Quanto aos 16 mil, não foi possível confirmar uma fonte que permita compará-los com estes dados. Sem essa informação, seria imprudente explicar a diferença ou usá-la para acusar alguém de manipulação.
Há ainda outra distinção necessária: população estrangeira residente não significa automaticamente população nascida no estrangeiro, nem corresponde ao número de trabalhadores agrícolas. Uma estatística de residência não nos diz, por si só, a profissão de cada pessoa.
Feito esse esclarecimento, a questão política permanece.
O Correio Alentejo relaciona a concentração de residentes estrangeiros em vários destes municípios com a atividade agrícola, incluindo as produções intensivas associadas ao Alqueva. A presença destas pessoas deve, portanto, ser discutida também à luz da economia que as procura. Não basta contar chegadas e omitir quem contrata, em que condições e para realizar que trabalho.
É aqui que o discurso hostil à imigração revela uma contradição difícil de disfarçar. Quando uma exploração precisa de trabalhadores, o imigrante torna-se necessário. Quando se fala de habitação, de integração ou do acesso a serviços, a mesma pessoa pode passar a ser apresentada como um peso.
Esta crítica dirige-se à direita que alimenta essa hostilidade enquanto defende os interesses económicos de setores que recorrem a trabalho estrangeiro. A incompatibilidade deve ser confrontada: quem aceita o contributo do trabalhador não pode tratar a sua presença humana como um incómodo.
Não faria sentido concluir que Portugal deixou de ser um país de agricultores. Existem agricultores portugueses, empresas agrícolas e trabalhadores nacionais. O que merece discussão é a organização de uma parte da produção e as condições em que consegue recrutar e manter trabalhadores.
Se determinada atividade não encontra pessoas disponíveis para os salários e condições que oferece, o debate não pode terminar na acusação de que «ninguém quer trabalhar». É preciso olhar para o trabalho concreto, para o rendimento que proporciona e para a possibilidade de viver com ele.
Os abusos não são uma abstração inventada para esta discussão. Em novembro de 2025, a Polícia Judiciária anunciou a operação «Safra Justa», com buscas e detenções em Beja e noutros pontos do país, numa investigação que incluía suspeitas de tráfico de pessoas, auxílio à imigração ilegal e corrupção.
As responsabilidades individuais dependem da prova e das decisões judiciais. Mas a existência destas investigações obriga a olhar para os mecanismos de recrutamento e para a vulnerabilidade dos trabalhadores. Não autoriza a condenação de todos os empregadores; também não permite ignorar o problema.
A fiscalização deve chegar a quem beneficia do trabalho e a quem o intermedeia. Concentrar toda a atenção nos documentos do trabalhador, deixando na sombra as condições em que foi recrutado, pago e alojado, é uma forma incompleta de enfrentar a exploração.
A integração exige igualmente capacidade pública. Um município que recebe trabalhadores e famílias precisa de planear habitação, transportes e serviços. As dificuldades reais devem ser resolvidas, sem transformar os moradores estrangeiros em culpados por falhas que não controlam.
Os números de Beja merecem ser lidos com cuidado. As pessoas que esses números representam merecem ser tratadas com o mesmo cuidado.
Quem defende a produção agrícola deve explicar como pretende garantir trabalhadores e condições dignas de vida. E quem faz política contra os imigrantes deve explicar quem fará o trabalho para o qual tantas empresas os procuram.