Estes visitantes chegam por voos low cost, fora dos pacotes convencionais. Ficam poucos dias, mas procuram muito: a cultura viva das comunidades, o interior das ilhas, o modo de vida cabo-verdiano. E encontram, em casas comuns e centros comunitários, algo que nenhum hotel consegue oferecer — a sensação de pertencer, ainda que por algumas horas, a um outro mundo.
Em Mato Baixo, no interior de Santiago, Sandra Correia recebe os turistas como quem recebe família. À chegada, aperitivos simples preparados no momento e sumo natural de papaia — pensado, diz ela, para quem vem de caminhadas longas. Depois, bata e lenço na cabeça. E a casa passa a ser de todos.
A visita à estufa é o primeiro momento do dia: os visitantes colhem os legumes que vão cozinhar. Na cozinha, cada um assume uma tarefa — cortar, mexer, temperar — sob orientação de Sandra. A galinha de terra junta-se à massa de milho ou ao xerém. A refeição nasce do esforço coletivo e é partilhada à mesma mesa.
A história começou por acaso. "Tenho um vizinho, gerente de uma agência de viagens, que trouxe turistas para a sua casa. Ele precisava de alguém que falasse francês e eu fiquei com uma senhora idosa do grupo. Convidei a senhora e a filha à minha casa e elas gostaram. Depois, o meu vizinho propôs-me sociedade: ele traria turistas e eu receberia na minha casa para fazer atividades do dia-a-dia", conta Sandra.
O que começou como um encontro fortuito tornou-se numa fonte de rendimento constante. E a casa de Sandra, numa porta de entrada para o interior de Cabo Verde.
A cinquenta quilómetros, em Longueira, no concelho de São Lourenço dos Órgãos, foi uma comunidade inteira que se reinventou.
Um grupo de mulheres ligadas à igreja local recebeu formação em reaproveitamento alimentar, práticas de higiene e diversificação da dieta. Aprenderam a fazer sumo natural de papaia em vez dos de pacote. Aprenderam artesanato. Aprenderam a transformar roupas que já não usavam em novos artigos.
O conhecimento saiu das formações e entrou no quotidiano. E a determinação ganhou forma física: as mulheres juntaram-se, recolheram materiais e construíram o seu próprio espaço. "Pedimos ajuda para termos um centro para desenvolver as nossas atividades e, em parceria com a Câmara Municipal, juntámos brita, apanhámos areia e fizemos o nosso centro", recorda Isabel, uma das fundadoras do grupo.
Foi nesse contexto que surgiu a ligação ao turismo, através de uma parceria entre a Cáritas de Cabo Verde e de França. Os primeiros visitantes chegaram sem custos, numa fase de descoberta mútua. "Quando a Cáritas de França veio para Cabo Verde, recebemo-los sem pagar nada. Viram a nossa capacidade e arranjaram mais turistas. Depois resolveram pagar-nos por noite", explica Isabel.
Com o aumento do custo de vida, os valores foram ajustados — e a dignidade do acolhimento passou a ter um preço justo.
A experiência vai muito além do alojamento. Os visitantes entram na rotina da comunidade: torram café, socam milho, preparam xerém e cachupa. "E quando colocamos a comida na mesa, comemos todos juntos, como se fôssemos uma família", descreve Isabel.
A língua continua a ser o principal obstáculo. O guia é presença indispensável, e as mulheres reconhecem a necessidade de formação em línguas — sobretudo em francês, a língua da maioria dos visitantes que chegam por via da Cáritas. Mas a comunicação acontece de outras formas: gestos, ferramentas digitais, e uma hospitalidade que dispensa palavras.
As melhorias chegaram de forma gradual e concreta. Na primeira visita, não havia casa de banho — a de uma cunhada serviu de alternativa. Com o rendimento das visitas seguintes, Sandra investiu nas infraestruturas. A casa melhorou. A comunidade também.
Ao longo dos anos, ficaram amizades, contactos e intercâmbios — algumas mulheres chegaram mesmo a visitar a França. Após a pausa imposta pela pandemia, a atividade foi retomada em 2024 com renovado dinamismo.
Ainda dependentes das parcerias com a Cáritas, estas mulheres e famílias olham para o futuro com ambição. Sabem que têm algo raro para oferecer: autenticidade. E que, num mundo onde o turismo de massas esgota destinos e homogeneíza culturas, o que fazem em Mato Baixo e em Longueira é, cada vez mais, o que os viajantes de todo o mundo procuram. Não um sítio para visitar. Uma vida para, por momentos, habitar.