Segundo o estudo, intitulado “Quem Paga o Preço? Desigualdade de Género e Dívida”, até 55 milhões de empregos femininos estão em risco no curto prazo, podendo esse número atingir 92,5 milhões a longo prazo. Paralelamente, o rendimento per capita das mulheres poderá cair cerca de 17%, enquanto os rendimentos masculinos se mantêm praticamente inalterados. Este desequilíbrio evidencia uma dinâmica estrutural em que crises macroeconómicas amplificam vulnerabilidades já existentes.
No centro desta realidade está uma escolha política recorrente: à medida que os governos canalizam mais recursos para o serviço da dívida, reduzem o investimento em sectores fundamentais como saúde, proteção social e sistemas de cuidados. Esta retração do Estado social limita o acesso a serviços essenciais e restringe oportunidades no mercado de trabalho formal, com efeitos particularmente severos para as mulheres.
Como sublinhou Alexander De Croo, a pressão dos pagamentos da dívida “reduz o espaço fiscal e conduz a cortes em serviços sociais vitais”, expondo milhões de pessoas a condições de maior vulnerabilidade. No entanto, quando esses serviços são desmantelados, o impacto não é neutro: recai de forma desproporcionada sobre as mulheres, que assumem a maior parte do trabalho de cuidado não remunerado.
Este fenómeno tem implicações profundas. Ao serem forçadas a substituir serviços públicos inexistentes dentro do espaço doméstico, muitas mulheres veem-se impedidas de aceder a emprego, formação ou oportunidades económicas. A economia informal cresce, mas a autonomia diminui.
Os efeitos estendem-se também à saúde pública. O relatório aponta para um aumento estimado de 32,5% na mortalidade materna, o equivalente a mais 67 mortes por cada 100 mil nascimentos. Simultaneamente, a esperança média de vida diminui, refletindo o colapso progressivo de sistemas de saúde sob pressão financeira. Trata-se de um retrocesso claro em indicadores que, durante décadas, foram considerados sinais de progresso civilizacional.
Este cenário é agravado por um contexto internacional marcado por conflitos, instabilidade energética e inflação persistente, fatores que comprimem ainda mais o espaço orçamental dos Estados. Como resultado, as escolhas políticas tornam-se mais restritivas, frequentemente à custa de investimentos sociais críticos.
Perante este quadro, o PNUD defende uma mudança estrutural na forma como a dívida é gerida. A integração de uma perspetiva de género nas decisões de financiamento deixa de ser uma opção ética para se tornar uma necessidade económica e social. Proteger empregos, garantir serviços essenciais e reforçar a segurança económica das mulheres são condições indispensáveis para um desenvolvimento sustentável e inclusivo.
Exemplos de boas práticas já emergem em diferentes regiões. Iniciativas apoiadas pelo programa UN-REDD Programme, em países como Brasil, Chile, Costa Rica, Equador e Paraguai, demonstram que é possível alinhar políticas ambientais e sociais com a promoção da igualdade de género. Estes projetos têm contribuído para reduzir barreiras estruturais, ampliar o acesso das mulheres a recursos e fortalecer a sua participação na tomada de decisões, particularmente em contextos rurais e no setor florestal.
Mais do que uma questão técnica, a gestão da dívida revela-se, assim, um campo de disputa sobre prioridades políticas e valores sociais. A forma como os Estados escolhem responder à pressão financeira define não apenas o rumo das suas economias, mas também o tipo de sociedade que pretendem construir.
Num mundo onde os números muitas vezes obscurecem as pessoas, este relatório devolve visibilidade a uma realidade incontornável: sem justiça de género, não há desenvolvimento verdadeiro.
“Não há desenvolvimento sustentável sem igualdade de género.” — António Guterres
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