Num tempo dominado por declarações de poucos segundos, vídeos cortados, indignações instantâneas e julgamentos partidários, um trabalho jornalístico de fundo permite recuperar aquilo que quase sempre desaparece no ruído: o contexto, as decisões, as dificuldades, os protagonistas e a evolução das instituições ao longo do tempo.
É por essa razão que apoiamos integralmente a realização e a divulgação desta edição de A República. Não por fidelidade partidária, nem para transformar um balanço presidencial numa declaração de apoio eleitoral. Apoiamos o trabalho porque uma República que documenta o exercício do poder oferece aos cidadãos melhores condições para o avaliarem.
Apoiar a reportagem não significa assinar um cheque político em branco. Significa reconhecer o seu valor jornalístico, documental e democrático.
José Maria Neves tomou posse como quinto Presidente da República de Cabo Verde em 9 de novembro de 2021, depois de vencer as eleições presidenciais na primeira volta. Chegou ao Palácio do Plateau com uma longa experiência governativa, incluindo 15 anos como primeiro-ministro, mas encontrou uma configuração política particularmente exigente: um Presidente apoiado pelo PAICV e um Governo liderado pelo MpD.
No sistema cabo-verdiano, o Presidente não dirige quotidianamente o Governo nem executa as políticas públicas. A sua influência exerce-se através da representação do Estado, da fiscalização política e constitucional, do poder de veto, da capacidade de mediação e da construção de consensos. O Africa Center for Strategic Studies descreve precisamente o modelo cabo-verdiano como uma partilha de responsabilidades que depende da cooperação entre o Presidente da República e o primeiro-ministro.
Avaliar José Maria Neves exige, portanto, respeitar esta diferença. Seria constitucionalmente errado atribuir-lhe diretamente os resultados da economia, da saúde, da educação, dos transportes ou da governação diária. O Presidente pode alertar, influenciar, convocar, vetar e representar. Não pode substituir-se ao Governo.
O facto de a coabitação entre a Presidência e um Governo de outra orientação política não se ter transformado numa crise constitucional é um dado relevante. Não resulta exclusivamente da ação de uma pessoa, porque depende igualmente da maturidade dos partidos, dos tribunais, do Parlamento e da sociedade. Mas integra legitimamente o balanço de uma Presidência que escolheu apresentar o diálogo como uma das suas marcas.
Na conferência de imprensa de balanço, José Maria Neves classificou o mandato como “audaz, auspicioso e cintilante”. Trata-se, evidentemente, de uma autoavaliação política, e não de uma conclusão jornalística independente. O interesse da edição está precisamente em permitir que os leitores confrontem essa afirmação com o percurso documentado.
Segundo o balanço divulgado pela Inforpress, o Chefe de Estado destacou a “Presidência na Ilha”, a “Presidência na Diáspora”, o diálogo com os jovens e a presença junto das populações em momentos particularmente dolorosos. Reivindicou também o papel de “ouvidor-geral da República” e de elemento de ligação entre os cabo-verdianos residentes no arquipélago e as comunidades espalhadas pelo mundo.
Esta dimensão merece atenção. Cabo Verde não termina nas suas fronteiras geográficas. É um Estado constituído pelas ilhas, mas também por uma diáspora que participa na economia, na cultura, na política e na identidade nacional. Uma Presidência que se desloca, escuta e reconhece essa realidade aproxima a instituição dos cidadãos. O valor dessas iniciativas deverá ser medido não apenas pelo número de viagens ou encontros, mas pelo seguimento dado às preocupações recolhidas e pela capacidade de as transformar em influência institucional.
Também no plano internacional o mandato procurou dar visibilidade a Cabo Verde através dos oceanos, do património africano, da cultura, da sustentabilidade e da cooperação multilateral. O Presidente destacou as responsabilidades que lhe foram atribuídas no âmbito da União Africana e da UNESCO, assim como a realização de conferências internacionais dedicadas à economia azul e à preservação dos mares.
Num pequeno Estado insular, a diplomacia presidencial não é decoração. Cabo Verde depende fortemente da sua credibilidade internacional, da cooperação, da mobilização de recursos e da capacidade de colocar os interesses dos pequenos Estados insulares nas agendas mundiais. A representação externa pode, por isso, produzir valor político, mesmo quando os resultados não são imediatamente visíveis no quotidiano das pessoas.
Mas uma visão externa e imparcial obriga-nos a confrontar a reputação internacional com a perceção dos próprios cabo-verdianos.
A Freedom House classificou Cabo Verde com 92 pontos em 100 na edição de 2025 do seu relatório, mantendo o país entre as democracias classificadas como livres. O Índice Ibrahim de Governação Africana coloca Cabo Verde no terceiro lugar entre 54 países africanos, com 69,6 pontos em 100 na avaliação global da governação.
São resultados importantes. Confirmam que o país construiu instituições, liberdades civis e mecanismos de alternância que continuam a diferenciá-lo positivamente no continente africano.
Nos resultados do Afrobarometer divulgados em 2025, aproximadamente 78% dos inquiridos declararam-se pouco ou nada satisfeitos com o funcionamento da democracia cabo-verdiana. Apenas cerca de 20% disseram estar razoavelmente ou muito satisfeitos. Os dados completos do inquérito mostram uma diferença que não deve ser ignorada: Cabo Verde pode possuir uma democracia institucionalmente sólida e, simultaneamente, ter cidadãos profundamente insatisfeitos com os seus resultados.
Não existe aqui uma contradição. Os rankings avaliam direitos, liberdades, eleições e instituições. Os cidadãos avaliam a vida que experimentam: emprego, rendimento, justiça, desigualdades, serviços públicos, segurança e capacidade de serem ouvidos.
É neste espaço entre a reputação externa e a experiência interna que a Presidência deve exercer a sua magistratura de influência. O Presidente não pode resolver sozinho os problemas do país, mas pode impedir que a estabilidade institucional seja utilizada como desculpa para ignorar a insatisfação social.
A alternância resultante das eleições legislativas de 17 de maio de 2026 voltou a demonstrar a capacidade democrática de Cabo Verde. O PAICV conquistou 37 dos 72 lugares da Assembleia Nacional, segundo os resultados confirmados pela Comissão Nacional de Eleições e divulgados pela Africanews. A transição decorreu pacificamente, devolvendo ao poder o partido que estivera uma década na oposição.
Esta mudança cria, porém, uma nova exigência para José Maria Neves. Durante grande parte do mandato, a sua independência foi testada pela convivência com um Governo do MpD. Agora, com um Governo pertencente à mesma família política que apoiou a sua eleição presidencial, essa independência terá de ser demonstrada de outra forma. Um Presidente da República não pode ser mais exigente com os adversários do que com aqueles que lhe são politicamente próximos.
A edição especial de A República surge, assim, num momento em que o passado do mandato se cruza com as interrogações sobre o futuro. A proximidade das eleições presidenciais torna inevitável uma leitura política da publicação. A resposta a qualquer suspeita de instrumentalização não deverá ser o silêncio, mas a transparência: identificação das fontes, acesso aos documentos, explicação das opções editoriais e abertura ao contraditório.
Uma grande reportagem presidencial não deve encerrar o debate sobre José Maria Neves. Deve abri-lo. Deve permitir reconhecer o que foi conseguido, identificar o que ficou por concretizar e compreender os limites constitucionais da função. Deve também deixar perguntas para quem vier a ocupar o cargo: como aproximar a Presidência dos cidadãos sem transformar proximidade em encenação? Como representar a diáspora sem a reduzir a cerimónias? Como projetar Cabo Verde no mundo e converter essa visibilidade em oportunidades concretas para o país?
Vista de fora das trincheiras partidárias, a Presidência de José Maria Neves apresenta resultados positivos no plano da estabilidade institucional, da moderação política, da presença social e da representação internacional. Existem igualmente áreas que exigem avaliação mais aprofundada, especialmente quanto aos efeitos concretos das iniciativas presidenciais e à capacidade de transformar a escuta em influência efetiva.
Cabo Verde já demonstrou saber realizar eleições, aceitar resultados e alternar governos. O desafio seguinte é aprender a discutir os seus dirigentes sem os transformar em figuras intocáveis ou em inimigos permanentes.
É precisamente por isso que esta edição merece o nosso apoio integral. Porque preservar o registo de um mandato é servir a memória coletiva. Porque prestar contas é uma obrigação republicana. E porque a República, antes de pertencer aos partidos, pertence aos cidadãos.
Foto de destaque: Facebook de José Maria Neves