António José Seguro e André Ventura somaram 1.755.764 e 1.326.942 votos. Dois números gordos, sim — mas gordos como sinais de alarme. O país acordou com um travo amargo na boca e uma sensação de que alguém desligou as luzes no meio do caminho.

A esquerda reformista (para não dizer outro nome) entrou em pânico. A direita tradicional (e a extrema direita) tropeçou nos próprios sapatos. E, de repente, o voto deixou de ser secreto:

desfilaram apoios públicos, declarações apressadas, alinhamentos de última hora. Ideias, essas, ficaram para depois.

A democracia burguesa agradece: quanto menos debate, mais confortável fica.

E aqui chegamos ao ponto essencial: A chamada esquerda revisionista, colaboracionista, domesticada - aquela que promete mundos e fundos dentro de um sistema que nunca foi feito para o povo - tem contas a prestar. Alimentou ilusões, empurrou o país para becos sem saída e abriu espaço para o surgimento de novos Bonapartes de microfone na mão e promessas de salvação nacional.

A pergunta que o povo português deveria fazer é simples: Para onde nos levará qualquer um destes candidatos? E, mais importante ainda: por que continuamos a fingir que escolher entre dois caminhos que não nos pertencem é liberdade?

As teorias do “mal menor” são o calmante perfeito para manter tudo igual. Mas os interesses do povo trabalhador não são - nunca foram - os interesses dos capitalistas.

Por isso, sim: Não votar pode ser um acto de coragem. Coragem para não legitimar uma farsa. Coragem para não participar num ritual que já não representa o país real.

Coragem para dizer: basta. Boicote à farsa eleitoral!