O surto foi declarado a 15 de maio, na província de Ituri, no leste do país. Mas uma investigação publicada na revista científica Science sugere algo mais inquietante: o vírus poderá ter começado a circular já em janeiro, talvez antes, semanas em que mais de quinhentos casos suspeitos passaram despercebidos, entre vigilância sobrecarregada, conflito militar ativo na região e a ausência de vacina ou tratamento eficaz para esta estirpe específica, o vírus Bundibugyo.
O resultado é uma epidemia que a OMS já classificou como emergência de saúde pública de importância internacional, espalhada por cinco províncias, Ituri, no epicentro, além de Kivu do Norte, Kivu do Sul, Haut-Uélé e Tshopo, com uma taxa de letalidade próxima dos 45%. O vírus chegou a atravessar a fronteira com o Uganda, que viria a declarar-se livre de Ébola a 28 de julho, depois de conter vinte casos, a maioria importados do Congo.
A resposta no terreno tem tanto de médico como de comunicacional. Dezenas de condutores de mototáxi atravessam o leste do país a transportar mensagens de prevenção, numa tentativa de combater a desinformação e o ceticismo que ainda travam parte do trabalho das equipas de saúde.
É um lembrete simples e incómodo: nenhuma epidemia se combate só com ciência. Combate-se também com confiança e a confiança, em zonas de conflito armado e memória de surtos anteriores, é o recurso mais escasso de todos.
A União Europeia anunciou um reforço de 5 milhões de euros para testagem, um gesto que ilustra como a resposta a esta crise já não é apenas congolesa. É também, cada vez mais, uma questão de governação sanitária global e das suas assimetrias. Enquanto isso, no Quénia, a simples perspetiva de uma instalação de quarentena financiada pelos Estados Unidos, junto à base aérea de Laikipia, foi suficiente para gerar confrontos entre manifestantes e polícia. O medo do vírus, ali, misturou-se com um medo mais antigo: o de decisões sobre a saúde de africanos serem tomadas sem africanos.
A epidemia de Ébola no Congo não é só uma notícia de saúde. É uma radiografia de como o continente ainda negoceia, surto após surto, o seu lugar nas decisões que lhe dizem respeito. A ciência avança, os dados chegam, atualizados, quase diários; as taxas de rastreio de contactos ultrapassam os 75%. Mas a confiança das comunidades, a infraestrutura de vacinas e a arquitetura internacional de resposta continuam a correr atrás do vírus, não à sua frente.
Enquanto isso não mudar, África continuará a contar as suas epidemias não em anos, mas em surtos. E o dezassete, neste caso, ainda não é o último número.