Hoje, 15 de fevereiro, assinalam-se 60 anos da morte em combate de Camilo Torres Restrepo, sacerdote, sociólogo e fundador do Departamento de Sociologia da Universidade Nacional da Colômbia.

Nascido a 3 de fevereiro de 1929, em Bogotá, e morto a 15 de fevereiro de 1966, em San Vicente de Chucurí, aos 37 anos, tornou-se uma das figuras mais emblemáticas — e controversas — da história política latino-americana do século XX.

A recente informação sobre a possível descoberta dos seus restos mortais num cemitério militar devolve o seu nome ao centro do debate público. Durante mais de meio século, o Estado colombiano manteve sob reserva o paradeiro do corpo, num contexto em que a memória histórica esteve frequentemente subordinada às lógicas do conflito interno.

Fé, política e “amor efetivo”

Camilo Torres foi um dos precursores da chamada Teologia da Libertação, corrente que, a partir dos anos 1960, procurou ler o Evangelho à luz da realidade social latino-americana. Para ele, o cristianismo implicava “amor efetivo”: um compromisso concreto com os pobres e com a transformação das estruturas de opressão.

O seu pensamento promoveu um diálogo explícito entre marxismo e catolicismo. Defendia que a criação de uma sociedade justa e igualitária não era apenas um ideal político, mas uma exigência ética da fé. Esta convicção levou-o, em 1965, a integrar o Exército de Libertação Nacional (ELN), numa decisão que justificou como resposta ao encerramento das vias democráticas por uma oligarquia que considerava excludente e violenta.

A sua morte em 1966 marcou um ponto de inflexão simbólico: a figura do sacerdote que abandona a batina para se juntar à guerrilha tornou-se ícone de uma época marcada por radicalização política em toda a América Latina.

A Colômbia dos anos 1960: desigualdade e violência estrutural

O percurso de Camilo Torres não pode ser dissociado do contexto histórico colombiano. Após o assassinato de Jorge Eliécer Gaitán, em 1948, o país mergulhou num ciclo de violência conhecido como “La Violencia”, conflito que devastou zonas rurais e provocou deslocamentos massivos.

Nos anos 1960, a pobreza era predominantemente rural e estrutural. A concentração fundiária atingia níveis extremos: grandes proprietários controlavam as melhores terras, enquanto camponeses sobreviviam em condições de subsistência. Este cenário favoreceu o surgimento de movimentos guerrilheiros como as FARC e o próprio ELN.

O êxodo rural intensificou o crescimento de bairros periféricos nas grandes cidades, como Medellín, enquanto a economia aprofundava a dependência de capitais estrangeiros. Décadas depois, a questão fundiária permanece central: estimativas indicam que uma pequena fração de proprietários continua a concentrar a maioria das terras produtivas.

Narcotráfico, geopolítica e intervenção externa

A partir do final da década de 1960, a Colômbia entrou também na rota do narcotráfico internacional. O cultivo de marijuana para exportação abriu caminho, nos anos 1970, à expansão da cocaína. Figuras como Pablo Escobar e Carlos Lehder projetaram o país para o centro da agenda global de segurança.

Os Estados Unidos desempenharam papel ativo ao longo destas décadas, quer no combate às guerrilhas em contexto de Guerra Fria, quer mais tarde na chamada “guerra contra as drogas”. Analistas apontam que esta intervenção contribuiu para a militarização prolongada do conflito e para o fortalecimento de estruturas paramilitares.

Neste quadro, a figura de Camilo Torres passou a ser lida não apenas como fenómeno interno colombiano, mas como parte de uma dinâmica mais ampla do Sul Global, onde desigualdade, dependência económica e disputa geopolítica se entrelaçam.

Memória e atualidade política

O atual presidente colombiano, Gustavo Petro, tem manifestado a intenção de reconhecer o legado académico e humano de Camilo Torres, sublinhando o seu contributo para o pensamento social colombiano. Para setores progressistas e movimentos sociais, a possível identificação dos seus restos mortais representa não apenas um ato forense, mas um gesto de reparação histórica.

Ao mesmo tempo, persistem divergências profundas quanto à legitimidade do recurso à luta armada. O debate em torno de Camilo Torres reflete, assim, tensões não resolvidas sobre memória, violência política e caminhos para a paz.

Um símbolo além das fronteiras

No plano internacional, Camilo Torres permanece referência em debates sobre fé e política, justiça social e soberania latino-americana. A sua figura continua a interpelar sociedades que enfrentam desigualdade estrutural, concentração de riqueza e exclusão.

Recordá-lo seis décadas após a sua morte é confrontar uma questão que ultrapassa a Colômbia: pode existir estabilidade duradoura sem enfrentar as raízes económicas e sociais do conflito?

Entre a crítica e a admiração, o legado de Camilo Torres mantém-se como espelho das contradições da América Latina contemporânea — e como lembrete de que a paz, para ser sustentável, exige mais do que silêncio das armas: exige justiça social, inclusão e dignidade humana.

Fontes e enquadramento histórico:

  • Centro Nacional de Memoria Histórica (Colômbia)

  • Comissão da Verdade da Colômbia

  • CEPAL – Comissão Económica para a América Latina e Caraíbas

  • Relatórios históricos sobre La Violencia e conflito armado colombiano

  • Dados fundiários e relatórios do Banco Mundial sobre desigualdade rural na Colômbia

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