Segundo a Agência Gov, com base em conteúdos da COP30, lideranças indígenas reunidas no Acampamento Terra Livre (ATL) defenderam que o enfrentamento da crise climática passa necessariamente pela proteção de seus territórios e pelo reconhecimento de seus direitos.

A carta final do encontro, promovido pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, foi categórica ao afirmar: “não existe política climática sem protagonismo indígena”.

O evento, realizado em Brasília, reuniu cerca de seis mil indígenas de diversas regiões do país, sendo um dos espaços de mobilização e articulação política dos povos originários.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil abriga cerca de 1,8 milhão de indígenas, pertencentes a 391 povos.

Esta  data, vai além da simbologia pois representa uma luta contínua por direitos, território e preservação cultural, por entre  desafios como desmatamento, violência e exclusão social.

O coordenador executivo da APIB, Kleber Karipuna, destacou que as discussões do ATL priorizaram políticas públicas voltadas à demarcação e proteção territorial. “A pauta das desintrusões e da construção dos planos de gestão territorial foram centrais nas discussões deste acampamento”, afirmou.

Ele também realçou  a importância global desses territórios: “A proteção desses territórios não é apenas uma questão de justiça histórica, mas uma medida essencial para toda a humanidade”.

Além das procuras  nacionais, o encontro também teve forte conexão com a agenda internacional.

Após a realização da COP em Belém, que contou com a participação de mais de 5 mil indígenas de 43 países, houve avanço na formulação de propostas concretas para políticas climáticas, incluindo contribuições diretas dos povos indígenas.

Um dos pontos destacados por Karipuna foi o avanço no debate sobre financiamento climático, especialmente com o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF).

O mecanismo prevê destinar pelo menos 20% dos recursos diretamente a povos indígenas e comunidades locais, além de incluí-los na governança dos fundos — uma inovação em relação a modelos anteriores.

A liderança indígena Bárbara Tupinikim também relevou o papel estratégico dos povos originários no combate às mudanças climáticas.

“As convenções foram separadas, mas os problemas são interligados”, afirmou, defendendo maior integração entre políticas de clima, biodiversidade e combate à desertificação.

Alertou ainda para os impactos desiguais da crise climática, especialmente sobre mulheres indígenas e comunidades vulneráveis.

Ao comentar o tema do ATL 2026 — “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós” —, Bárbara reforçou: “A resposta está nos territórios e nos nossos modos de vida. Não é apenas uma luta dos povos indígenas, mas uma agenda que diz respeito ao futuro de toda a sociedade”.

Tambem o vice-coordenador da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, Alcebias Sapará, referiu  o desafio global que não está na criação de novas metas, mas na execução das já existentes.

“O que falta é tirar do papel aquilo que já foi acordado pelos países”, declarou.

No contexto do Dia dos Povos Indígenas ha que salvaguardar a  preservação linguística.

O Brasil mantém cerca de 170 línguas indígenas vivas, além de registros de idiomas de povos isolados.

Para a linguista Ana Suelly Arruda Cabral, da Universidade de Brasília, a perda dessas línguas representa o desaparecimento de sistemas inteiros de conhecimento.

“Língua e cultura são indissociáveis”, explicou, destacando impactos diretos inclusive na relação com o meio ambiente.

Durante o ATL, também houve anúncios institucionais importantes.

Lúcia Alberta Baré assumiu a presidência da Fundação Nacional dos Povos Indígenas, em cerimonia que contou com a presença do ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, e de lideranças como Raoni Metuktire. Foram assinados atos de identificação e delimitação de terras em diferentes estados.

O governo federal também apresentou avanços em políticas públicas, como a ampliação do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) para comunidades indígenas, com investimentos a chegar a R$ 250 milhões até o fim do ano.

Na área da saúde, foi lançado o Programa Nacional de Saneamento Indígena, que busca universalizar o acesso à água potável até 2033 — atualmente indisponível em 72% dos territórios indígenas.

As discussões e propostas apresentadas no ATL 2026 reforçam a centralidade dos povos indígenas não apenas na preservação ambiental, mas também na construção de soluções concretas para a crise climática global.