No passado dia 27 de março, Dia da Mulher Caboverdiana, a Universidade de Cabo Verde não assistiu simplesmente a uma tomada de posse.

Assistiu ao início de um novo capítulo, escrito, pela primeira vez, com uma voz feminina na reitoria, Astrigilda Silveira.

No seu discurso de abertura, a nova reitora, a Professora Doutora Astrigilda Silveira não falou apenas de planos e prioridades. Falou de propósito. Com emoção contida e clareza estratégica, apresentou uma visão que vai além dos ciclos políticos: colocar a universidade no coração da transformação social de Cabo Verde.
A sua eleição, disse, não é uma conquista pessoal. É um sinal coletivo. Um sinal de que determinação, empatia e competência continuam a abrir caminhos, especialmente para as mulheres que, em silêncio ou em luta, acreditaram que era possível chegar mais longe.

A educação como ato de libertação

O fio condutor do seu discurso foi um princípio simples e poderoso: a educação não é apenas um instrumento de formação. É um ato de libertação.
Num país com desafios estruturais reais — mas também com um capital humano extraordinário — a universidade não pode ser uma ilha isolada do mundo. Tem de ser uma ponte. Entre o saber e o fazer. Entre a academia e a sociedade. Entre Cabo Verde e o mundo.

Humanizar. Colaborar. Transformar.

Para isso, a nova liderança ancorou a sua visão em três pilares que merecem ser lidos com atenção:
Humanizar. Colocar as pessoas — estudantes, docentes, investigadores, técnicos e administrativos — no centro de tudo. Não como recursos. Como protagonistas.
Colaborar. Construir uma cultura institucional assente na confiança, na responsabilidade partilhada e no diálogo genuíno. Porque nenhuma transformação acontece no isolamento.
Transformar. Ter a coragem de inovar, de reformar o que precisa de ser reformado e de projetar a universidade para um futuro que já chegou.
Esta visão não é ideológica. É estratégica. E está alinhada com o que as melhores organizações mundiais, como a UNESCO e o Banco Mundial, têm vindo a defender: o ensino superior como motor de desenvolvimento sustentável, de cidadania ativa e de coesão social.

Justiça organizacional como condição de excelência

Um dos momentos mais marcantes do discurso foi, talvez, o menos esperado: o reconhecimento explícito dos colaboradores técnicos e administrativos. A reitora foi direta, não pode existir excelência académica onde existe injustiça organizacional. A regularização e valorização das carreiras destes profissionais foi assumida como prioridade, não como concessão.
Esta é uma posição que revela maturidade institucional. Porque uma universidade não funciona apenas com professores e alunos. Funciona com pessoas. Todas elas.
No plano académico, a mensagem foi igualmente clara: os docentes e investigadores precisam de melhores condições de trabalho e de progressão na carreira. Não por razões burocráticas, mas por uma razão ética. Sem investimento nas pessoas, não há qualidade. E sem qualidade, não há futuro.

Cabo Verde como centro de conhecimento no mundo lusófono e africano

A internacionalização surge também como eixo estratégico incontornável. A reitora quer ver Cabo Verde afirmar-se como um centro de produção do conhecimento no espaço lusófono e africano, com investigação relevante, ligada às políticas públicas e com impacto real na vida das comunidades.
E tudo isto inserido numa visão de horizonte alargado: dez anos. Uma perspetiva que ultrapassa mandatos e ciclos políticos, e que aposta na continuidade institucional como condição de credibilidade e de impacto duradouro.

A voz da diáspora — dentro e fora da sala

A cerimónia contou também com a presença da Associação A Diaspora, representada por três elementos que simbolizam, por si só, a diversidade e a riqueza do capital humano cabo-verdiano espalhado pelo mundo.
Francisco Fortes, consultor internacional, trouxe à sala a perspetiva de quem opera nas fronteiras entre culturas e mercados. Vera Lúcia Grata, professora de inglês e líder comunitária, representou essa liderança silenciosa mas determinante que sustenta comunidades inteiras a partir das margens. E Heitor Fox, neurocoach, fundador e mentor do Modelo CAT™ e da primeira Certificação Internacional de Cabo Verde para o mundo,  uma metodologia de desenvolvimento humano e organizacional aplicada à comunicação, ao coaching e à liderança de alta performance,  trouxe o olhar de quem acredita que transformar organizações começa sempre por transformar pessoas.
A sua presença não foi protocolar. Foi um gesto de comprometimento: o de uma diáspora que não observa à distância, mas que se envolve, contribui e co-responsabiliza pelo futuro do país.

Mas a voz da diáspora não esteve apenas dentro da sala. De Londres, onde reside e coordena a associação, Elisa Dias acompanhou o momento à distância e fez questão de marcar a sua posição.

Em mensagem enviada a partir da capital britânica, foi direta na sua leitura do momento histórico:
Ter uma mulher a conduzir os destinos da UniCV não é apenas simbólico. É estratégico. É o reconhecimento de que a liderança feminina não é uma concessão e sim uma necessidade para qualquer instituição que queira ser verdadeiramente transformadora.”
Uma frase que, mesmo vinda de longe, não deixou de ser signiticativo. E que resume, com precisão, o que muitos sentiram naquele 27 de março.

Um mandato coletivo para uma universidade com futuro

O que ficou desta cerimónia não foi apenas um discurso. Foi uma declaração de intenções, clara, corajosa e profundamente humana.
Num mundo marcado pela incerteza, pelas desigualdades crescentes e por transformações tecnológicas que redesenham o futuro do trabalho e da sociedade, o papel das universidades nunca foi tão crítico.

E Cabo Verde, através da sua principal instituição de ensino superior, assume agora esse desafio com uma liderança que une humanidade e estratégia, rigor e empatia, visão e proximidade.

 

A mensagem final da reitora foi uma convocatória: este mandato não pertence a uma pessoa. Pertence a uma comunidade. E será essa capacidade de mobilizar,  docentes, estudantes, técnicos, parceiros e a sociedade civil, que determinará se esta nova era ficará apenas na promessa ou se se tornará, de facto, transformação.
Cabo Verde merece uma universidade à altura do seu potencial. E, talvez, este seja o momento em que essa universidade começa a acreditar nisso também.

O Estado como parceiro desta nova etapa

A cerimónia contou ainda com a presença do Ministro da Educação, Amadeu Cruz, cuja intervenção reforçou o comprometimento do Governo com esta nova etapa.

Entre saudações à comunidade académica nacional e internacional, aos parceiros e representantes institucionais presentes, o Ministro deixou uma mensagem clara: o Estado será um parceiro ativo, não um observador, na construção de uma universidade mais forte, mais justa e mais relevante para Cabo Verde.
Num momento de emoção, prestou também homenagem às mães e aos pais que, nas ilhas e na diáspora, fizeram sacrifícios extraordinários para que as novas gerações pudessem chegar mais longe. Um reconhecimento que tocou a sala, porque por detrás de cada trajetória de excelência, há sempre uma família que nunca desistiu.
Terminou com uma convicção dita com firmeza e afeto: “Temos a convicção de que esta universidade estará em boas mãos.

“A educação é a arma mais poderosa que podes usar para mudar o mundo.” - Nelson Mandela

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Fontes

∙ Discurso oficial da reitora da Universidade de Cabo Verde (27 de março de 2026)
∙ UNESCO – Higher Education and Sustainable Development: https://www.unesco.org/en/higher-education 
∙ Banco Mundial – The Role of Tertiary Education in Development: https://www.worldbank.org/en/topic/tertiaryeducation 
∙ OCDE – Education at a Glance: https://www.oecd.org/education/education-at-a-glance/