ativo que transcende ciclos eleitorais — é o que permite esta visão de longo prazo. O investimento na capacitação interna das equipas garante que, por trás de cada processo de garantia, exista um gestor de risco altamente qualificado e humano.
No final do dia, a Pró-Garante é uma história de liderança orientada por valores. Antónia Cardoso resume-o na perfeição: a missão é manter a instituição ao serviço das pessoas. Quando uma empresa nasce, um emprego é criado e um sonho é financiado, o PIB cresce, mas a cidadania cresce ainda mais.
Cabo Verde está a mostrar ao mundo que, com as ferramentas certas de partilha de risco e uma visão clara de inclusão, é possível transformar um arquipélago de desafios num arquipélago de oportunidades.
Num cenário global de volatilidade, o modelo cabo-verdiano de garantia mútua destaca-se pela sua resiliência e foco no impacto social. A Pró-Garante é a prova de que o sistema financeiro pode ser um instrumento de democratização e que o desenvolvimento económico sólido só acontece quando ninguém é deixado para trás por falta de um título de propriedade.
Entrevista a Antónia Cardoso, PCA da Pró-Garante (Março de 2026).
Relatórios Institucionais Pró-Garante (Dados Consolidados 2018-2025).
Banco de Cabo Verde (Estatísticas do Sistema Financeiro).
Ministério da Promoção do Investimento e Fomento Empresarial (Estratégia Cabo Verde 2030).
Atas do Evento "Plataforma A Diáspora" (Cidade da Praia, Janeiro de 2026).
"O desenvolvimento consiste na expansão das liberdades reais das pessoas." — Amartya Sen
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