O estudo revela que muitos sistemas hidrológicos importantes ao redor do mundo chegaram a um ponto sem retorno, em que o volume de água extraida é muito maior que a reposição natural e ultrapassar essa linha significa que aquíferos, lagos e zonas úmidas não podem mais ser restaurados.
O diretor do Instituto para Água, Meio Ambiente e Saúde, Kaveh Madani, disse que é preciso encarar a verdade incomoda de que “muitos sistemas hídricos essenciais já estão em colapso”.
A situação afeta áreas responsáveis por quase metade da produção global de alimentos.
Aos jornalistas em Nova Iorque, ele afirmou que se a humanidade continuar a lidar com essa falha como uma crise temporária, com soluções de curto prazo, “o dano ecológico só vai se aprofundar, alimentando conflitos sociais”.
Ele acenguou que a falência da água é uma questão séria de justiça e segurança globais.
Os dados indicam que metade dos grandes lagos do mundo, dos quais 25% da humanidade depende, perderam água desde o início da década de 1990.
Além disso, 70% dos principais aquíferos apresentam declínio.
Nas últimas cinco décadas, 410 milhões de hectares de zonas úmidas naturais foram destruídos, quase o equivalente ao tamanho de toda a União Europeia.
O estudo ressalta que embora nem todas as bacias hidrográficas ou países estejam nessa situação de falência hídrica, muitas áreas cruciais já foram afetadas, com consequências no comércio, migração, equilibrio climático e relações geopolíticas.
Usando analogias financeiras, o relatório afirma que muitas sociedades não só gastaram em excesso sua "renda" anual de água renovável proveniente de rios, solos e neve derretida, como também esgotaram suas "reservas" de longo prazo em aquíferos, geleiras, zonas úmidas e outros reservatórios naturais.
O levantamento ressalta o impacto das escolhas e atividades humanas no esgotamento dos recursos hídricos, criando situações crônicas.
Em muitas regiões, o que antes era uma seca ocasional transformou-se em escassez permanente de água, que persiste mesmo em anos com chuvas “normais”, devido a uma demanda maior do que o ambiente pode oferecer.
Paralelamente a essas mudanças físicas, a qualidade da água também caiu em muitos locais, devido a aditivos usados na agricultura, despejo de esgoto, resíduos de mineração, poluição por plásticos e contaminantes como produtos farmacêuticos e de higiene pessoal.
Essa poluição degradou rios, lagos e águas costeiras.
Bacias hidrográficas densamente povoadas estão sendo afetadas pela proliferação de algas nocivas, contaminação por patógenos e altos níveis de tóxicidade, o que dificulta o reaproveitamento da água para uso humano.
Para Anant Shukla A transferência de contaminantes entre espécies marinhas e seres humanos através do consumo de frutos do mar tem sido identificada como um grave risco para a saúde
Os autores do relatório enfatizam que os governos devem agora focar na “gestão da falência”, prevenindo danos irreversíveis, transformando setores que consomem muita água e priorizando transições justas para comunidades vulneráveis.
O documento foi divulgado antes de uma reunião de alto nível em Dacar, no Senegal, marcada para 26 a 27 de janeiro.