Milhares de funcionários ameaçam avançar para uma greve e tal hipotese de interrupção na produção de chips sobressaltou o governo sul-coreano e a indústria tecnológica global

A Samsung Electronics é um dos principais beneficiários do boom global da inteligência artificial.

O aumento acentuado na procura de semicondutores transformou a maior empresa da Coreia do Sul numa tecnológica de 1 bilião de dólares este ano, impulsionando a bolsa de Seul para o sexto lugar no ranking mundial.

No entanto, há quem não esteja satisfeito com este resultado no país - os trabalhadores da Samsung.

Dezenas de milhares de funcionários ameaçaram avançar para a greve, numa paralisação sem precedentes que poderá comprometer o fornecimento crucial de chips de memória, numa altura em que a indústria da inteligência artificial procura desesperadamente aumentar o seu abastecimento.

Milhares de funcionários ameaçaram avançar para a greve e a perspetiva de uma interrupção na produção de chips sobressaltou tanto o governo sul-coreano como a indústria tecnológica global

A Samsung Electronics é hoje um dos principais beneficiários do boom global da inteligência artificial. O aumento acentuado na procura de semicondutores transformou a maior empresa da Coreia do Sul numa tecnológica de 1 bilião de dólares este ano, impulsionando a bolsa de Seul para o sexto lugar no ranking mundial.

No entanto, há quem não esteja satisfeito com este resultado no país: os trabalhadores da Samsung. Dezenas de milhares de funcionários ameaçaram avançar para a greve, numa paralisação sem precedentes que poderá comprometer o fornecimento crucial de chips de memória, numa altura em que a indústria da inteligência artificial procura desesperadamente aumentar o seu abastecimento.

"Qualquer perturbação na produção de semicondutores da Samsung iria muito além das perdas de um único grupo empresarial, deixando marcas profundas em toda a economia nacional", alertou na semana passada o primeiro-ministro sul-coreano, Kim Min-seok.

Esta vitória preliminar dos funcionários da Samsung surge numa altura em que a ascensão da inteligência artificial ameaça reestruturar o mercado de trabalho tecnológico em todo o mundo. Nos últimos dias, a Meta despediu ou recolocou perto de 15 mil colaboradores, inseridos numa estratégia para canalizar mais recursos para a inteligência artificial. Outras empresas, como o LinkedIn, a Amazon e a Snap, também anunciaram cortes de pessoal e reestruturações focadas nesta tecnologia este ano.

 

Trabalhadores afetos ao sindicato da Samsung Electronics participam numa manifestação para exigir bónus mais elevados no complexo de fabrico de chips informáticos da empresa em Pyeongtaek, na Coreia do Sul, a 23 de abril de 2026. (AP Photo/Ahn Young-joon)

Uma fatia maior do bolo da inteligência artificial

No mês passado, a Samsung registou lucros trimestrais recorde, que dispararam mais de oito vezes e meia em comparação com o mesmo período do ano anterior, superando o lucro operacional de todo o ano de 2025.

Agora, os trabalhadores exigem uma parte maior desses ganhos.

Os sindicatos exigem que a Samsung elimine o limite máximo de bónus, atualmente fixado em 50% do salário anual, aloque 15% do lucro operacional anual para prémios e estenda estas alterações para lá deste ano.

Embora os profissionais da produção de chips da Samsung aufiram alguns dos salários mais competitivos do país, a contestação ganhou força devido à disparidade nos bónus face à rival SK Hynix, a segunda maior empresa da Coreia do Sul.

A SK Hynix também alcançou lucros recorde este ano, mas os seus funcionários garantiram uma nova estrutura de incentivos em setembro, que eliminou o teto que limitava os prémios a 1.000% do salário-base. A empresa passou a destinar 10% do seu lucro operacional anual para um fundo de bónus dos trabalhadores.

 

Com esta nova política retributiva, alguns funcionários da SK Hynix têm direito a prémios equivalentes a quase 3.000% do respetivo salário-base de 2025, fixando o bónus anual médio por trabalhador nos 700 milhões de won (cerca de 460 mil dólares ou 396 mil euros).

"A indústria de semicondutores enfrenta atualmente uma guerra pela retenção de talento global", sublinhou o maior sindicato da Samsung num comunicado emitido no mês passado. "A SK Hynix já reviu a sua estrutura de compensações para reter os profissionais, enquanto as empresas estrangeiras estão a aliciar os nossos engenheiros com propostas excecionais."

No âmbito do acordo preliminar alcançado com o sindicato, a Samsung aceitou abolir o limite atual dos bónus e alocar 10,5% dos lucros de desempenho comercial para a atribuição de prémios na divisão de semicondutores da empresa.

"O entendimento surgiu mais tarde do que o esperado", reconheceu a Samsung numa nota divulgada. "Vamos trabalhar no sentido de construir uma relação laboral mais madura e construtiva, para garantir que uma situação destas não volte a repetir-se."

 

A disputa gerou um debate nacional sobre a distribuição da riqueza, impulsionado pelos lucros maciços que a Samsung e a SK Hynix estão a gerar.

Jo Geun-jun, responsável pelo Anyoneunion, um grupo sul-coreano de investigação e defesa dos direitos laborais, diz que o boom da inteligência artificial criou "uma forma extrema de hiperpolarização."

"Por um lado, o número de trabalhadores sem segurança no emprego ou proteções laborais continua a crescer. Por outro, os funcionários permanentes dos grandes conglomerados desfrutam de pagamentos de bónus sem precedentes, impulsionados pelos lucros crescentes das empresas", sublinha o especialista.

 

Um grupo de acionistas da Samsung Electronics Co. realiza um protesto contra o acordo salarial provisório alcançado entre a empresa e o sindicato, perto da residência do presidente do conselho de administração da Samsung Electronics, Lee Jae-yong, em Seul, na semana passada. (Ahn Young-joon/AP)

 

Escassez severa de memórias

As ameaças de greve surgiram precisamente no momento em que a cadeia de abastecimento de semicondutores enfrenta uma pressão extraordinária. Gigantes tecnológicas mundiais, da Google à Amazon, desdobram-se na procura por processadores de inteligência artificial de última geração para expandir os seus centros de dados e treinar novos modelos tecnológicos.

Outra vez vistos como um produto de margens reduzidas, os chips de memória tornaram-se indispensáveis nos processadores de inteligência artificial, ao garantirem a rapidez na transferência e no armazenamento de dados, explica Simon Woo, coordenador de investigação tecnológica para a região Ásia-Pacífico do Bank of America. O analista acrescenta que a escassez resultante poderá prolongar-se até 2028.

A consultora SemiAnalysis antecipa que os preços dos chips de memória possam mais do que duplicar até ao final deste ano, em comparação com os valores registados em 2025.

Este cenário coloca a Samsung numa posição crítica na cadeia de abastecimento global, sendo um dos três fabricantes que dominam o mercado mundial de memórias, a par da SK Hynix e da norte-americana Micron Technology.

 

Com um historial longo no setor dos semicondutores, a Samsung demorou inicialmente a capitalizar o boom da inteligência artificial, ficando atrás da SK Hynix no ano passado devido à quebra nos lucros. Contudo, a tecnológica conseguiu recuperar terreno, impulsionada em parte pela procura incessante de chips de memória.

No segmento de memórias para inteligência artificial, a SK Hynix lidera com uma quota de mercado de 57%, seguida pela Samsung com 22% e pela Micron com 21%, segundo os dados da consultora Counterpoint relativos ao quarto trimestre do ano passado.

Para já, o acordo provisório fez valorizar as ações da Samsung, embora a ameaça de greve se mantenha caso os membros do sindicato votem contra o documento.

"Num contexto em que a oferta de memórias já se encontra severamente limitada, qualquer perturbação num dos principais fornecedores terá inevitavelmente um impacto negativo na indústria da inteligência artificial", alerta Ray Wang, analista da SemiAnalysis sediado em Seul. "Isto poderá agravar ainda mais a escassez e prolongar a tendência de subida dos preços a curto prazo."

Ainda assim, não se perspetiva que uma eventual greve paralise por completo a produção. A Samsung garantiu uma pequena vitória, após um tribunal ter decretado uma providência cautelar que obriga os funcionários afetos às operações de segurança da produção de chips a assegurar os níveis normais de atividade.