Durante a visita, Lula afirmou que “o Brasil vai se transformar numa potência na produção de remédios” e reforçou que o país tem condições de alcançar a produção integral dos medicamentos consumidos internamente. Segundo números citados na ocasião, cerca de 60% dos medicamentos já seriam fabricados no território nacional — indicador que aponta para um avanço significativo face à histórica dependência externa.
O investimento integra uma política mais ampla de reindustrialização e fortalecimento do chamado Complexo Económico-Industrial da Saúde, estratégia defendida pelo atual governo para reduzir vulnerabilidades expostas durante a pandemia de Covid-19.
Historicamente, o Brasil depende da importação de princípios ativos farmacêuticos (IFAs), sobretudo da China e da Índia, que concentram grande parte da produção mundial desses insumos. Segundo dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa) e de relatórios do setor, mais de 80% dos IFAs utilizados no país são importados, mesmo quando o medicamento final é produzido em território nacional.
A aposta agora passa não apenas por ampliar a produção de medicamentos acabados, mas por fortalecer a cadeia produtiva completa — da pesquisa ao fabrico de princípios ativos, passando pela inovação biotecnológica.
O governo brasileiro tem articulado políticas de incentivo através do Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Financiadora de Estudos e Projetos – Finep), visando estimular investimentos privados, transferência tecnológica e parcerias público-privadas.
O Aché, uma das maiores farmacêuticas nacionais, tem vindo a investir fortemente em inovação e expansão industrial, reforçando a capacidade produtiva em áreas de maior valor acrescentado, como medicamentos hospitalares e especialidades.
A discussão sobre soberania farmacêutica não é meramente económica. Trata-se de uma questão de segurança nacional e estabilidade social. A pandemia evidenciou como rupturas nas cadeias globais de abastecimento podem comprometer sistemas de saúde inteiros.
Ao defender que o Brasil pode produzir 100% dos seus medicamentos, Lula insere a saúde no centro da estratégia de desenvolvimento nacional. A meta, contudo, implica desafios relevantes:
Redução da dependência de insumos importados
Fortalecimento da pesquisa científica nacional
Incentivo à formação técnica especializada
Estabilidade regulatória e previsibilidade jurídica
Especialistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz) têm sublinhado que a consolidação de um complexo industrial robusto é essencial para garantir acesso universal e reduzir custos para o Sistema Único de Saúde (Sistema Único de Saúde – SUS).
Embora o discurso presidencial seja ambicioso, analistas alertam que a autonomia plena depende de políticas industriais consistentes ao longo do tempo, continuidade de investimentos e competitividade tecnológica face a gigantes internacionais do setor.
Ainda assim, a expansão do Aché em Suape representa um sinal claro de que o Brasil pretende assumir maior protagonismo na indústria farmacêutica latino-americana, reduzindo vulnerabilidades externas e consolidando capacidade produtiva interna.
Se a estratégia se mantiver, o país poderá não apenas garantir abastecimento interno, mas também posicionar-se como exportador relevante no mercado regional.
Fontes e referências:
Agência Gov (Brasil)
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) – https://www.gov.br/anvisa
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) – https://www.bndes.gov.br
Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) – https://www.finep.gov.br
Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) – https://portal.fiocruz.br
Dados setoriais da Interfarma (Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa) – https://www.interfarma.org.br
Subscreva o jornal em: https://www.estrategizando.pt/assinatura