Há democracias que existem no papel. E há democracias que respiram. Cabo Verde pertence à segunda categoria.

Neste domingo, 17 de maio de 2026, mais de 416 mil eleitores são chamados às urnas para decidir o destino de um país que, em pouco mais de cinquenta anos de independência, construiu aquilo que poucos territórios africanos conseguiram: um sistema democrático funcional, pacífico e alternante.

O mundo pode não estar a olhar para a Praia com a mesma atenção com que olha para Washington ou Brasília, mas o que acontece hoje no arquipélago cabo-verdiano tem uma significância que transcende a sua escala geográfica.
São 416.335 eleitores inscritos — 344.284 no território nacional e 72.051 na diáspora —, distribuídos por 1.342 mesas de voto, sob a supervisão da Comissão Nacional de Eleições e com 218 observadores internacionais credenciados. Os números são modestos à escala global. O peso simbólico, não.

O palco: uma democracia forjada no Atlântico

Para compreender estas eleições, é preciso recuar ao princípio. Santiago terá sido a primeira ilha a ser povoada pelos colonizadores — navegadores italianos e portugueses ao comando da coroa, em 1460.

Durante séculos, o arquipélago funcionou como entreposto estratégico nas rotas atlânticas entre a Europa, a África e a América Latina, acumulando na sua alma uma mistura irrepetível de culturas, sangues e línguas. Dessa fusão nasceu o cabo-verdiano: um povo mestiço, criativo e resistente, cujo idioma próprio, o crioulo, é simultaneamente símbolo de identidade e ponte entre mundos.
Em 1956, Amílcar Cabral fundou um partido para lutar contra o colonialismo e a ditadura portuguesas, tornando-se um dos percursores da descolonização das mentes. Foi assassinado em Conacri a 20 de janeiro de 1973, dois anos antes da independência de Cabo Verde. A sua sombra paira ainda sobre a política cabo-verdiana, não apenas como mito fundador, mas como memória viva de que a liberdade tem sempre um preço.
Em 5 de julho de 1975, Abílio Duarte declarou a independência do país. Em 1991, após as primeiras eleições multipartidárias livres, foi instituída uma democracia parlamentar com todas as instituições de uma democracia moderna — o que fez de Cabo Verde um caso singular no continente africano: uma nação sem petróleo, sem diamantes e sem recursos naturais significativos, mas com algo que vale mais do que tudo isso: instituições que funcionam e alternância de poder sem violência.

Os protagonistas: dois projetos, um arquipélago

Entre os cinco partidos em corrida, a disputa concentra-se no Movimento para a Democracia (MPD), do atual primeiro-ministro Ulisses Correia da Silva, que procura um terceiro mandato consecutivo, e no PAICV, liderado por Francisco Carvalho, atual presidente da Câmara Municipal da Praia. 
Estes dois partidos não são apenas organizações políticas. São cosmovisões. Desde as primeiras eleições livres em 1991, MPD e PAICV têm alternado a liderança do país, governando sempre com maiorias parlamentares.

A bipolaridade é estrutural, quase genética, no sistema político cabo-verdiano.

No comício de abertura da campanha, Ulisses Correia da Silva pediu aos cabo-verdianos mais um mandato para consolidar os resultados alcançados nos últimos dez anos de governação, defendendo que Cabo Verde superou adversidades como a pandemia da Covid-19 e apresenta hoje melhores indicadores económicos e maior credibilidade internacional. É a narrativa da continuidade: o argumento de que uma obra a meio não se abandona.
Do outro lado, o PAICV procura capitalizar a vitória expressiva alcançada nas eleições autárquicas de dezembro de 2024, nas quais conquistou 15 dos 22 municípios do país, incluindo a cidade da Praia, onde Francisco Carvalho venceu com 62% dos votos. O resultado autárquico foi uma advertência que o MPD não pode ignorar: quando os cabo-verdianos votam localmente, preferem a oposição. A questão é saber se esse voto de descontentamento se transfere agora para o plano nacional.
Francisco Carvalho aposta na gratuitidade do ensino, no acesso à saúde e na redução dos custos dos transportes entre as ilhas do arquipélago. São promessas que tocam nas feridas mais antigas de um país archipelágico, onde a mobilidade entre ilhas é cara e desigual, e onde a qualidade dos serviços públicos ainda não acompanha a ambição do discurso governativo.

Os números: uma disputa genuinamente em aberto

As sondagens pintam um quadro de incerteza que raramente se viu em Cabo Verde. Uma sondagem da Afrosondagem realizada em dezembro de 2025 indica que o MPD lidera as intenções de voto com 31% das preferências a nível nacional, mas a leitura por círculos eleitorais mostra o PAICV a liderar em vários deles, nomeadamente em Boa Vista, Santiago Sul e Santiago Norte. 
O que torna este cenário particularmente imprevisível é o peso do eleitorado flutuante. O peso expressivo dos eleitores que afirmam não votar em nenhum partido (17%), dos indecisos (14%) e dos que não souberam ou preferiram não responder (8%) indica, segundo a Afrosondagem, um cenário em aberto e sujeito a mudanças. 
Em ilhas como Maio e São Nicolau, o número de eleitores indecisos ou que rejeitam os partidos tradicionais ultrapassa os 40%, o que sinaliza um elevado espaço de disputa política. Este dado não é irrelevante: revela uma geração de cabo-verdianos — sobretudo jovens — que já não se revê automaticamente nas lealdades herdadas dos pais. A democracia cabo-verdiana está a amadurecer, e com ela a exigência dos seus cidadãos.

A UCID e a ambição de quebrar o duopólio

A terceira força política, a União Cabo-verdiana Independente e Democrática (UCID), liderada por João Santos Luís, tenta quebrar a bipolarização partidária com o apelo ao chamado “voto inteligente”. É uma estratégia que tem lógica num contexto de desgaste do bipartidarismo, mas que os números colocam ainda numa posição marginal. A UCID surge nas sondagens com apenas 4%, com maior expressão em São Vicente. 

A questão que a UCID coloca — como é possível que um país com democracia plena seja governado, sem interrupção, pelos mesmos dois partidos há 35 anos? — é legítima e merece ser levada a sério. Mas entre a questão e a alternativa eleitoral, há ainda um fosso considerável.

O que está verdadeiramente em jogo

Vista de fora, esta eleição pode parecer uma questão interna de um pequeno arquipélago atlântico. Vista de perto, revela algo de maior alcance.
Cabo Verde tem sido, desde a independência, um argumento contra o fatalismo que frequentemente acompanha o olhar sobre África. Um país sem recursos naturais que construiu um Estado de direito, que realiza eleições livres, que transfere o poder pacificamente, que integra uma diáspora numerosa e politicamente ativa — isso não acontece por acaso. É o resultado de escolhas políticas, de cultura cívica acumulada, e de lideranças que, com todas as suas imperfeições, não renegaram o projeto democrático.

O verdadeiro teste desta eleição não é apenas quem ganha. É se a democracia cabo-verdiana tem maturidade suficiente para aprofundar-se — para passar de uma democracia de alternância para uma democracia de qualidade, onde o desafio não é apenas trocar de partido no poder, mas elevar o nível da governação, reduzir as desigualdades entre ilhas, e responder às expectativas de uma geração que cresceu com o mundo nos bolsos.

Esta noite, quando os primeiros resultados chegarem da Praia, de São Vicente, do Fogo e da diáspora, o que se estará a contar não são apenas votos. É a medida de uma democracia que, nascida no Atlântico, continua a provar que o futuro de um povo começa sempre pela coragem de escolher.

 

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