O conjunto reconhecido integra seis antigas plantações agrícolas coloniais portuguesas: Monte Café, Água Izé, Diogo Vaz e São João, na ilha de São Tomé; Sundy e Belo Monte, na ilha do Príncipe.
A classificação foi atribuída ao abrigo do critério IV da Convenção do Património Mundial — reservado a conjuntos arquitetónicos, tecnológicos ou paisagísticos que representem uma etapa significativa da história humana. A candidatura foi submetida sob um título que já não deixa espaço para leituras romantizadas: "As roças de São Tomé e Príncipe: Sistema colonial agrícola e migração forçada".
Segundo a UNESCO, as seis roças representam um sistema colonial de plantações planeadas, dedicado principalmente à produção de café e cacau. O modelo combinava terras agrícolas, infraestruturas industriais, residências, hospitais, escolas, igrejas e outros equipamentos sociais — tudo organizado numa estrutura espacial rigorosamente hierarquizada. A organização, sublinha a própria UNESCO, ilustra o funcionamento de um sistema agroindustrial colonial em grande escala, baseado na migração e no trabalho forçados, do final do século XIX até meados do século XX. Concebido para sustentar a produção de matérias-primas depois da abolição formal da escravatura.
A expansão das roças ocorreu depois da abolição formal da escravatura no Império Português. Mas a lei mudou antes das relações de exploração.
O sistema passou a recorrer aos chamados "serviçais" — trabalhadores contratados, recrutados sobretudo em Angola, e também em Moçambique e Cabo Verde. Formalmente vinculados por contratos. Na prática, deslocados através de mecanismos coercivos, com pouca capacidade para recusar as condições impostas e sérios obstáculos ao repatriamento.
A arquitetura das roças tem de ser lida na sua totalidade. Os hospitais, as escolas, as creches, as igrejas, os alojamentos — nada disso pode ser apresentado isoladamente como prova de benevolência colonial. Fazia parte de um sistema fechado, concebido para organizar a produção, fixar os trabalhadores e controlar praticamente todos os aspetos da vida dentro das propriedades.
A entrada das roças na Lista do Património Mundial não transforma o sistema colonial num modelo digno de celebração. O que a UNESCO reconhece é o valor universal dos vestígios que permitem compreender como funcionava uma economia de plantação depois da abolição formal da escravatura.
Preservar estes lugares significa proteger os edifícios, os campos, os equipamentos industriais, as paisagens. Mas significa, sobretudo, recuperar as histórias das pessoas que ali trabalharam, sofreram, resistiram, constituíram famílias e criaram comunidades.
O reconhecimento da UNESCO pode abrir novas oportunidades para São Tomé e Príncipe: cooperação internacional, investigação histórica, recuperação arquitetónica, turismo cultural.
Mas existe um risco. Transformar as roças em cenários tropicais destinados ao consumo turístico, esvaziando-as das relações de poder e da violência que lhes deram origem.
Uma antiga plantação não se apresenta apenas pela beleza das fachadas, pela dimensão dos edifícios, pelo exotismo das paisagens de cacau. A interpretação histórica terá de explicar quem possuía a terra. Quem controlava a produção. Quem recolhia os lucros. Quem suportava o peso do trabalho.
As comunidades que hoje vivem nas antigas roças não podem ser tratadas como elementos decorativos de um produto turístico. Devem participar na definição dos projetos de recuperação. Devem beneficiar diretamente das oportunidades económicas, culturais e educativas que a classificação abre.
São Património Mundial não porque o colonialismo português tenha sido exemplar. São Património Mundial porque conservam as marcas de um sistema que organizou territórios e vidas humanas em função do lucro e das necessidades da metrópole.
Preservar as roças significa, acima de tudo, impedir que a arquitetura sobreviva enquanto a memória dos trabalhadores volta a ser apagada.
Referências consultadas: UNESCO — As roças de São Tomé e Príncipe: sistema agrícola colonial e migração forçada; UNESCO — 48.ª sessão do Comité do Património Mundial, Busan 2026; Agência Lusa, 26 de julho de 2026.