Numa entrevista ao programa *Bem Viver*, do *Brasil de Fato*, o professor Li Ji, da Universidade Agrícola da China (CAU), afirmou que os países do Sul Global poderiam suprir entre 30% e 50% de sua procura por fertilizantes utilizando resíduos orgânicos produzidos localmente.
O investigador, que também dirige o Instituto de Pesquisa de Reciclagem Orgânica de Suzhou, observou que esse processo possibilitaria a "construção de sistemas nacionais autonomos de produção de fertilizantes e, por extensão, sistemas alimentares mais resilientes". Essa proposta é uma alternativa à dependência estrutural de insumos químicos importados.
O programa aconteceu de 15 a 30 de junho na Escola de Revitalização Rural de Suzhou, organizado pela UAC, pela Associação Internacional para a Cooperação dos Povos (AICP) Baobab e pelo Grupo de Biotecnologia VOTO de Pequim, com o apoio do Ministério da Ciência e Tecnologia da China.
Participaram delegações de 13 países, incluindo Argentina, Brasil, México, Egito, Nigéria e Paquistão.
A reunião faz parte de um esforço para consolidar uma rede de cooperação entre países do Sul Global.
Bárbara Loureiro, coordenadora da Baobab no Brasil, explicou que essa iniciativa aborda "problemas... ligados a um sistema agroalimentar que sempre se baseou numa lógica de subordinação e dependência em relação ao Norte Global".
Segundo Loureiro, a criação de redes soberanas para a produção de bioinsumos visa romper essa dependência histórica.
Nesse sentido, ela destacou que o acesso a tecnologias agrícolas está diretamente ligado à soberania alimentar — entendida como o direito de decidir como e para quem os alimentos são produzidos.
As atividades da escola incluem formações em microbiologia, compostagem e produção de fertilizantes orgânicos, bem como visitas técnicas a instalações operacionais em Jiangsu e Xangai.
Além disso, foram realizadas sessões de intercâmbio sobre gestão de resíduos orgânicos entre os países participantes.
A China oferece um estudo de caso significativo na transição para modelos agrícolas mais sustentáveis.
Durante décadas, o país foi o maior consumidor mundial de fertilizantes químicos, utilizando cerca de 50 milhões de toneladas anualmente, segundo o Departamento Nacional de Estatísticas.
No entanto, atualmente é o único país que conseguiu reduzir seu consumo, com base em dados da FAO.
Os fertilizantes químicos — compostos por nitrogênio, fósforo e potássio — estão associados a impactos ambientais como degradação do solo, contaminação de aquíferos e emissão de óxido nitroso, um gás de efeito estufa.
Li Ji observou que, na China, até 50% desses fertilizantes poderiam ser substituídos pela reciclagem de resíduos orgânicos — resultado de quase três décadas de pesquisa na UAC.
Ele também reslçou que conflitos internacionais recentes, como a guerra entre Rússia e Ucrânia e as tensões no Oriente Médio, agravaram a escassez global de fertilizantes, afetando particularmente os países do Sul Global.
"Essa crise os obriga a desenvolver seus próprios sistemas nacionais de fertilização", afirmou o pesquisador.
Um dos principais focos do programa foi a combinação de tecnologias desenvolvidas pela China e pelo Brasil. Caroline Gomide, pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB) e cocordenadora do programa, explicou que a integração de técnicas de compostagem acelerada com remineralizadores possibilita a produção de fertilizantes organominerais mais eficientes.
“A tecnologia chinesa para acelerar a compostagem utilizando reatores e microrganismos é combinada com remineralizadores... uma área em que o Brasil é pioneiro”, detalhou Gomide. Esse processo incorpora pó de rocha durante a compostagem, permitindo a captura de amônia e a redução de emissões poluentes. Esse tipo de inovação visa fortalecer a produção sustentável e diversificar as fontes de nutrientes agrícolas, reduzindo, assim, a dependência de insumos sintéticos importados.
O mercado de bioinsumos cresce a uma taxa anual estimada de 15%, uma tendência que apresenta desafios para a sua implementação. Paula Veliz, integrante da equipe técnica da Baobab, alertou para o risco de que essas tecnologias sejam absorvidas pelo modelo agroindustrial.
“Nosso desafio... é garantir que essa tecnologia não se torne, mais uma vez, subordinada à lógica do agronegócio”, observou ela. Nesse contexto, ela enfatizou a necessidade de manter os bioinsumos nas mãos de agricultores e cooperativas, evitando processos de privatização semelhantes aos que ocorreram com as sementes.
Por sua vez, Loureiro enfatizou que a expansão da agroecologia requer condições estruturais, incluindo o acesso à terra. “Não há como ampliar a escala da agroecologia... sem reforma agrária”, afirmou.
O especialista sustentou que os bioinsumos constituem “um dos pilares centrais para ampliar a escala da agroecologia” dentro de uma estratégia mais ampla para enfrentar as crises ambiental, alimentar e econômica.