Dilma acentuou o papel decisivo do presidente Lula da Silva no reposicionamento geopolítico do Sul Global, explicou os mais de R$ 23 biliões em investimentos destinados ao Brasil e explicou por que o avanço tecnológico e a soberania nacional são inseparáveis na construção de um mundo multipolar.
“Um presidente que tem esse compromisso facilita o nosso trabalho. O governo Lula procura projetos que de fato impactam o desenvolvimento, melhoram a infraestrutura e garantem sustentabilidade. O mundo reconhece a liderança internacional de Lula”, acentuoun Dilma.
Dilma lembrou as origens do NDB, concebido no espírito da cimeira de Fortaleza em 2014, durante seu governo, para contrapor a lógica tradicional dos organismos multilaterais ocidentais.
Enquanto as instituições tradicionais condicionavam apoios financeiros à austeridade e a programas forçados de privatização, ( vide Portugal do passospórtismo, a troika e a perda de riqueza), o Banco dos BRICS segue a diretriz estrita de ser guiado pela Procura (demand-driven).
“Nós respeitamos a soberania dos países. Nossa função não é dizer a uma nação o que ela deve fazer, mas apoiar as suas próprias prioridades com financiamento de longo prazo e taxas competitivas”, sublinhou. Dilma explicou ainda que o NDB tem diversificado fontes de captação, tornando-se o maior emissor privado de títulos em moeda chinesa fora do mercado continental (Panda Bonds), permitindo um mix financeiro mais seguro e resistente às oscilações internacionais.
Durante a entrevista a Attuch e Morais, Dilma revelou que, desde março de 2023, quando assumiu o comando do banco em Xangai, foram aprovados cerca de R$ 23,95 biliões em operações para o Brasil, divididos entre iniciativas públicas e privadas:
Houve ainda a criação do primeiro Hospital Inteligente do SUS, viabilizado por meio de convênio com o Ministério da Saúde e apoio operacional do governo do Estado de São Paulo.
O complexo funcionará como centro de emergência de alta complexidade e laboratório-escola, integrando soluções de inteligência artificial, robótica cirúrgica, prontuários automatizados e tecnologia de ponta desenvolvida em parceria com instituições da China e a renomada rede indiana Narayana Health.
“O SUS é uma das maiores tecnologias sociais do mundo. Com o Hospital Inteligente, estamos provando que o povo mais humilde e os trabalhadores que dependem da saúde pública têm direito ao atendimento mais moderno e avançado que existe no planeta. Não seremos meros consumidores de tecnologia; seremos produtores e multiplicadores”, defendeu Dilma.
Questionada sobre o debate monetário internacional, Dilma esclareceu que o foco do NDB não reside em discursos simplistas de “desdolarização” por decreto, mas na construção pragmática de mecanismos que viabilizem operações em moedas locais.
Segundo ela, a excessiva dependência de uma única moeda de reserva gera graves vulnerabilidades cambiais para os países em desenvolvimento:
“Quando você levanta e empresta em moeda local, elimina o descasamento entre receita e dívida. A estabilidade monetária global depende de uma arquitetura multilateral em que as nações não fiquem expostas às decisões unilaterais de política monetária de um único país emissor”, pontuou.
O NDB fundado inicialmente pelos cinco membros originários (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), o banco já incorporou nações como Egito, Emirados Árabes Unidos, Bangladesh, Argélia e Uzbequistão, além de ter em andamento os processos de adesão de Etiópia, Angola e Zimbábue.
Dilma projeta que a instituição alcance cerca de 20 países-membros até meados de 2027. O plano estratégico 2027–2031 do banco colocará ênfase na inovação industrial, na agricultura tecnificada e no intercâmbio científico, tendo como pilar um novo Portal de Inovação dos BRICS.
Ao concluir a conversa com Leonardo Attuch e Fernando Morais, a presidenta do NDB expressou otimismo sobre o futuro do Brasil sob a liderança de Lula, mas deixou uma advertência contundente contra retrocessos políticos e o desmonte de setores estratégicos nacionais:
“Não existe desenvolvimento duradouro sem ciência, sem educação básica e sem valorização da cultura nacional. A multipolaridade não é apenas uma reorganização de poder; ela é multilateral, multicultural e pacífica. O Brasil tem dimensão continental, criatividade e capacidade de ser um país avançado. Para isso, precisamos de projetos de longo prazo, amor à nossa soberania e clareza de que não devemos ser subservientes a ninguém”, finalizou.