No dia 5 de junho, o mundo volta a assinalar o Dia Mundial do Ambiente, uma das maiores plataformas globais de sensibilização ambiental, criada pelas Nações Unidas para lembrar algo que já não pode ser ignorado: o planeta está a enviar sinais claros de exaustão — e a humanidade continua atrasada na resposta.

Há datas que devem ser mais do que simbólicas. Devem servir de consciência coletiva.

Lembramos, com algum prazer e orgulho, que em 1986, o então Presidente da República, Mário Soares, recebeu no Dia Mundial do Ambiente os Amigos da Terra, reconhecendo institucionalmente a importância de uma causa que, à época, ainda parecia distante para muitos.

Quase quatro décadas depois, a realidade tornou-se impossível de negar.

Hoje, importa recordar o papel da ONU, da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e da ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável, três entidades que, cada uma à sua forma, continuam a alertar para a urgência climática e ambiental.

O planeta já não pede licença: envia sinais

Na mensagem oficial das Nações Unidas para 2026, o tom é direto e quase dramático:

“O planeta não discute. Não negocia. Ele envia sinais.”

Esses sinais estão por todo o lado: elevação do nível do mar, incêndios florestais mais intensos, ondas de calor extremas, secas persistentes e o derretimento acelerado dos glaciares.

Durante décadas, a comunidade internacional habituou-se a ouvir promessas, metas longínquas e discursos políticos. Mas, segundo a ONU, a realidade tornou-se mais dura do que as palavras: o limite de 1,5°C de aquecimento global, considerado durante anos a fronteira crítica, está a ser progressivamente ultrapassado.

Ainda assim, há sinais de esperança.

“Debaixo do ruído, outro sinal está a emergir”, sublinha a organização.

Painéis solares multiplicam-se nos telhados, turbinas eólicas transformam paisagens, cidades começam a ser desenhadas para pessoas e não apenas para automóveis, e programas de reflorestação ganham escala global.

O Dia Mundial do Ambiente, celebrado anualmente desde 1973, após ter sido instituído pela Assembleia Geral das Nações Unidas durante a histórica Conferência de Estocolmo de 1972, tornou-se hoje um movimento mundial de mobilização ambiental.

Portugal participou nessa primeira conferência e tem assinalado a data desde então. A antiga Comissão Nacional do Ambiente, criada precisamente para preparar a presença portuguesa em Estocolmo, deixou um legado simbólico ainda hoje visível na sede da APA.

Em 2026, a celebração global tem como anfitrião o Azerbaijão, embora as ações ocorram em praticamente todos os continentes.

Portugal entre avanços e contradições ambientais

No âmbito do Dia Mundial do Ambiente, a associação ambientalista ZERO publicou, a 4 de junho de 2026, um balanço crítico do mandato da Ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho.

A análise identifica três aspetos positivos e três negativos, procurando responder a uma questão central: Portugal está a contribuir para a solução climática ou continua parte do problema?

Os sinais positivos

Entre os aspetos destacados pela ZERO surge o esforço do Governo para resolver o prolongado contencioso europeu relacionado com os Planos de Gestão das Zonas Especiais de Conservação da Rede Natura 2000, uma falha que durante anos colocou Portugal sob risco de sanções da Comissão Europeia.

Outro ponto considerado positivo foi o afastamento do apoio à incineração de resíduos urbanos, privilegiando uma visão centrada na economia circular, reciclagem e prevenção.

A associação reconhece ainda como relevante o reforço do apoio às Organizações Não Governamentais do Ambiente (ONGA) através do Fundo Ambiental, permitindo maior acesso a financiamento europeu.

As fragilidades persistentes

Mas a crítica é igualmente severa.

A ZERO acusa o Ministério do Ambiente de uma alegada subordinação à lógica produtivista agrícola, particularmente na gestão da água, criticando programas como “Água que Une”, por entender que favorecem o regadio intensivo e novas barragens sem adequada avaliação ambiental estratégica.

Outro alvo de críticas é o próprio Fundo Ambiental, acusado de ter perdido foco estratégico, tornando-se um mecanismo excessivamente disperso, reativo e pouco transparente.

Por fim, talvez a maior preocupação: Portugal continua a falhar na redução estrutural das emissões de carbono.

Embora as emissões tenham diminuído cerca de 3% em 2024, a ZERO alerta que essa redução resultou sobretudo de fatores conjunturais — nomeadamente maior produção renovável — e não de uma transformação profunda dos setores mais poluentes.

O principal problema permanece nos transportes, responsáveis por 35,2% das emissões nacionais, num país ainda excessivamente dependente do automóvel individual.

A água do Algarve: recuperação ou falsa sensação de segurança?

Se existe um território português que simboliza o desafio climático, esse território é o Algarve.

As barragens algarvias encontram-se atualmente, em média, com 72% da sua capacidade, garantindo reservas para três a quatro anos de consumo urbano, segundo o presidente da APA, José Pimenta Machado.

À primeira vista, parecem boas notícias.

Mas o próprio responsável faz um alerta importante:

“Alguns setores dizem que já passou a seca, mas não passou nada. É uma situação conjuntural. Tivemos sorte, mas temos que nos preparar para os anos que vêm aí.”

A barragem de Odelouca, essencial para o barlavento algarvio, encontra-se perto dos 77% da capacidade, enquanto Odeleite, no sotavento, ronda os 76%.

Ainda assim, o verdadeiro problema permanece invisível: os aquíferos subterrâneos.

Segundo Pimenta Machado, o aquífero Querença-Silves, uma das principais reservas subterrâneas do Algarve, continua com níveis inferiores a 20% da capacidade, revelando que a recuperação hídrica ainda está longe de estar garantida.

O responsável recorda que, em janeiro de 2024, o Algarve viveu a pior situação de seca da sua história recente, com água disponível para apenas quatro a cinco meses, levando o Governo a impor restrições ao consumo.

A melhoria atual, parcialmente influenciada pela tempestade Cláudia, não deve, por isso, ser confundida com resolução definitiva do problema.

Entre esperança e responsabilidade

O Dia Mundial do Ambiente de 2026 deixa uma mensagem clara: não basta reagir às crises — é preciso antecipá-las.

A chamada “simplificação” ambiental, tantas vezes invocada para acelerar investimentos e licenciamentos, não pode transformar-se num pretexto para fragilizar a proteção dos ecossistemas.

Como alerta a ZERO, substituir prevenção por fiscalização posterior é um erro estratégico, sobretudo num país onde a capacidade de fiscalização continua limitada.

A pergunta que fica é simples, mas decisiva:

Estamos verdadeiramente a preparar Portugal para um futuro climático mais duro — ou continuamos a viver da ilusão de que ainda há tempo?

Fontes:

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https://youtu.be/OX7wKGmr9Sk?is=zK1YahDrhyxdXsqU