Num tempo dominado pela velocidade e pelo consumo superficial de conteúdos, há conversas que pedem outro ritmo.
Foi nesse espaço de escuta, promovido pela Promotova, plataforma que dá palco a narrativas longas e significativas, que se revelou o percurso de Isabel Cardoso Fonquerle, produtora e proprietária do Domaine de l’Oustal Blanc, no sul de França.
Nascida na Guiné-Bissau e chegada a França aos 17 anos, Isabel construiu o seu caminho entre migração, formação exigente e uma ética de trabalho que rejeita rótulos fáceis. A sua infância africana, marcada por disciplina, desporto e estímulo intelectual, contraria a narrativa redutora ainda associada ao continente.
“Há muito conhecimento em África; o que houve foi invisibilização”, afirma, lembrando professores russos e cubanos que formaram gerações de excelência.
O vinho entrou na sua vida quase por acaso, mas ficou por vocação.
Em Paris, recusou colocar fotografia no currículo para evitar julgamentos prévios — uma decisão que acabou por abrir portas. Observada pela competência e pela relação humana com os clientes, foi convidada a integrar a cave de vinhos de um grande armazém, onde se formou como sommelière.
A partir daí, a linguagem dos aromas, a disciplina da prova e a ciência por detrás de cada garrafa tornaram-se o seu território.
O passo seguinte levou-a ao sul de França, onde, com Claude Fonquerle, fundou o Domaine de l’Oustal Blanc, na região de Minervois – La Livinière. Ali, Isabel afirma uma viticultura de precisão: vindima manual, triagem rigorosa, mínima intervenção, orientação biológica e decisões guiadas pela prova — não pelo laboratório.
O vinho, explica, “é tecnologia ancestral”: rigor técnico, tempo e sensibilidade no mesmo gesto.
O percurso não ignora os obstáculos.
Isabel relata episódios de racismo e o peso acrescido de ser mulher num setor ainda marcado por estereótipos. A resposta, porém, é constante: foco no trabalho, imposição serena de respeito e resultados que falam por si.
Alguns dos seus vinhos foram premiados internacionalmente, incluindo distinções em provas na Ásia, reforçando a credibilidade de um projeto construído com método e identidade.
Hoje, entre os desafios das alterações climáticas, escassez de água, stress hídrico, adaptação das castas e a consolidação internacional, há um desejo que atravessa o seu discurso: levar os seus vinhos à morabeza cabo-verdiana. Não como símbolo exótico, mas como narrativa completa de diáspora, pertença e excelência.
Um vinho que chegue às ilhas como quem regressa a casa: não por nostalgia, mas por pertença. Para ser partilhado à mesa, sem pressa, entre histórias, silêncios cúmplices e a humanidade que só o tempo bem vivido revela.
Tudo indica que, no final de abril, Isabel Cardoso Fonquerle estará novamente na Praia onde, na apresentação oficial de A Diáspora, conduzirá uma degustação que é mais do que prova sensorial. Será a afirmação de que saber, saber-fazer e saber-ser são dimensões inseparáveis da verdadeira qualidade humana — aquelas que se cultivam, se respeitam e se celebram, com um copo na mão, do mesmo modo que os antigos gregos exaltavam o vinho como o néctar dos deuses.
Porque, como a própria demonstra, há histórias que não cabem em 60 segundos. Tal como um bom vinho, pedem tempo e deixam marca.