Enquanto o comendador Rui Nabeiro era distinguido com o Globo de Ouro Mérito e Excelência, numa homenagem à sua trajetória empresarial e humana, outra dimensão do legado do Grupo Nabeiro continua a ganhar forma através de projetos ligados à inovação e à sustentabilidade.

Desta vez, a matéria-prima são as borras de café. Aquilo que normalmente terminaria como resíduo da atividade da Delta Cafés passou, nos últimos anos, a integrar um circuito produtivo diferente: o cultivo de cogumelos.

A parceria entre o Grupo Nabeiro–Delta Cafés e a empresa Nãm, que há vários anos transforma borras de café em cogumelos, entra agora numa nova fase com a inauguração da Nãm Fungi Factory.

A nova unidade pretende dar maior escala ao projeto de economia circular desenvolvido pelas duas empresas e aumentar a capacidade produtiva de uma iniciativa que começou com uma lógica essencialmente urbana.

A Nãm Urban Mushroom Farm, detida em 50% pela Delta, foi criada como uma experiência pioneira de economia circular na região metropolitana de Lisboa. O conceito assenta numa ideia simples: transformar um resíduo abundante da indústria do café numa nova matéria-prima.

A Delta recolhe as borras resultantes da sua atividade e a Nãm reutiliza-as como substrato para o cultivo de cogumelos-ostra frescos.

A parceria entre as duas empresas teve início em 2019 e esteve na origem da Nãm Urban Farm, instalada em Marvila, Lisboa.

Na fase inicial, a operação permitia transformar cerca de três toneladas de borras de café por mês em aproximadamente uma tonelada de cogumelos, produzindo simultaneamente fertilizante natural.

O projeto ganhou progressivamente dimensão.

Em 2021, a Nãm produzia já cerca de quatro toneladas de cogumelos por mês, utilizando aproximadamente 12 toneladas de borras de café. A produção chegava então a mais de uma centena de restaurantes em Lisboa.

Mas o ciclo não termina nos cogumelos.

Depois de utilizados no processo de cultivo, os resíduos restantes podem voltar a ser aproveitados e transformados em fertilizante orgânico destinado à produção de frutas e legumes.

É precisamente aqui que reside a lógica central do projeto: o resíduo de uma atividade transforma-se na matéria-prima de outra e, no final do processo, volta novamente à cadeia produtiva.

Em vez de uma linha que começa na matéria-prima e termina no desperdício, constrói-se um ciclo em que os recursos permanecem em utilização durante mais tempo.

A inauguração da Nãm Fungi Factory representa, assim, um novo capítulo desta parceria entre a Delta Cafés e a Nãm.

O projeto passa de uma operação de dimensão predominantemente urbana para uma unidade concebida para reforçar a capacidade produtiva, acompanhar o crescimento da procura e consolidar um modelo empresarial baseado na circularidade.

Num setor tradicional como o café, a iniciativa mostra também que a inovação nem sempre começa com a criação de um novo produto.

Por vezes, começa precisamente onde outros apenas veem aquilo que sobra.