Há fotografias que mostram o que existe. E há fotografias que mostram o que foi apagado.
A imagem da selecção argentina alinhada antes de um grande jogo internacional pertence à segunda categoria. Onze homens, um hino, milhões de olhares. E, num vídeo que circula pelas redes sociais, uma pergunta incómoda: porque é que, num continente moldado pela mestiçagem, esta equipa parece um retrato da Europa?
A pergunta exige cuidado. Não se classifica um jogador pela cor da pele. Não se transforma uma equipa de futebol em tribunal da História. Mas o desconforto que o vídeo provoca não nasce no relvado. Nasce muito antes — na fundação do próprio Estado argentino.
Recuemos a 1778. Segundo dados históricos citados pelo The Guardian, africanos e afrodescendentes representavam nessa altura cerca de 37% da população do território que hoje corresponde à Argentina. Em algumas províncias, eram mais de metade. E continuaram a ser cerca de 30% da população de Buenos Aires durante décadas após a independência de 1816.
Um terço. Metade. Números que não descrevem uma nota de rodapé. Descrevem um alicerce.
Avancemos agora até 2022. O Censo do Instituto Nacional de Estatística e Censos, INDEC, contabilizou 302.936 pessoas que se reconhecem como afrodescendentes ou afirmam ter antepassados africanos. São 0,7% da população residente — acima dos 0,4% de 2010, mas ainda assim uma fracção residual.
De 37% para 0,7%. Entre estes dois números não há apenas demografia. Há uma decisão nacional.
A historiografia identifica as causas visíveis do declínio: as guerras do século XIX, que consumiram desproporcionadamente homens negros na linha da frente; as epidemias que devastaram os bairros pobres; a miscigenação; a pobreza urbana. George Reid Andrews documentou este processo em The Afro-Argentines of Buenos Aires, 1800-1900, obra de referência sobre a matéria.
Mas houve também uma engenharia deliberada. A Constituição de 1853 e o pensamento de Juan Bautista Alberdi consagraram uma ideia que se tornaria doutrina de Estado: «governar é povoar». Povoar, entenda-se, com europeus. A imigração massiva vinda do outro lado do Atlântico não foi apenas um fenómeno económico — foi um projecto de identidade. A Argentina moderna seria branca, ou não seria.
E depois veio o gesto mais silencioso e mais eficaz de todos: retirar a categoria racial dos recenseamentos oficiais. O que não se conta, não conta. O que não entra na estatística, sai da memória.
A académica Erika Denise Edwards, que tem dedicado a sua investigação a este processo, resume-o numa fórmula precisa: a invisibilidade afro-argentina não significa inexistência. Significa classificação, negação e diluição. Significa apagamento.
O apagamento não se fez apenas nos censos. Fez-se também na cultura — e aí com particular ironia.
O tango, exportado para o mundo como símbolo sofisticado de uma Buenos Aires europeia, tem raízes africanas reconhecidas. A própria UNESCO o sublinhou, em 2022, num texto com um título que dispensa interpretação: «Tango Is Also Afro». A dança que a Argentina apresenta como bilhete de identidade nasceu, em parte, das comunidades que essa mesma identidade fez desaparecer.
E a memória política encarregou-se de selar o processo. O jurista Robert J. Cottrol, em artigo académico sobre os afro-argentinos na cultura nacional, recorda a frase atribuída ao antigo Presidente Carlos Menem: «Na Argentina, os negros não existem; isso é um problema brasileiro.»
Uma frase dita com a leveza de quem enuncia uma evidência. E é precisamente essa leveza que a torna reveladora: o apagamento tinha sido tão bem-sucedido que já nem parecia apagamento. Parecia natureza.
Mas a História raramente aceita ser encerrada por decreto.
Os afro-argentinos existem. Organizam-se, reivindicam, reclamam lugar na narrativa nacional. O próprio crescimento registado entre os censos de 2010 e 2022 pode traduzir algo mais profundo do que demografia: uma consciência identitária que regressa, uma herança que deixa de ser estigma para voltar a ser pertença. Pessoas que sempre lá estiveram e que, finalmente, se permitem dizer que estão.
Também por isso, as palavras exigem rigor. Há activistas e autores que falam em genocídio. Outros historiadores preferem explicar o fenómeno pela convergência de guerra, doença, pobreza, miscigenação e políticas de branqueamento. O debate académico continua aberto. Menos discutível é a conclusão essencial: durante décadas, o Estado argentino e as suas elites construíram e promoveram uma imagem nacional assente na brancura europeia — e trataram tudo o resto como ruído.
Regressemos, então, à fotografia da equipa.
A selecção argentina não é culpada deste passado. Os seus jogadores não devem explicações por uma estrutura histórica que os antecede em dois séculos. Reduzir o debate a uma contagem de rostos no relvado seria trair a complexidade do próprio tema.
Mas o futebol tem este poder incómodo: é o espelho onde as nações se vêem sem maquilhagem. E quando uma equipa percebida internacionalmente como branca representa um país erguido sobre trabalho escravo africano, num continente profundamente mestiço, o espelho devolve uma pergunta que a Argentina ainda não respondeu: quem foi incluído — e quem foi apagado — na construção da sua identidade?
A pergunta ultrapassa fronteiras. Na América Latina, muitos países celebram a mestiçagem como bandeira, mas poucos reconhecem plenamente o peso da escravatura e da exclusão afrodescendente. O caso argentino é singular por uma razão precisa: não se limitou a marginalizar a negritude. Tentou convencer-se, durante gerações, de que ela praticamente nunca existira.
O Mundial deu visibilidade ao debate. Mas a história já lá estava, à espera. Faltava apenas olhá-la sem o filtro cómodo da memória oficial — e aceitar que a fotografia mais reveladora da Argentina não é a que se tira no relvado.
É a que ficou por revelar durante duzentos anos.