Meu querido Diretor e Irmão de Lutas,

Li o teu texto com a atenção que mereces. E mereces muita. Escreveste com documentação, com indignação, com aquela urgência de quem viu demasiado mundo para fingir que não vê.

E, no entanto, discordo de ti. Discordo no essencial. Discordo no princípio. Discordo na conclusão. Porque há uma pergunta que o teu texto nunca faz — e é a única que importa: quem decide o que uma mulher veste?

Começaste bem. Paraste cedo.

Começaste pelo princípio, e bem: Liberdade, Igualdade, Fraternidade, Justiça Social. Ser livre, escreveste, é poder decidir por si próprio. Exatamente, meu Irmão. Por si próprio.

Não pelo marido. Não pelo imã. Mas também e aqui separamo-nos, não pelo Estado. Não pelo Parlamento. Não por uma maioria que nunca viu uma burca ao vivo e legisla sobre ela com a convicção de quem legisla sobre um fantasma.

A liberdade que só protege as escolhas de que gostamos não é liberdade. É gosto com força de lei.

Se uma mulher é obrigada a cobrir-se, isso é opressão. Se uma mulher é obrigada a descobrir-se, isso é opressão. O verbo é o mesmo: obrigar. Muda apenas a mão que segura o tecido.

E uma esquerda digna desse nome combate a mão — não o tecido.

O teu diagnóstico está certo. A tua receita, não.

Tens razão em muito do que descreves. Tens razão sobre a awrah e a assimetria que ela institui entre o corpo do homem e o corpo da mulher. Tens razão sobre as leis de herança que dão à mulher metade da quota do homem. Tens razão sobre a exclusão feminina do trabalho e da riqueza nas monarquias do Golfo. Tens razão sobre sistemas onde a mulher vive, de facto, sob o poder do homem.

Tudo isso é verdade. E tudo isso é irrelevante para a lei que discutimos.

Porque proibir a burca em Lisboa não liberta uma única mulher em Riade. Não devolve uma herança em Cabul. Não abre um posto de trabalho no Cairo. A lei portuguesa não tem jurisdição sobre a Arábia Saudita, tem jurisdição sobre meia dúzia de mulheres que vivem entre nós.

E não é força de expressão. Segundo o imã da Mesquita Central de Lisboa, David Munir, usam burca em Portugal cerca de meia dúzia de muçulmanas; niqab, pouco mais de uma dúzia. E o mesmo imã lembra o que o teu texto omite: nem a burca nem o niqab são obrigatórios no Islão.

Meia dúzia de mulheres, meu Irmão. Mobilizou-se um Parlamento, redigiu-se uma lei, convocou-se a Constituição — por meia dúzia de mulheres. Isto não é política de proteção. É política de sinalização. Não se legislou para elas. Legislou-se contra elas, para falar a outros.

A lei que dizes defender pune quem dizes proteger

Olha para o diploma que a direita aprovou em teu nome, sim, em teu nome, porque quando um homem de esquerda empresta os seus argumentos a uma lei do Chega, o Chega agradece e guarda o recibo.

A lei prevê coimas até 4.000 euros. E quem as paga? Não é o marido que alegadamente oprime. É a mulher alegadamente oprimida.

Lê devagar comigo: uma lei apresentada em nome da dignidade das mulheres pune... mulheres.

Se ela é vítima, multamo-la. Se é livre, proibimo-la. Em qualquer dos cenários, quem perde é ela. É a única constante da equação.

E se uma mulher é realmente coagida pela família a cobrir o rosto, uma lei que a impede de sair assim à rua não a liberta, tranca-a em casa. Retira-lhe a escola, o transporte, o centro de saúde, a rua. A opressão que dizias combater fica intacta; apenas deixa de se ver. Chama-se a isto libertar uma mulher apagando-a.

Não sou eu quem o diz. A Ordem dos Advogados e o Conselho Superior do Ministério Público deram pareceres negativos, apontando a violação da liberdade de religião, da identidade pessoal e da proteção contra a discriminação. A Associação Portuguesa de Mulheres Juristas, mulheres, juristas, declarou o projeto ferido de inconstitucionalidade. A Amnistia Internacional condenou-o.

Quando as mulheres juristas deste país dizem que uma lei «pelas mulheres» as fere, um homem de esquerda escuta-as. Ou devia.

O caminho existe e não passa por multar vítimas

Não me acuses de complacência, porque não a tenho.

Quer-se proteger mulheres coagidas? Persiga-se quem coage. Trate-se a imposição do véu como aquilo que é — violência doméstica, crime público, sem depender de queixa. Persegue-se o agressor. Não se multa a vítima. Não se proíbe a livre.

Quer-se identificação? O Estado já a pode exigir onde ela é necessária: fronteiras, tribunais, exames, atos formais. Transformar uma exceção administrativa numa proibição geral não é segurança. É mensagem. E a mensagem tem destinatário certo.

Porque sejamos honestos quanto ao argumento da «cara aberta»: ninguém propõe multar a noiva de véu, o motard de capacete, o adepto de cachecol em janeiro. A lei diz «rosto», mas todos sabemos que quer dizer «aquele rosto». E uma norma geral escrita para atingir um grupo específico tem um nome antigo: discriminação.

O que nos separa cabe numa frase

Defendo o direito de uma mulher a não usar a burca com a mesma força com que defendo o direito de outra a usá-la. Porque não defendo tecidos. Defendo mulheres. E defender mulheres é confiar que sabem decidir sobre o próprio corpo — sem tutela de maridos, de clérigos, de partidos ou de parlamentos.

Tu queres arrancar o véu para libertar a mulher. Eu quero libertar a mulher — e deixar que seja ela a decidir o que faz ao véu.

A Liberdade, meu querido Diretor e Irmão de Lutas, ou é dela ou não é de ninguém.

Morgado Jr