Para preencher o vácuo, propus, então, uma edição especial do jornal apenas com poemas de poetas baianos. Ele topou e eu caí em campo. Mas aí veio o desenrolar da segunda notícia: meu amigo Walmir, com quem eu desenvolvia um trabalho para a criação de um musical, já na UTI de um hospital, subitamente faleceu.
As consequências foram traumáticas para mim e a edição especial do jornal não pôde sair na data prevista. Mas sai agora, com um pequeno atraso, pois ainda está em tempo. E por que?
Nestes dias tenebrosos em que vivemos, com a ascensão de novos déspotas internacionais e o perigo de guerra aumentando, há quem diga que não é o momento de falar de poesia, pois não deveríamos “perder tempo”. Tal assertiva, evidentemente, vai ao encontro dos interesses daqueles que dominam o mundo, que agem para desestimular o florescimento da cultura e para dar lugar ao estímulo do lucro e da riqueza, via exploração do homem pelo homem e a permanência da massa trabalhadora na ignorância e na mediocridade.
Mas, ao contrário dessa onda retrógrada, que é uma das particularidades do mundo atual, a ameaçar todos nós, a poesia prolifera sempre com força renovada e expressão libertadora. Particularmente quando a situação se torna mais caótica. Por isso, a poesia não sucumbirá diante das novas armas dos poderosos: força bélica e mentira.
Dos “canhões de Amaralina” que não deviam estar na paisagem, no poema Martinha de Ruy Espinheira Filho, numa luminosa visão pacifista e antimilitarista; dos ferinos poemas de Cicatrizes, de Carlos Machado, autêntica denúncia das marcas da escravidão no Brasil; da eloquência dramática dos Degredados da Terra de Narlan Matos; do elogio da amizade e do companheirismo nos sonetos de Paulo Martins e Florisvaldo Mattos; da sonoridade musical dos versos de Antonio Brasileiro; das canções engajadas de Walmir Rocha Palma, regurgitam resistência e entrelaçamento humano. O despertar da memória nos versos de todos eles aqui publicados, encontramos palavras de glorificação do humanismo que sempre se destacarão no combate ao caos e à tirania. Até quando não houver mais esperança, nos restará ainda a força da poesia. Como disse o poeta Uaçaí Lopes, também baiano, “a poesia é uma bomba”. Portanto, ela é a arma legítima dos poetas.
Por tudo isso é que pensamos em fazer esta edição especial do Estrategizando, publicando apenas poemas. Escolhemos sete poetas da Bahia, tradicionalmente terra de grandes vates, desde Gregório de Matos e Castro Alves. Sem ordem preestabelecida, são eles: Florisvaldo Mattos, Ruy Espinheira Filho, Paulo Martins, Walmir Rocha Palma, Carlos Machado, Antonio Brasileiro e Narlan Matos. Ao fazer esta publicação, estamos seguindo as prédicas do poeta Ruy Espinheira Filho em seu poema Epígrafe: tornar a vida “menos obscura e breve”. E isso não deixa de ser uma forma de resistência.
Florisvaldo Mattos nasceu em 1932, em Uruçuca, sul da Bahia, onde fez o curso primário, tendo cursado o secundário em Ilhéus e Itabuna. Diplomou-se em Direito pela UFBA mas optou cedo pelo jornalismo, ocupando cargos em vários jornais como repórter, chefe de reportagem, editor e editor-chefe. Integrou o grupo nuclear da famosa GERAÇÃO MAPA, que atuou nos anos 60 sob a liderança do cineasta Glauber Rocha. Escritor e poeta, atuou nas Revistas Ângulos e Mapa, ambas de Salvador. De 1990 a 2003 foi editor do Suplemento Cultural do jornal A Tarde, quando foi premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCL). É membro da Academia de Letras da Bahia. Atuou também no magistério, como professor da Faculdade de Comunicação da UFBA por mais de 30 anos. Também exerceu, no biênio 87-89 a presidência da Fundação Cultural do Estado da Bahia.
Em que pese sua longa travessia no jornalismo, a maior paixão de Florisvaldo sempre foi a poesia, gênero em que possui numerosos livros publicados, como Reverdor (1965); Fábula civil (1975); Caligrafia do soluço e poesia anterior (Prêmio Ribeiro Couto de Poesia da UBE – 1996); Mares anoitecidos (2000); Poesia reunida e inéditos (2011); Sonetos elementais – Uma antologia (2012); Estuário dos Dias e outros poemas (2017); Cacaueiros (2022); Quatorze janelas abertas (2024), além de numerosos livros de ensaio, história e memórias, não podendo ser esquecido A sensualidade na poesia de Sosígenes Costa e O triunfo de Sosígenes Costa – Estudos, Depoimentos e Antologia. Entre os ensaios historiográficos, é imprescindível citar A comunicação social na Revolução dos Alfaiates (1972), e Academia dos rebeldes e outros exercício redacionais, (2022), um fantástico trabalho memorialístico sobre a Bahia, seus poetas, escritores, pintores, movimentos culturais e vida boêmia.
A poesia de Florisvaldo Mattos, geralmente descritiva e carregada de elementos telúricos, traduz sua forte ligação com a região cacaueira da Bahia, rica de histórias e de mitos. Conforme Wladimir Saldanha, referindo-se a Cacaueiros, seus “decassílabos brancos (…), a par de versos heterométricos ou mesmo livres, aqui estão em intensa musicalidade, para nos contar com detalhes tudo o que sua prodigiosa memória reteve de coisas e pessoas do cacau.” Florisvaldo também é grande conhecedor da mitologia greco-romana, que muitas vezes usa como paradigma em seus versos de raízes filosóficas, em particular nos sonetos, construção poética que abraçou com exímia perícia desde seus primeiros dias de poeta.
Talvez um lírio. Máquina de alvura
sonora ao sopro neutro dos olvidos.
Perco-te. Cabra que és já me tortura
guardar-te, olhos pascendo-me vencidos.
Máquina e jarro. Luar contraditório
sobre lajedo o casco azul polindo,
dominas suave clima em promontório;
cabra: o capim ao sonho preferindo.
Sulca-me perdurando nos ouvidos,
laborado em marfim – luz e presença
de reinos pastoris antes servidos –
teu pelo residência da ternura
onde fulguras na manhã suspensa:
flor animal, sonora arquitetura.
(Reverdor. Salvador - 1965)
A Glauber Rocha
Debaixo dessas pontes de limo,
debaixo desses rios parados,
por que nos quererão ativos,
mas não honrados?
Por que sobre esses verões poluídos,
por sobre esses ventos domados
por que nos quererão amigos,
mas não amados?
Diante desses mares vencidos,
diante desses muros inviolados,
por que nos quererão perdidos
viajantes sem mapa?
Atrás dessas botas de verniz,
atrás dessas máscaras de aço,
por que nos quererão submissos
seres programados?
Nesse fosso de espanto e mito,
nessa fria massa de ocasos,
por que não paramos de rijo
o fóssil barco?
Com as ferramentas da vida
com os amantes, com os amados,
Por que logo não explodimos
a obstinada máquina?
Fique no ouvido o som terrível
cravem na carne os estilhaços,
antes me quero morto ou sofrido,
porém honrado.
(Fábula civil – Salvador - 1975)
A Valdomiro Santana
Quin etiam, Polypheme, fera Galatea sub Aetna
Ad tua rorantis carmina flexit equos.
Sexto Propércio (Elegia III, 2)*
Não sou Orfeu, não sei deter os rios,
Nem toco flauta no portão do Inferno,
Para tirar do Amor grilhões sombrios
E postá-lo na margem em que aderno.
Não sou Camões; Calíope não me ensina
Os caminhos do mar. Vou para o bosque.
Sei que irão perguntar-me adiante quousque
Tandem há de durar a minha sina.
Socorre-me, Pound. Leve o barco e o remo,
Guarde-os perto do campo de azaleia.
Se mais seguros, lá, mais bem guardados.
Oh, Propércio, avise aí a Polifemo
E me deixe no Etna com Galateia
Montada em seus cavalos orvalhados.
(Catorze janelas abertas. Sonetos Reunidos, com Inéditos – (1953-2023) - 2024)
Eunt anni more fluentis aquae.
(“Os anos se vão como a água que flui”)
Ovídio, Ars amatoria (3.62)
Omnia fert aetas, animum quoque.
(A idade leva tudo, até a memória)
Virgílio, Bucólicas (9,51)
Muitos disseram, outros quiseram dizer, mas não disseram.
Talvez. Digo eu, então, olhando o mar de azul sonoro e vário,
Em frente, ou ao sol, revisitando árvores e caminhos de antes,
Imperecíveis. Tempo, senhor do mundo, varando luzes e trevas,
Nunca haverás de parar, nunca?
Mudo, disparas bola a rolar com o volume das noites e dos dias,
Que à frente navegam céleres, sem travas, nem conhecidas leis.
Tempo, senhor do mundo, de onde vens e aonde irá a tua máquina
De fomes insaciáveis, em teu infinito vai-e-vem de ausências?
Na varanda, sorvendo uma taça reluzente, miro o ignoto mar, o mar
De azul ora maciço; miro a rua de tráfego nervoso, envelhecendo
Meu duro chão que faísca.
Tempo, senhor do mundo, que sepulta meus sonhos, cala meus
Íntimos brados e longas vigílias, de onde vens e para onde vás?
Subindo e descendo solos íngremes, fazes de mim o que serei:
Somente esvoaçante pó.
Observo teus afiados dentes sobre mim, logo sobre todas as coisas.
Se até a memória levas-me, diz-me para onde levarás a minha alma.
Por que não me fazes feliz, antes de minha morte, por que?
Devoras a luz que nos espera na noite funda, lá onde ambos dormimos.
Por que disseram que foges?
Quantas verdades disseram outros: bem mais depressa que o vento, foges.
Doem-me os braços, minhas pernas cedem; já não mais seguro os remos.
O jequitibá de ontem pereceu; sapucaias e louros são hoje turva cinza.
Por serranias, céu claro, nuvens negras, fluentes águas, sem que ninguém
Te veja, nem eu, escapas.
Marchas, absoluto e irrefreável, por vazios de infinitas errâncias,
Sem nenhuma força capaz de mudar ou apagar o que deixas para trás.
Oh, Tempo, que posso fazer de ti, se passas, veloz e irrecuperável,
Forjando idades, se não sei o que me darás ao fim da brônzea tarde?
Se vais, corres, nadas, voas, sobre leito onde fluis, sem voltar jamais,
Não importa. Montado em tuas águas remotas, hoje, amanhã
E depois, irei contigo.
(Salvador -2018 - Inédito)
Ruy Espinheira Filho nasceu em Salvador, em 1942, passou a adolescência e juventude em Poções e Jequié e retornou a Salvador, onde vive até os dias de hoje. Ingressou cedo no ofício poético, embora tenha estudado direito e, no meio do caminho, jornalismo. Acabou na Faculdade de Letras da Bahia, onde foi professor durante anos. É jornalista, cronista, romancista, contista, poeta, ensaista e autor de letras de canção. Ganhou inúmeros prêmios literários, como o Cruz e Souza e o Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, e publicou dezenas de livros, em diversos gêneros, principalmente poesia. O último, NA ORLA DO OCASO, memórias de vida e literatura, é um livro marcante e original, de extraordinária riqueza literária e poética.
Florisvaldo Mattos o classifica como “o maior poeta lírico da Bahia”. Referindo-se a Heléboro, seu livro de estreia, Drummond vê a poesia de Ruy como “concentrada e de sutil expressão”. Ivan Junqueira lhe descreve como autor de um “lirismo elegíaco”, marcado por uma linguagem seca e concisa. Miguel Sanches Neto o enxerga sempre investindo no “poder restaurador da palavra”. E Alexei Bueno o consagra como “poeta do invisível”. Diversos outros críticos e estudiosos são unânimes em nomear Ruy Espinheira Filho como o “poeta da memória”, o que ele próprio confirma em seu livro Para onde vamos é sempre ontem. É também um dos maiores sonetistas da língua portuguesa, e pertence à Academia de Letras da Bahia. Alguns de seus numerosos livros publicados: Heléboro, Julgado do vento, As sombras luminosas, Morte Secreta e poesia anterior, A canção de Beatriz e outros poemas, Memória da chuva, A cidade e os sonhos, Elegia de agosto e outros poemas, Sob o céu de Samarcanda, A casa dos nove pinheiros, Milênios e outros poemas, A invenção da poesia e outros poemas, sem citar aqui seus romances, livros de contos e crônicas, ensaios e livros infantis.
Selecionamos nesta publicação, cinco poemas de diversos livros de Ruy.
Meus olhos testemunham
a invisibilidade das ondinas,
a lenta morte dos arrecifes
e os canhões de Amaralina.
Vou, a passo gnominado
pisando a areia fina
da praia.
Pombas sobrevoam
os canhões de Amaralina
Parece a vida estar completa
na paz que o azul ensina.
A brisa ilude a vigilância
dos canhões de Amaralina.
Nem tua ausência, amor, perturba,
esta alegria matutina
onde só há o claro e o suave---
(E os canhões de Amaralina?)
Tudo está certo: mar, coqueiros,
aquela nuvem pequenina...
Mas – o que fazem na paisagem
os canhões de Amaralina?
(Heléboro)
A Roniwalter Jatobá
Vamos beber qualquer coisa,
que a vida está um deserto
e o coração só me pulsa
sombras do Ido e do Incerto.
Vamos beber qualquer coisa,
que a lua avança no mar
e há salobros fantasmas
que não quero visitar.
Vamos beber qualquer coisa,
amarga, rascante, rude,
brindando sobre o já frio
cadáver da juventude.
Vamos beber qualquer coisa,
o que for, vamos beber.
Mesmo porque não há mais
o que se possa fazer.
(Memória da Chuva)
BREVE CANÇÃO DA CAMINHADA
Vamos todos caminhando,
Entre o amor e a morte,
Por sobre o fio da navalha,
Sem sul, leste, oeste ou norte.
E vamos, da luz da infância
até a alma anoitecida,
buscando um sentido no
nenhum sentido da vida.
Que mais fazer? Ah, brindar,
entre o que tarda e o de súbito,
às vitórias sobre a morte,
até o último decúbito.
(Milênios e outros poemas)
Sonha que escreve;
escreve que sonha;
quando sonha, escreve;
quando escreve, sonha;
tudo é o mesmo sonho;
fala em sonho: escreve.
Escreve em papel;
escreve no chão
do quintal, nos pássaros;
escreve nas nuvens;
escreve na água,
nos risos, nas mágoas;
escreve na lua,
no sol, no horizonte,
nas pedras, nos ramos;
escreve nos muros;
na falta de rumos;
escreve no escuro,
no claro; desperto
ou dormindo, escreve;
e escreve no vento.
Tudo escreve, escreve;
tudo e sobre tudo
escreve, escreve; e
depois ainda escreve
mais; escreve (e até
escreve que escreve)
para que a vida
seja um pouco menos
obscura e breve.
(A cidade e os sonhos)
Corpo de sol e mar, não me pertences.
Não me pertences – e, no entanto, em mim,
Ondeias e marulhas num sem fim
De amavio. E cintilas e me vences,
E me submetes – eu, o siderado
a teus pés. Eu, oi pobre. Eu, oi esquecido.
Eu, o último. O morto – e o renascido!
Tudo por teu poder, ó iluminado
corpo de brisa e pólen, ventania
e pedra! Harmônico e contraditório
e presente e alheio, flama e pena.
Feito de vida, enfim, desta alegria.
Em si. Porém em mim, campo ilusório
em que a memória pasce – e me envenena.
(Morte Secreta e poesia anterior)
Baiano de Ipiaú, Paulo Martins passou a adolescência em Jequié, de onde migrou para Belo Horizonte a fim de fazer faculdade. A literatura e a política, no entanto, mudaram seguidas vezes o curso de sua vida: tornou-se meio nômade e meio aventureiro, tendo morado em inúmeros lugares diferentes, inclusive no exterior, acabando por aportar em Salvador, já em 1971, onde retomou sua vida de poeta, marcante desde sua adolescência. Tornou-se profissionalmente escritor e publicou alguns romances embasados nos anos de chumbo da ditadura militar, a qual combateu participando das lutas de resistência. É também ensaísta, pesquisador da canção popular, memorialista e, como autodidata, pratica o jornalismo, dedicando-se a escrever artigos políticos e literários, resenhas de livros e crônicas. Embora ainda não tenha publicado livro de poesia, só o fazendo em revistas literárias e blogs, possui produção para vários livros, que se prepara para editar. É autor dos romances Glória partida ao meio, Adeus, Fernando Pessoa, Até breve, poeta, A história de Roque Bragantim e os ensaios críticos Jacques Brel – A magia da canção popular e As Diabruras de Orfeu. Ele próprio selecionou os 4 sonetos, assim como o poema livre Arbitium Altiorem Infinitum, aqui publicados.
Poema inspirado na ordem do Presidente Ernesto Geisel
de execução dos guerrilheiros do Araguaia
Mirou no coração da moça:
─ Buuum!
Ela tombou com os seios sobre a lama
tingindo-a de vermelho.
Mandou cortarem sua cabeça,
(para troféu no próximo desfile),
e jogarem seu corpo na fogueira.
Era a última de tantas e de tantos,
que demandara anos de metralha.
O povo presente perguntou:
Por que o soldado a matou,
se a moça estava presa e amarrada?
O soldado respondeu:
─ Por que o cabo deu ordens de matar.
E por que o cabo ordenou?
─ Porque tinha de obedecer ao sargento.
E o sargento podia dar ordens de matar?
─ Sim, o subtenente mandou que o fizesse.
Por que o subtenente deu a ordem?
─ Deu cumprindo instruções do segundo-tenente,
que obedecia ao primeiro-tenente,
que seguia determinações do capitão.
Mas por que o capitão mandou matar?
─ Para satisfazer as sentenças do major.
E por que o major sentenciou tal morte?
─ Porque assim decidiu o tenente-coronel.
E por que o tenente-coronel assim decidiu?
─ Por determinação do general-de-brigada.
Por que o general-de-brigada tomou tal decisão?
─ Por ordem do general-de-divisão.
Por que o general-de-divisão deu esta ordem?
─ Por determinação do general-de-exército.
Por que o general-de-exército determinou?
─ Para cumprir decisão do Chefe do Estado Maior.
Por que o Chefe do Estado Maior fez algo tão terrível?
─ O Comandante-Geral das Forças Armadas achou admirável.
E por que o Comandante-Geral desejou tanta carnificina?
─ Porque o Presidente considerou por bem mandar fazer.
Findos os trâmites e patentes,
desaparecidos os corpos,
ninguém teve culpa de nada,
ninguém pôde ser acusado de nada,
ninguém pagou por nada,
pois tudo não passou de coisa alguma:
o que nunca existiu não pode ter valor de prova.
Se alguém tivesse alguma culpa
seria apenas o Presidente,
sentado no mais alto degrau
da pirâmide de culpas e pecados.
Mas nem ele pode ser acusado de nada,
pois consta que um querubim
cochichou ao seu ouvido,
que aqueles homens e mulheres,
do primeiro ao último da fila,
não mereciam viver.
E assim, o Presidente ordenou
suprimir suas vidas
porque a morte tudo apaga
e tudo pacifica
e ele não podia descumprir ordens
que vinham das alturas.
Lisboa, 2023
QUATRO SONETOS DE AMIZADE
1.
SONETO DE UMA FESTA VIRTUAL
Ao amigo e poeta Florisvaldo Mattos
no dia em que completou 88 anos
Nesses dias insípidos e insanos
de quarentena e de medo da morte,
lembrei de alguém de venturosa sorte,
que hoje completa oitenta e oito anos!
É uma grande efeméride na corte
de Dioniso, que nunca foi vegano
ou abstêmio, mas um veterano
de queijos e de vinhos, que são seu forte.
Nesta casa onde nunca estou sozinho
preparo, então, meus pratos e meu vinho
p’ra compartir degustações e olfatos
com todos os que estão a esperar
a preciosa hora de brindar:
─ Viva o Poeta Florisvaldo Mattos!
Lisboa, 8 de abril de 2020
2.
NAUFRÁGIO
A Ruy Espinheira Filho, que nos anos 70 tinha uma coluna
de crônicas chamada Temponâutica, na Tribuna da Bahia
Eu ancorava sonhos e esquadras
na rua Temponáutica, no tempo
em que meu pai traçava lotes, quadras,
mapas, em dias plenos de bom-tempo.
Só restam hoje umas ruelas magras
fugidas do traçado. Oh contratempo!
Não vou mais navegar nessas esquadras
das crônicas heroicas do bom tempo.
Foi ocupada pelos pescadores
cujos saveiros não mitigam dores
de uma vida que finge não passar.
Temponáutica: um mastro derreado!
Náutica: um velho porto abandonado!
Tempo: um barco sempre a naufragar!
3.
SAUDADES DE ÀNGELO ROBERTO
Ao querido amigo-irmão Ângelo Roberto,
que adorava sovaco de mulher
Meu caro amigo Ângelo Roberto,
ontem lembrei-me muito de você
ao avistar no mar de Mucugê,
uma mulata em pelo, a céu aberto.
Exclamei, deslumbrado e boquiaberto:
─ Que fêmea! Que pedaço de mulher!
E sei bem que era o mesmo que você
faria se estivesse ali por perto.
Mas não foi pelos seus etruscos seios
nem pela bunda equina, que me veio
esta lembrança ─ acode-me deus Baco!
Foi mais por esta esdrúxula coisinha:
ao acercar-me dela, vi que tinha
duas negras trancinhas no sovaco.
Arraial d’Ajuda, julho de 2001
SONETO DO AMIGO BÊBADO
Para o amigo-irmão Tuna Espinheira, in memoria
Desce a primeira, ríspida, cortante,
das tantas que sugere o nosso intuito.
E outras mais nesta tarde delirante
Em que ele pouco fala, mas diz muito.
Abordamos um mundo transbordante
de amor, e – por que não? – também gratuito.
O tempo para e por um longo instante
não fala quase nada, mas diz muito.
São várias dúzias de garrafas, antes
que o bar se feche e músicas cortantes
embalem nosso andar triste, fortuito.
Em casa esvaziamos as restantes
garrafas que sobraram nas estantes
e ele já nada fala, mas diz muito!
Salvador, 10 de junho de 2017
WALMIR ROCHA PALMA
O poeta, músico, cantor e compositor Walmir Rocha Palma nasceu em 21/05/1952, em Santo Antônio Além do Carmo, Salvador, BA, filho de Angélica Rocha Palma e Victorino Palma Filho. Estudou nos Colégios São José, ICEIA e Central da Bahia, até ingressar na Faculdade de Música, onde recebeu o título Honoris Causa pela UFBA. Walmir esteve presente em fatos importantes da história de Salvador e da MPB; musicou a peça Sabará de Aninha Franco; frequentou espaços importantes da intelectualidade baiana como o Quintal do Raso da Catarina de Franco Barreto; e interagiu com pessoas ilustres, desde ritmistas da música de raiz como Pintado do Bongô a artistas, intelectuais e políticos, como Ângelo Roberto, Caribé, Capinan, Xangai e Haroldo Cajazeiras. Era amigo da presidente Dilma Roussef. Sócio fundador do PT, participou de muitas caminhadas políticas; foi abençoado por Mãe Meninhinha do Gantois e pela querida Cirá; e representou o Brasil no “Festival da Maçana” em Buenos Aires, onde deixou um filho, Gabriel, e uma neta Keyla Isabella, para quem fez uma bela canção.
Walmir acabou de partir deste mundo, em 28 de janeiro de 2026, aos 73 anos, em consequência de um câncer avançado nos pulmões, do qual ninguém sabia. Agora canta com os querubins. Esta publicação é uma oportuna e sincera homenagem do jornal Estrategizando, cujos leitores da Bahia o admiravam pelo seu domínio do violão, sua sensibilidade na composição de canções, que sempre escaparam dos modismos atuais e seu espírito festivo e amigável. Deixou inúmeras canções gravadas, boa parte delas pela grande cantora Rosa Passos. Mas seus poemas ainda são inéditos em livro. Musicou o poema Ciência de Drummond, e este, ao ouvi-lo por intermédio de Olga Savary, declarou que jamais iria se lembrar dele fora da canção.
Sobre Walmir, diz sua ex-companheira e estudiosa de sua obra Lilian M B Pacheco: “A cada estrofe um campo de significação; de pronto a memória é concebida através do imaginário; uma ruptura, um desdobramento, uma duplicação se entrelaça à cena que passa de novo, na sensação do já vivido, no cheiro conhecido das palavras; e adentramos o mundo das emoções e a fronteira entre o real e a ficção se desvanece, tanto para o indivíduo quanto para a história, assim como na literatura e nas artes como um todo.” (…)
“A memória é filme, uma narrativa contada sobre algo que a precede, o sujeito se posiciona em duas cenas, a atual e a primária (ou pelo menos anterior). Cenas vividas em tempos diferentes. O inconsciente cuida muito bem das nossas lembranças, do campo do imaginário e numa linguagem própria ao devaneio ou à estética, retoma o registro, a história. No fundo, trabalha apenas com os restos diurnos.”
MEMÓRIA
A memória é filme que passa de novo!
A rua, a casa, noites, tardes, manhãs...
Abre portas no tempo, com seu único olho...
Traz à tona os sagrados com sua mão pagã.
Juíza inconteste das nossas lembranças,
entra em nossas gavetas, desenterra segredos...
E expostos aos brios, hesitações e medos
somos postos na tela, com um único traço.
Que seria a história senão verdades idas,
inesgotáveis compêndios sobre o que há de vir?
Nos clichês da memória por certo pulsa a vida,
no seu estranho segredo de não ter mais fim.
Inda que não queiramos, feitos de lembranças,
as que nos venham ferir, ou nos cobrir de glória,
não passamos de livros, telas, filmes, dramas...
Somos só o registro,
Salvo falte a Memória
Já consultei o tempo
e o tempo não há.
O raio vibra no presente do passado
Nem no espaço
esse tempo irá vibrar
a luz que vem veloz num tempo impassável
Um meteoro vem em nossa direção
como se tudo se passasse num segundo.
Parece máscara de pedra de vulcão
e o holograma imprime o medo pelo mundo
No mar aberto voa a rede e o pescador
espera a seta pelas lentes de Orfeu
Um peixe bom que mate a fome, o ódio, o medo
a vida ao ver que o mar imenso é todo seu
Às vezes paro para sentir humanidade
Ao ver um filme onde o amor enlouqueceu
a pena, o livro, o quadro, as luzes da cidade
já não há tempo: eis a vida, a nave e eu.
UMA GOTA DE AMOR PARA CUBA
Una gota de amor puede callar a la voz tirana
La voz enemiga se pierde frente a
La voz hermana
Somos la voz que canta el amor en una
Rumba cubana
Por una patria libre, la patria latinoamericana
La fuerza bruta mata, pero la llama
Nunca se apaga
La esperanza vuelve con la ternura en
Nuestra alma
Hermano latino, yo no le pido piedad ni plata
Quiero su conciencia en la construcción de
La patria amada.
(Letra musicada por Walmir Palma)
CALMARIA
Pouco de CÉU
Quase de SOL
Pouco de VENTANIA
Quase de DOR
Pouco de MAR
Quase que nasce o DIA
Meio VOCÊ
Meio VERÃO
Meio minha CANTIGA
Pouco de MIM
Meio VOCÊ
Quase de CALMARIA
ESPANTALHO
sentia como dádiva
lavar-se com gotas de orvalho
já que dormia debaixo de uma generosa árvore
com visíveis raízes, que lhe serviam de cama
─ espantalho!
assim o chamavam por sua aparência:
roupas quase trapos (limpas)
chapéu de desfiado palhas na borda
barba longa esbranquiçada
às vezes em pé
por vezes agachado
olhar longínquo
─ espantalho!
garotos repetiram rindo
coisas de garotos.
as moças; ─ parem com isso meninos!
e os dias se passavam!
às vezes espantalho sumia um, dois, cinco dias
e todos se perguntavam: ─ será que morreu?
e de repente, lá estava ele,
olhando o infinito à sombra da árvore.
NARLAN MATOS
Narlan Matos é um poeta que se pode chamar de baiano-americano, ou baiano-universal. Tendo nascido em Itaquara, Bahia, em 1975, vive nos Estados Unidos desde pouco depois que concluiu sua graduação em Letras na UFBA. É autor de 8 livros de poesia, alguns publicados no Brasil e boa parte deles na Rússia, Romênia, Eslovênia, Itália, Japão, Espanha e Costa Rica. Fez mestrado na Universidade do Novo México e doutorado em literatura e cultura brasileira na Universidade Illinois, nos Estados Unidos. Tem poemas traduzidos para inúmeros idiomas, como esloveno, inglês, espanhol, italiano, japonês, chinês, russo, vietnamita, lituano, hindi, sueco, croata, espanhol, francês, romeno e alemão.
Sua fortuna crítica rompeu as fronteiras da Europa, Ásia, África e Américas. É comparado ora a Pablo Neruda, ora a Maiakovski, mas é impossível a reprodução integral das avaliações de sua obra no curto espaço desta apresentação. Tem sido cogitado por diversos críticos como o único brasileiro apto a receber o Nobel de Literatura. Para ilustrar este relato sobre a sua vida, transcrevemos abaixo o que disse o grande crítico romeno Constantin Severin:
“… seus poemas universais são de tirar o fôlego, um pouco como os de Pablo Neruda (acho que você também terá a chance de ganhar o Prêmio Nobel no futuro) e você tem o raro poder de transformar histórias biográficas detalhadas em mitos verdadeiros. Na minha opinião a sua poesia é forte e muito comovente. Acho que você é a voz mais forte da América Latina hoje, com todas as suas tragédias, belezas selvagem e estilo de vida dinâmico. Sua escrita é um verdadeiro samba com palavras, sentimentos e limites.”
Narlan estreou na literatura com Senhoras e Senhores: o amanhecer (Prêmio da Fundação Casa de Jorge Amado 1997), ao que se seguiram No acampamento das sombras (Prêmio Xerox de Literatura Brasileira, 2000); Elegia ao Novo Mundo (2012); Eu e tu, caminheiros desta vida (2013) Um alaúde, a Península e teus olhos negros (2016); Canto aos homens de boa vontade (2023, Prêmio da Academia Romena de Letras de 2024); Rebanhos de estrelas (2024) e outros, além de publicações em revistas literárias mundo afora.
Narlan Matos foi professor na George Washington University, nos Estados Unidos. Vive em Washington DC, com sua esposa Krista Anderson e seus filhos Yannik e Kiaan. Seus poemas aqui publicados são do livro Narciso selvagem.
século vinte e um
sonhamos cada vez mais sonhos alheios
os nossos, já não sonhamos
pensamos cada vez mais pensamentos alheios
os nossos, já não pensamos
sentimos cada vez mais sentimentos alheios
os nossos, já não sentimos
desejamos cada vez mais desejos alheios
os nossos, já não desejamos
dizemos cada vez mais palavras alheias
as nossas, já não dizemos
amamos cada vez mais amores alheios
os nossos, já não amamos
e vivemos cada vez mais vidas alheias
porque as nossas, já não vivemos...
canção do povo
quero entoar um canto ao povo
como quem oferece uma prece
às almas perdidas do purgatório
como quem à noite e anônimo
rouba um amigo do manicômio
quero entoar um canto ao povo
para ser cantado nas ágoras
com a harpa e a cítara e a lira
para ser estrela nos infernos
e fresco como um oásis
para as caravanas do deserto
quero entoar um canto ao povo
para cicatrizar a ferida e a dor
fazer nascer um arco-íris sobre
a loucura o desespero a solidão
e decretar por lei, por evangelho
que a única estrada agora possível
− a única − é a estrada do amor
quero entoar um canto ao povo
que parta como uma epopeia
que escave o pretérito mais-que-perfeito
e encontre a Grécia Antiga
morta por debaixo da hera esquecida
no altar dos deuses do Olimpo
a tocha perdida para juntos eu e tu
repartirmos de novo de mão em mão
o fogo sagrado da vida.
os degredados da Terra
alta noite nos altos nos céus
o luar coberto de véus
de nuvens muito escuras
vê-se na vasta noite
quem são aquelas criaturas
que se lamentam e vagam
pelos esconsos da Terra?
que choram e soluçam
perdidas na escuridão
estes desgraçados mortos
feito espectros, quem são?
são os caídos filhos de Caim
arremessados neste desvão!
é a turba que purga no vale
da sombra no desterro sem fim
é quando de repente troando
nas alturas ouve-se uma voz
doce como uma harpa
estridente como um canhão
no alto de uma escarpa
mas que voz é esta
gritando na amplidão?
é a voz do poeta
clamando a multidão!
e o que pede o poeta
aos gritos, então?
que ergamos as cabeças
que levantemos do chão!
que cantemos a lira
na clave do coração!
que façamos uma pira
para iluminar a escuridão!
não sabe a populaça
que sua maior desgraça
é a falta de união?
o povo em uníssono
responde “não!”
e ao ouvir tal resposta
explode no universo um trovão!
e ouve o poeta que detrás
dele do nada gargalha Satanás
praguejando num silvo grita
“Jamais!”
e prossegue o poeta:
ah, o povo na praça
de mãos dadas à esperança
é a força da populaça!
a sanha dos tiranos
será varrida pelos anos!
e o povo se ergue na ágora
e em voz alta lhe indaga:
e o que faremos agora
pois não temos adaga?
e o poeta de novo brada:
acendei uma fogueira
que queime noite afora!
acendei a tocha e a pira
oh, preparai a aurora!
o amor é a arma do povo!
e o que mais clama o poeta
que a multidão de si desperta
para ouvir o seu clamor?
que o povo cante na Terra
o estribilho da quimera
oh, não deixeis a praça deserta
porque a praça é do povo
como o céu é do condor
e a multidão de si desperta
pergunta então ao poeta:
“E o que vence o terror?”
e responde-lhe o poeta
com seu brado de condor:
só vence o terror a legião do amor!
e o que mais clama o aedo?
há que vencer a legião do medo!
e se Deus pudesse nos falar
o que então ele nos diria?
a arma do povo é a alegria!
que diria ele a esta criança?
a arma do povo é a esperança!
e o que mais clama ele de pé?
a arma do povo é a fé!
o que mais clama o poeta
afiado feito uma seta?
liberdade igualdade fraternidade!
de repente ao seu lado
ao clarão da lua
surge Têmis, a deusa grega
da justiça, nua!
mas agora desperta
se arrepia a populaça
que antes jazia em sua
própria desgraça
que antes dormia
e agora prepara-se para
sem espada nem brasão
combater abnegada o revés
mas oh que nobre visão
vai ela agora, a multidão
na carruagem de seus pés!
pelas ruas pelos campos
nestas noites de prantos
onde a história é pálida
é fria é morta é esquálida
resta apenas à populaça
abraçar-se com bondade
na vasta praça da piedade
acender uma chama na noite
a isto chamamos revolução!
construir a vida o século
tendo na boca um ósculo
tendo nos lábios a canção
e prossegue o poeta:
guardai da morte
o fogo sagrado da vida!
ide, ide e pregai o sol
como uma verdade!
ide, ide e pregai a lira
como evangelho!
pregai a Natureza
como um espelho!
noite alta nos altos céus
o luar agora despido está nu
e agora brilha claro
no anfiteatro da noite azul.
e ao ouvir seu clamor ao vento
tal qual rasga o casco a espuma
a noite se converte em bruma!
é o poeta que desarma o tempo
com o condão de seu gênio
e com seu dedo de hidrogênio
cintilante no escuro
aponta para o futuro!
e que voz foi esta
gritando na amplidão?
foi a voz do poeta
despertando a multidão!
e o povo que antes era escravo
agora renasce bravo!
e o povo que antes era tristão
renasce impávido como um titão!
e indaga cheio de graça e gratidão:
quem foi este arcanjo
tocando a harpa dos anjos
que nos tocou a alma e o coração?
quem foi este arauto do Verbo
que acaba de nos dizer adeus?
foi o poeta que desceu dos altos céus
trazendo uma mensagem de Deus!
outra história do Brasil
é a Aclamação de Amador Bueno
a Revolta da Cachaça
a Conjuração de Nosso Pai
a Revolta dos Beckman
a Guerra dos Emboabas
a Revolta do Sal
a Guerra dos Mascates
os Motins do Maneta
a Revolta de Felipe dos Santos
a Conjuração Mineira
a Conjuração Carioca
a Revolta dos Malês
a Conjuração dos Alfaiates
a Conspiração dos Suassunas
a Revolução Pernambucana
é a Confederação dos Tamoios
a Revolta de Mandu Ladino
a Guerra dos Muras
o Quilombo dos Palmares
a Sabinada
a Independência da Bahia
é Luiza Mahim
é Anita Garibaldi
é Maria Quitéria
é Maria Filipa
Zuavos baianos na Guerra do Paraguai
é o mulato Calabar
é tudo que já não se pode
mais calar
é a outra história do Brasil
do outro Brasil, proscrito
de sua própria história
escrita pelas mãos do povo
− que ainda não foi escrita
em nossa história.
manhãzinh
manhãzinha
caminhando por entre canteiros
o sol me desperta de um profundo esquecimento
o jardim orvalhado é pura memória
o jardim é um mural de aromas
e de cores fortes de raras matizes
vozes de outras épocas ecoam perdidas
entre a lucidez e a loucura
entre o doce e a amargura
enquanto caminho lento
folheio o álbum da memória
fotografias amareladas vidas idas
o passado quando olhado nos olhos
é mais real que a retina do presente
entre flores de raros nomes
reencontro caminhos perdidos
amores torcidos como caules mortos
o sol derrama sua claridade sobre o jardim
e sobre minha vida
os pássaros cantam nos ninhos
e voam na labuta da sobrevivência
vou entre os canteiros em busca
ou quiçá fugindo de mim mesmo
quanto sabe de minha vida secreta
e perdida esse jardim!
o passado é uma ilha de onde ninguém jamais escapou
Antonio Brasileiro, poeta de grande sensibilidade e de poucas palavras, de expressão extremamente concentrada e sutil, nasceu nas Matas do Orobó, sertão da Bahia e passou a maior parte de sua vida em Feira de Santana, onde se dedica à sua obra literária e artística e à atividade docente na UEFES. Participou, nessa cidade, de diversos movimentos literários, como o do grupo Hera, que girou em torno da revista de mesmo nome e reuniu jovens em início de carreira literária e artística como Roberval Pereyr e Juracy Dórea, entre outros. Importante legado que se deve também a Antonio Brasileiro é a Revista Serial, que deixou sua marca na história literária da Bahia, possibilitando a projeção de poetas novos e desconhecidos na época.
Mas Antonio Brasileiro não é apenas poeta. Na verdade, sua vida se divide meio a meio entre a poesia e as artes plásticas. Se, como poeta e escritor, já publicou mais de trinta livros, como artista plástico já participou de uma centena de exposições, tendo, inclusive ilustrado alguns de seus próprios livros. Entre as obras de Antonio Brasileiro, pode-se citar Desta Varanda; Longes terras; Poemas reunidos (2005), Lisboa 1935 (2015); Como aquela montanha (2018); Poesia completa (Volumes 1 e 2, 2021/2022), Concerto para Alaúde e eucaliptos ao vento (2025) e outros. É autor também do ensaio crítico Da inutilidade da poesia (2012), do romance Caronte (1995) e do livro de contos Memórias miraculosas de Nestor Quatorzevoltas (2013), entre outras obras de ficção.
Sobre ele, escreveu a saudosa poeta baiana Miriam Fraga: “ O que faz o encanto da poesia de Antonio Brasileiro é ser tão intensamente lírica e ao mesmo tempo tão intensamente ligada aos acontecimentos exteriores. Dir-se-ia que a voz do poeta, filtrada pelo sentimento do eu lírico, amplia-se à medida em que encontra ressonância no sentimentos do mundo.”
Já Alexandre Bonafim assim se expressa: “A poesia de Antonio Brasileiro vibra como concerto em que cada palavra soa ao vento, repleta de encantamento e mistério. (…) A infância perdida, o outro distante, a divindade selvagem e a palavra em sua explosão sinestésica compõem uma constelação de imagens que convertem a vulnerabilidade humana em energia criadora. (,,,) diante da morte, da perda e do tempo, a poesia oferece lampejos de beleza, que cintilam como estrelas na concha da mão, no mais íntimo de nossas emoções.”
FADA
1.
Sabes acaso quem é aquela moça só? Chama-se Fada.
Mas quem dera ser qual a fada das histórias.
Aquela que ali está é triste e só.
Vive sozinha, dorme sozinha e sorri pouco.
Diz-se ter coração de poucas festas –
e é certo. Não é de festa seu coração. E mora ali,
no apartamento ao pé do morro.
Só dá bom-dia e boa-noite. E é só.
Sou seu vizinho e sei. Fada não é má.
Observamos quando ela sai ou chega:
o andar miúdo de um pássaro.
Fada não é apenas triste e só:
envelheceu. Vaidades? Fada não tem.
Veste-se como um espartano em dia de sábado.
Não teve homens, talvez, em sua vida.
Ou os teve rápido. E não há sentido
algum no que só passa.
Apenas uma vez alguém entrou ali,
naquela casa. Não foi a mãe, nem o pai,
o irmão, a amiga. Só um funcionário
da Sucam.
Não é de poesia
que se faz sempre uma vida.
A presença de Fada, com sua ausência,
preenche também um pouco minha existência.
Por que certos destinos são tão duros?
Fada, a só, não é só Fada, a só. É tudo
que pode traduzir a alma humana:
a imprestabilidade desta vida,
no fundo, pó. No fundo, sequer dor,
pois há grandiosidade em toda dor. Não
na de Fada. Às vezes
penso que ela nem é mesmo triste. Apenas
só. Mas não só como a árvore
frutífera, a nuvem escura, Deus no princípio.
Mas um só triste e merencório só,
como o da lua lua lua dos boêmios.
Fada sequer foi bonita. E está magra.
Sempre foi magra. Apenas ficou velha. E não ri.
Para que servem mulheres magras, velhas,
sérias? Para
refletir.
Aquela moça só sou eu, pensei um dia.
Parece-se com a estrela que carrego, fria.
2.
Aquela que ali está, regando plantinhas,
talvez não saiba muito mais da vida
que nós. Não sabe, sim. Que saberia
uma mulher como Fada, a só,
que sequer teve um noivo que se foi,
uma razão maior, um quê
de escuro? Rega
caqueiros
como
quem anda ou respira.
Mas não ama, não abraça, não suspira
por nada: está em paz.
Mas Fada não é sábia.
É só isto.
E nem é paz, pois paz é a sesta.
Não houve guerras em Fada. Rega
suas flores sem um sorriso nos lábios.
Talvez por isso sejam elas tão pálidas.
A flor e Fada: dois enigmas? Só
Não a moça. Não, não aquela moça
que se esqueceu de si e me incomoda.
Não me incomoda: enternece. Nem
enternece mais: existe aqui, na palma
da minha mão, como um poema
que urge urge urge ser extravasado. Fada,
a bela. A perfeição. O nada.
3.
Mas isto é só poesia. A moça
é que é real. Ninguém liga pra ela onde ela mora:
porteiro, síndico, menino, o homem
que vende jornais, o verdureiro, as pias
senhoras eqüilinas em seus trajes pretos,
ninguém, ninguém. Só eu
da minha janela. Fada não ri, não chora.
Passa.
Como se sequer não existisse.
Mas sei que ela existe. Há dez mil dias vejo-a
ali, regando umas plantinhas, magra, só.
Nenhum pedreiro entrou naquela casa. Nenhum
encanador, consertador de fogões – ninguém, ninguém.
Só o funcionário da Sucam, uma vez.
Cochichos da vizinhança, não há. Fada só passa.
Não como a nuvem que por só passar
ficou eterna: Fada passa como um cão
qualquer na rua.
E está ficando velha. Não senil, só velha
para a moça que é. Soubesse eu segredos
de uma moça!
Que passa
por Fada, que projetos traçou, que vê
quando se olha em seu espelho? O passado?
Se tudo foi sempre igual. Que
passou? Fada sonha? Houve uma vez
– ou duas – que a vi olhando para mim.
Quem sabe meu observá-la, de longe, a incomodasse.
Agora que rega suas plantas triviais,
talvez se incomode com algo a perscrutá-la.
E se voltar seus olhos para cá
– sinto pesar-me a mão –
acenarei.
QUE DEUS GUARDE MEU PAI
Não passar. Ficar para semente.
Não era isto que meu pai queria?
Sentava-se na rede e adormecia
julgando ter domado a dama ausente.
E sonhava talvez. Talvez menino
montando burros bravos, nu, ao vento;
um homem é a sua ação sobre o destino.
Meu pai então fazia um movimento
e a rede, a adormecer, estremecia:
pequenos sustos no tempo, era só isto.
E escancarava os olhos duramente
para mostrar que se Ela o procurava
era de cara a cara que a encarava..
Que Deus guarde meu pai. Eternamente
RUTILÂNCIA
Porque o mundo é mesmo tão imenso
e meu coração tão só um desastrado;
porque imensa é a alma, e o corpo
só um
relato;
porque não estamos aqui para um simples papo,
mas
para morrer
como todos o fazem:
eis que digo a mim mesmo: sê forte;
mas também digo: sê fraco,
pois tudo é rutilância e nós, passantes,
com nossa pressa e gula
para nada.
Mas justo porque o mundo é mesmo imenso
e imensa é a alma,
eis que escrevo e escrevo e escrevo e escrevo.
Por certo, para nada. Sim. Por certo, para nada
DAS COISAS MEMORÁVEIS
Um dia o mundo inteiro vai ser memória.
Tudo será memória.
As pessoas que vemos transitar naquela rua,
as gentis ou as sábias, ou as más, todas,
todas.
E o mendigo que passa sem o cão,
o ginasta, a mãe, o bobo, o cético, a turista.
Deus, inclusive, regendo o fim das coisas
memoráveis, também será memória. Deus
e os pardais.
E os grandes esqueletos do Museu Britânico.
Todo sofrimento será memória. Eu, sentado aqui,
serei só estes versos que dizem haver um eu
sentado aqui.
NUANÇA
Meus caminhos, meus mapas,
meus caminhos.
Tudo está em ordem
em minha vida.
Como se faltasse
alguma coisa.
Carlos Machado é natural de Muritiba, BA, nascido em 1952. Cursou engenharia mecânica na UFBA e jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É jornalista e poeta, tendo trabalhado em importantes órgãos de imprensa do país. Publicou vários livros de poesia, entre os quais Pássaro de vidro, (2006), Tesoura cega (2015), A mulher de Ló (2018), Cicatrizes (2023) e Cais da Memória (2024), tendo ganhado o Prêmio Cláudio Willer da UBE em 2025 com o livro inédito Relógio sem rosto, ainda inédito. É muito conhecido no Brasil e no exterior por publicar o site Alguma Poesia e a página poesia.net no Facebook e no Instagram, também encaminhada para milhares de assinantes. É um dos mais importantes trabalhos de divulgação da poesia brasileira que já se fez no país. Recentemente, publicou pela Editora Cavalo Azul uma Antologia de poemas de todos os seus livros, com o título de Vieram me chamar para ver o anjo. É dessa antologia que colhemos os poemas aqui publicados.
Do poeta Carlos Machado diz o crítico e editor Alexandre Bonafim:
“A poesia de Carlos Machado é construída com a exatidão de quem sabe que cada palavra deve justificar a própria existência. O poema é o lugar do rigor, uma forma de pensamento que se mantém fiel à experiência, mas filtrada por uma linguagem que recusa o excesso. “
E ainda:
“A denúncia do racismo, a crítica à violência patriarcal, a evocação das vozes silenciadas pela história e pela cidade, emergem sem retórica, inscritas na própria estrutura da linguagem.”
Realmente, em Cicatrizes ─ um de seus mais importantes livros ─ sem fugir uma sílaba sequer da linguagem poética que lhe é peculiar, Carlos Machado traça um libelo fundamental contra o racismo e suas marcas indeléveis no país, ainda nos dias de hoje. De um modo geral, a lucidez e o rigor guiam sua construção poética; muitas vezes eles se convertem em ato de confronto direto com a realidade vivida e rejeitada, assim como com tudo o que envolve a condição humana. E sempre embutindo uma reflexão profunda e essencial dessa realidade, que ele condensa, com seus versos curtos e precisos, sem desperdícios verbais, tornando-os essencialmente contundentes.
Homem-bomba
em que pensa
o homem-bomba
no exato
momento
de olhar o pino
e estancar o tempo?
em que pensa
o homem-bomba
na hora imensa
em que o sangue
se adensa
e todos os sóis
e todos os poros
e todas as luas
do universo
projetam
forças vorazes
de gravitação na
explosiva
nave de
seu coração?
em que veia
crava o
medo crava
seus tentáculos?
em qual
infinitésimo e
de segundo
a mão trêmula
avança para
o pino
vence a inércia
de ser vivo
que deseja
permanecer
capaz de semente
─ não de ideias
mas de
carne viva?
(Pássaro de vido)
Mapa
De certo, apenas a incerteza.
O copo branco sobre a mesa
e esta aspiração de domingos.
De certo, a morte e seus respingos.
O menino azul quer um mapa,
carta de agir, segura e exata.
Quer seguir rijo, reto e justo
para justíssimo lugar
O que, então, responder? Desiste,
esse lugar não há e ─ triste! ─
não há mapa, nem portulano,
nem porto lhano onde ancorar?
Como dizer? Menino, os mapas
não são roteiros de achamento,
mas tênues direções de vento
para quem só busca o buscar.
(Tesoura cega)
Xeque-mate
Quando menos se espera já são horas.
A dama de espadas perde o gume
e o pássaro pousado vai embora.
Quando menos se espera, o que se anuncia
não é a sorte grande, a estrela Aldebarã
ou a sagração da primavera.
São tempos de abutre
e o coração, músculo bélico, fraqueja.
De repente, já é sábado,
há uns assuntos desagradáveis para resolver
e, sobre a pele confusa da alma,
uma densa crosta de óxido e desalento.
Quando menos se espera, o rei está em xeque,
e é dezembro.
Há uma complicação de trânsito
na avenida
uma artéria que não dá passagem.
Quando menos se espera, já é tarde.
(Tesoura cega)
Signo
A mulher de ló é o sal da terra.
É o grito do não
nos tribunais do silêncio.
A mulher de Ló
proscrita e sem nome
é a primeira fêmea insurgente.
A mulher de Ló
é a primeira sílaba
de toda palavra de libertação.
(A mulher de Ló)
Prisão
Hora da revista
no pátio das mulheres.
A guarda armada berra
lá de cima:
─ Quem é aqui a mulher de Ló?
E todas gritam,
Inclusive aquela eu pergunta
─ Sou eu.
(A mulher de Ló)
Vozes
Você me pergunta se escuto vozes.
Às vezes, sim.
São cantos de pássaros,
ecos de infância.
Ou então, vozeios mais longínquos,
Ruídos, gritos de sequestrados
Vozes d’África.
Sim, escuto vozes,
Às vezes, canções de ninar.
Às vezes, gritos atrozes.
(Cicatrizes)
Idioma
O primeiro idioma
que me ensinaram
foi a língua rubra do fogo.
Aprendi a conjugar
Essa língua
que tem sílabas de ferro
e ritmo de logro.
Bebi sua sintaxe
dentro do leite materno.
Por isso às vezes as palavras
me queimam
como ferro em brasa.
(Cicatrizes)
Onde
Onde se perde o vento do destino
sem ter como voltar à estaca zero:
onde se quebra o fio que o menino
atado ao sonhos, frágil quero-quero;
onde os cavalos da manhã, tardios,
trotam sem rumo certo nas calçadas;
onde os silêncios se enchem de cicios
e se perdem sem sol sob as escadas;
onde o cruzeiro sólido, vigia
a passagem do tempo na ladeira;
onde o relógio bate ao meio-dia
e a dor antiga dorme a tarde inteira;
aí resido. Aí suspendo a casa.
E o cento vem. E o pássaro é sem asa.
(Cais da memória)