Há momentos em que a geografia se torna destino. Entre os dias 28 e 30 de maio de 2026, a cidade da Praia transforma-se no centro do mundo atlântico.

É lá que acontece o Encontro Internacional da Crioulidade Atlântica — uma iniciativa da Presidência da República que, muito mais do que uma conferência, representa uma declaração de intenções: Cabo Verde quer ser a voz de um legado que atravessa oceanos e une culturas.

O momento não é neutro. O país celebra 50 anos de independência e escolhe fazê-lo não em recolhimento, mas em abertura. Com a presença confirmada de chefes de Estado, académicos, artistas e representantes da diáspora lusófona, o encontro assume uma escala verdadeiramente global. 

Da dor à criação

A crioulidade não nasceu em berço de ouro. Nasceu da escravatura, da migração forçada, do desencontro violento entre mundos. E, ainda assim, desse chão difícil brotou algo extraordinário: sociedades resilientes, culturas híbridas, identidades capazes de conter múltiplas pertenças sem se fragmentarem.

É precisamente esse paradoxo que o encontro quer celebrar e aprofundar. Num mundo cada vez mais fechado sobre si mesmo, marcado por discursos de exclusão e fronteiras erguidas contra o outro, a crioulidade surge como uma resposta diferente — não utópica, mas historicamente fundada. Uma forma de ser no mundo que aprendeu, pela força das circunstâncias, a transformar a diferença em riqueza.

O Presidente José Maria Neves colocou no centro desta iniciativa a juventude cabo-verdiana, reconhecendo-a como força viva de um projeto que não pode ficar preso ao passado. A memória é ponto de partida, não destino.

Saber, criar, comprometer

O programa do encontro organiza-se em três eixos complementares. O primeiro é o do saber — debates académicos sobre a genealogia da crioulidade, as dinâmicas da diáspora e os desafios contemporâneos da identidade. O segundo é o da criação — uma forte presença cultural que afirma a arte como linguagem política e espaço de reinvenção. O terceiro é o do compromisso — uma feira internacional e, no horizonte, a adoção da Declaração da Praia, documento estratégico que deverá orientar futuras políticas e cooperações entre países do espaço atlântico.

No final, o objetivo é ambicioso mas claro: lançar as bases de um Fórum Permanente da Crioulidade Atlântica, capaz de consolidar redes duradouras entre Estados, universidades, artistas e sociedade civil.

A tartaruga e o oceano

A escolha do emblema não foi inocente. A tartaruga — animal que atravessa oceanos sem pedir licença, que regressa sempre às suas origens e conecta silenciosamente margens distantes — é uma metáfora perfeita para o que a crioulidade representa: uma identidade que é ao mesmo tempo local e universal, enraizada e em movimento.

É também uma imagem de paciência estratégica. A tartaruga não tem pressa, mas chega sempre. E Cabo Verde parece ter aprendido essa lição: construir com consistência, pensar em tempo longo, agir com propósito.

Um país que escolhe ser ponte

Ao acolher este encontro, Cabo Verde não está apenas a celebrar a sua história. Está a propor uma narrativa ao mundo — a de que é possível construir identidade sem exclusão, pertença sem fechamento, orgulho sem supremacia.

Num mundo fragmentado, há uma escassez crescente de pontes. E Cabo Verde candidata-se, com toda a legitimidade histórica e cultural, a ser uma delas.

Amílcar Cabral deixou escrito que "a cultura é simultaneamente fruto da história de um povo e determinante da sua história futura." Cinquenta anos depois da independência, o arquipélago parece ter compreendido, de forma plena, o peso e a promessa dessas palavras.

A Praia, em maio, será mais do que uma cidade. Será um ponto de encontro entre o que fomos e o que ainda podemos ser.


Se valoriza um jornalismo livre, crítico e comprometido com a verdade, subscreva o Estrategizando e faça parte desta comunidade de leitores que acredita no poder da informação para transformar a sociedade.