A crescente preocupação com os riscos invisíveis presentes nos alimentos ultraprocessados voltou ao centro do debate sobre segurança alimentar em Portugal.

A ASAE anunciou a apreensão de cerca de quatro toneladas de produtos alimentares e materiais associados à indústria de aperitivos e batatas fritas, no âmbito da operação nacional “Temperatura Máxima”, realizada durante o mês de abril.

A ação de fiscalização incidiu sobre a presença de acrilamida, um contaminante químico que se forma em alimentos ricos em hidratos de carbono quando submetidos a temperaturas superiores a 120 graus Celsius em ambientes de baixa humidade. Produtos como batatas fritas, snacks, bolachas, pão torrado e cereais processados estão entre os alimentos mais frequentemente associados à formação desta substância.

Segundo a ASAE, foram fiscalizados 15 operadores económicos, tendo sido instaurados seis processos de contraordenação por infrações relacionadas com higiene e segurança alimentar. Entre as irregularidades detetadas estão violações ao Regulamento (CE) n.º 852/2004 relativo à higiene dos géneros alimentícios, ausência de sistemas baseados nos princípios HACCP — metodologia obrigatória de análise de perigos e controlo de pontos críticos — e falhas graves de rotulagem e controlo metrológico.

Além das apreensões de produtos alimentares, as autoridades confiscaram mais de 27.600 embalagens, duas toneladas de bobines de rótulos e um instrumento de pesagem utilizado em contexto industrial.

Um risco silencioso para a saúde pública

A acrilamida tem sido alvo de crescente preocupação científica e regulatória na Europa. Em 2015, a European Food Safety Authority concluiu que esta substância “aumenta potencialmente o risco de desenvolvimento de cancro em consumidores de todas as faixas etárias”. A avaliação baseou-se em estudos laboratoriais realizados em animais e em evidências toxicológicas associadas à exposição prolongada.

Posteriormente, a European Commission aprovou o Regulamento (UE) 2017/2158, que estabelece medidas de mitigação obrigatórias para reduzir os níveis de acrilamida nos alimentos comercializados no espaço europeu.

Em Portugal, apesar do reforço das normas europeias, especialistas em saúde pública alertam que muitos consumidores desconhecem completamente os riscos associados ao consumo frequente de alimentos excessivamente fritos ou queimados.

Investigadores ligados ao Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge têm defendido uma maior literacia alimentar e campanhas públicas de sensibilização sobre métodos de confeção mais seguros, sobretudo em ambientes industriais e restauração rápida.

Segurança alimentar e responsabilidade industrial

A operação agora divulgada pela ASAE levanta novamente questões sobre a responsabilidade das indústrias alimentares na proteção da saúde pública. Num mercado altamente competitivo, onde o baixo custo e a durabilidade dos produtos frequentemente prevalecem sobre critérios nutricionais e sanitários, as autoridades procuram reforçar mecanismos de fiscalização preventiva.

A ausência de sistemas HACCP identificada em algumas empresas fiscalizadas é particularmente preocupante. Este sistema é considerado um dos pilares internacionais da segurança alimentar moderna, precisamente porque permite identificar riscos antes que os produtos cheguem ao consumidor final.

Especialistas em segurança alimentar recordam que a prevenção da formação de acrilamida passa por vários fatores técnicos: controlo rigoroso das temperaturas de confeção, seleção adequada de matérias-primas, redução do tempo de fritura e reformulação de receitas industriais.

Entre a fiscalização e a consciência do consumidor

A operação “Temperatura Máxima” revela também uma dimensão mais ampla do desafio alimentar contemporâneo: o equilíbrio entre produção industrial em larga escala e proteção efetiva da saúde humana.

Num país onde o consumo de snacks processados continua elevado, sobretudo entre os mais jovens, a fiscalização assume um papel essencial. Contudo, vários especialistas defendem que o combate aos riscos alimentares não pode depender apenas da intervenção repressiva das autoridades.

A educação alimentar, a transparência na rotulagem e o acesso a informação científica acessível ao público continuam a ser instrumentos decisivos para reduzir a exposição a substâncias potencialmente perigosas.

Como escreveu o sociólogo e filósofo francês Edgar Morin: “A saúde de uma sociedade mede-se também pela forma como protege aquilo que entra no corpo dos seus cidadãos.”

Fontes

  • ASAE — Comunicado oficial da operação “Temperatura Máxima”
  • European Food Safety Authority — Scientific Opinion on Acrylamide in Food (2015)
  • European Commission — Regulamento (UE) 2017/2158
  • Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge
  • Organização Mundial da Saúde — recomendações sobre contaminantes alimentares

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