A um mês da abertura oficial da campanha para as intercalares de novembro, os centros de dados que alimentam a corrida à Inteligência Artificial tornaram-se o tema que mais rapidamente atravessa a fronteira entre democratas e republicanos.

Na Virgínia Ocidental, no Ohio, no Wisconsin, candidatos dos dois campos disputam agora quem promete travar com mais firmeza a expansão destas infraestruturas, um fenómeno que a NPR descreve como já a dominar campanhas de norte a sul do país.

« Sete em cada dez americanos dizem que não »

Os números explicam a unanimidade pouco habitual. Uma sondagem da Gallup indica que sete em cada dez norte-americanos se opõem à construção de um centro de dados de IA perto de casa. Um inquérito mais recente do Yale Program on Climate Communication aprofunda o retrato: 58% do total de eleitores registados opõe-se à construção local, incluindo 53% dos republicanos conservadores e 74% dos democratas liberais. Quando a direita religiosa, os sindicatos e o ativismo comunitário concordam em pedir que a Inteligência Artificial "abrande", os políticos ouvem.

No Wisconsin, a candidata democrata a governadora, Francesca Hong, fez do fim dos centros de dados o centro da sua campanha e as sondagens apontam-na como favorita nas primárias que fecham esta terça-feira. No Ohio, o pré-candidato republicano Vivek Ramaswamy defendeu, por razões diferentes mas com a mesma conclusão, uma moratória à construção destas infraestruturas, enquanto a sua rival democrata, Amy Acton, propôs uma moratória condicional e acusou-o de proximidade com os grandes interesses tecnológicos que diz querer regular.

Da retórica à lei: o precedente de Nova Iorque

A governadora de Nova Iorque, Kathy Hochul, transformou o sentimento popular em política concreta ao assinar a primeira moratória estadual do país sobre novas licenças para centros de dados de grande escala, dando às autoridades reguladoras até um ano para desenhar regras mais exigentes de proteção aos consumidores de energia e ao ambiente. Governadores republicanos do Montana, Wyoming e Missouri responderam de outra forma, aderindo a um compromisso mediado pela Casa Branca — o chamado Ratepayer Protection Pledge — que obriga os promotores destes projetos a assumir a parte que lhes cabe nos custos de energia, água e rede elétrica.

Os números da contestação são, por si só, uma declaração política: segundo dados da Fortune e da Data Center Watch, 75 grandes projetos, avaliados em mais de 130 mil milhões de dólares, foram adiados ou cancelados nos primeiros três meses do ano por oposição local organizada — incluindo um investimento de 12 mil milhões de dólares recusado por uma comunidade no Wisconsin. Enquanto isso, grupos ligados à OpenAI, à Anthropic, à Meta e à Google investem pesadamente nas intercalares, cientes de que o resultado eleitoral de novembro vai desenhar a próxima geração de regulação do setor.

Quando a tecnologia se torna questão de vizinhança

O que este episódio revela, mais do que qualquer sondagem, é uma mudança na gramática da liderança política americana: a Inteligência Artificial deixou de ser um debate abstrato sobre o futuro do trabalho ou a ética dos algoritmos, e passou a ser uma questão de fatura de eletricidade, de escassez de água e de paisagem transformada ao fundo da rua. É, também, uma lição de comunicação estratégica, a prova de que, quando um tema toca o quotidiano concreto das pessoas, atravessa com facilidade divisões ideológicas que pareciam intransponíveis.

Resta saber se os líderes que hoje prometem moratórias saberão, depois de eleitos, transformar essa promessa em governação ou se a Inteligência Artificial se tornará apenas mais um capítulo da desconfiança americana nas suas próprias instituições.