No discurso fez um alerta quanto  aos riscos da concentração de poder nas mãos de poucas empresas e países no campo digital.

Lula defendeu uma governança global multilateral para a Inteligência Artificial e ressaltou que a tecnologia pode tanto impulsionar o desenvolvimento quanto aprofundar desigualdades históricas.

Segundo o discurso do presidente Lula, a humanidade vive uma “encruzilhada” em que a Quarta Revolução Industrial avança rapidamente enquanto o multilateralismo “recua perigosamente”.

Para ele, essa combinação torna urgente a construção de regras internacionais para o uso da Inteligência Artificial, de forma inclusiva e voltada ao desenvolvimento.

Lula destacou que a Revolução Digital e a IA trazem ganhos expressivos para a produtividade industrial, os serviços públicos, a medicina e a segurança alimentar e energética, além de ampliar as formas de conexão entre pessoas.

No entanto, advertiu que as mesmas ferramentas podem ser usadas para fins destrutivos, citando práticas como armas autônomas, discursos de ódio, desinformação, pornografia infantil, feminicídio, violência contra mulheres e meninas, além da precarização do trabalho.

O presidente também afirmou que conteúdos falsos gerados ou manipulados por Inteligência Artificial têm potencial para distorcer eleições e ameaçar a democracia.

Para Lula, os algoritmos não podem ser vistos apenas como códigos matemáticos neutros, mas como parte de uma estrutura de poder que, sem ação coletiva, tende a reforçar desigualdades e a exploração econômica.

Um dos pontos centrais do pronunciamento foi a crítica à concentração de infraestrutura computacional e de dados em poucos conglomerados. Lula afirmou que informações produzidas por cidadãos, empresas e governos estariam sendo apropriadas sem retorno equivalente em geração de renda e valor nos territórios de origem.

Ao citar dados da União Internacional de Telecomunicações, o presidente lembrou que bilhões de pessoas ainda permanecem fora do universo digital e que, mesmo em 2030, centenas de milhões ainda poderão viver sem acesso à eletricidade. Nesse contexto, Lula fez uma das declarações mais fortes do discurso: “Quando poucos controlam os algoritmos e as infraestruturas digitais, não estamos falando de inovação, mas de dominação.”

Lula também relacionou a regulamentação das chamadas big techs à necessidade de proteger direitos humanos, assegurar a integridade da informação e defender as indústrias criativas. Segundo ele, o modelo de negócios dessas empresas estaria baseado na exploração de dados pessoais, na renúncia à privacidade e na monetização de conteúdos sensacionalistas que alimentam a radicalização política.

No campo interno, o presidente mencionou que o Congresso Nacional discute políticas de atração de investimentos em centros de dados e um marco regulatório para a Inteligência Artificial e  citou o lançamento do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial em 2025, a estratégia para modernizar serviços públicos e estimular emprego e renda.

No cenário internacional, Lula destacou iniciativas em diferentes blocos e fóruns, como os BRICS, a Parceria Global em Inteligência Artificial surgida no G7 e a proposta chinesa de criação de uma Organização Internacional para Cooperação em IA voltada aos países em desenvolvimento. Defendeu que nenhum desses espaços substitui o papel universal das Nações Unidas na construção de uma governança global efetivamente multilateral.

O presidente também mencionou o Pacto Digital Global aprovado em 2024, em Nova York, e apontou a criação do Painel Científico Internacional Independente sobre Inteligência Artificial como um avanço relevante na consolidação de um organismo científico global para o tema.

Ao final, Lula elogiou a tradição intelectual e filosófica da Índia, afirmando que o país oferece referências importantes para enfrentar os dilemas éticos e sociais colocados pela Inteligência Artificial, especialmente em temas como justiça, diversidade, inclusão e resiliência

 

Eis o seu discurso

 

Para o Brasil é uma satisfação participar da Cúpula de Impacto de Inteligência Artificial organizada pelo governo indiano, sendo esta a primeira ocasião em que se realiza no Sul Global.

Aqui em Délhi, o mundo digital retorna à sua terra natal. Foram matemáticos indianos que nos legaram, há mais de 2 mil anos, o sistema binário que viria a estruturar a computação moderna.

Fazemos o caminho de volta para debater um dos maiores dilemas da atualidade.

Nossas sociedades encontram-se em uma encruzilhada. A Quarta Revolução Industrial avança rapidamente enquanto o multilateralismo recua perigosamente. É nesse contexto que a governança global da Inteligência Artificial assume um papel estratégico.Toda inovação tecnológica de grande impacto possui caráter dual e nos confronta com questões éticas e políticas. A aviação, o uso do átomo, a engenharia genética e a corrida espacial são exemplos desse fenômeno. Elas podem multiplicar o bem-estar coletivo ou lançar sombras sobre os destinos da humanidade.A Revolução Digital e a Inteligência Artificial elevam esse desafio a níveis sem precedentes. Elas impactam positivamente a produtividade industrial, os serviços públicos, a medicina, a segurança alimentar e energética e a forma como conectamos uns com os outros. Mas também podem fomentar práticas extremamente nefastas, como o emprego de armas autônomas, discursos de ódio, desinformação, pornografia infantil, feminicídio, violência contra mulheres e meninas e precarização do trabalho.

Conteúdos falsos manipulados por inteligência artificial distorcem processos eleitorais e põem em risco a democracia.

Os algoritmos não são apenas aplicações de códigos matemáticos que sustentam o mundo digital. São parte de uma complexa estrutura de poder. Sem ação coletiva, a Inteligência Artificial aprofundará desigualdades históricas.Capacidades computacionais, infraestrutura e capital permanecem excessivamente concentrados em poucos países e empresas. Os dados gerados por nossos cidadãos, empresas e organismos públicos estão sendo apropriados por poucos conglomerados sem contrapartida equivalente em geração de valor e renda em nossos territórios.Segundo a União Internacional de Telecomunicações, 2 bilhões e 600 milhões de pessoas estão desconectadas do universo digital. As estimativas mostram que, em 2030, ainda teremos 660 milhões de pessoas sem eletricidade.

Quando poucos controlam os algoritmos e as infraestruturas digitais, não estamos falando de inovação, mas de dominação.

A regulamentação das chamadas “Big Techs” está ligada ao imperativo de salvaguardar os direitos humanos na esfera digital, promover a integridade da informação e proteger as indústrias criativas de nossos países. O modelo atual de negócios dessas empresas depende da exploração de dados pessoais, da renúncia do direito à privacidade e da monetização de conteúdos chamativos que amplificam a radicalização política.O regime de governança dessas tecnologias definirá quem participa, quem é explorado e quem ficará à margem desse processo. Colocar o ser humano no centro das nossas decisões é tarefa urgente.O Congresso brasileiro discute uma política de atração de investimentos em centros de dados e um marco regulatório de Inteligência Artificial. O Brasil lançou em 2025 o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial.

Esse plano expressa nosso compromisso com a melhoria da qualidade de vida das pessoas através de serviços públicos mais ágeis e maior estímulo à geração de emprego e renda.

Este foi o paradigma da declaração sobre Inteligência Artificial que aprovamos na Cúpula dos BRICS no Rio de Janeiro no ano passado. Esta é a postura que o Brasil adota no diálogo com outros parceiros e foros.Participamos da iniciativa da China sobre a criação de uma Organização Internacional para Cooperação em Inteligência Artificial com foco nos países em desenvolvimento. Dialogamos com a Parceria Global em Inteligência Artificial que nasceu no G7.

Mas nenhum desses foros substitui a universalidade das Nações Unidas para uma governança internacional da Inteligência Artificial que seja multilateral, inclusiva e orientada ao desenvolvimento.

O Pacto Digital Global que aprovamos em Nova York em setembro de 2024 estabeleceu um mecanismo crucial. O Painel Científico Internacional Independente sobre Inteligência Artificial é o primeiro órgão científico global sobre o tema e reúne especialistas, fatos e evidências em suas manifestações.

O Brasil defende uma governança que reconheça a diversidade de trajetórias nacionais e garanta que a Inteligência Artificial fortaleça a democracia, a coesão social e a soberania dos países.

Senhoras e Senhores,

A Índia, ao longo da sua história, legou à humanidade contribuições fecundas e extraordinárias em diversos campos do conhecimento: nas artes, na ciência e na filosofia. Uma herança que traz à luz grandes dilemas éticos sobre a justiça, a diversidade, a inclusão e a resiliência. Esse patrimônio é um poderoso referencial na busca por respostas aos desafios que a Inteligência Artificial impõe às sociedades contemporâneas.

Muito obrigado.