Vejamos o Golfo do México, a Groenlândia e o Canadá.

Há algo de profundamente revelador na forma como a Administração Trump tem vindo a olhar para a política internacional: uma visão em que poder militar, recursos naturais, território e interesse económico parecem cada vez mais misturados.

Podemos chamar-lhe expansionismo, imperialismo económico ou, numa leitura mais crítica, neocolonialismo do século XXI.

O que já não parece razoável é fingir que se trata apenas de algumas frases extravagantes de Donald Trump.

Trump voltou a defender publicamente que a Groenlândia deveria ficar sob controlo dos Estados Unidos, apesar da oposição expressa das autoridades groenlandesas e dinamarquesas. E continua a utilizar em relação ao Canadá uma retórica em que surge repetidamente a ideia do “51.º Estado”.

Entretanto, a relação entre Washington e Ottawa entrou numa confrontação comercial profunda, com tarifas e retaliações de parte a parte.

Na América Latina, a utilização da força e da pressão norte-americana voltou igualmente para o centro do debate, com a Venezuela e as políticas de combate aos cartéis a reforçarem uma visão da região que alguns analistas já descrevem através da expressão “Donroe Doctrine”, numa referência deliberada à antiga Doutrina Monroe.

E é precisamente por isso que vale a pena olhar para a história dos territórios que aparecem agora no discurso de Washington.

O Golfo do México existia muito antes de Trump

O Golfo do México não nasceu num gabinete presidencial em Washington.

A sua formação geológica começou aproximadamente durante o Triássico e o Jurássico, associada ao processo de fragmentação da Pangeia e ao afastamento das massas continentais que viriam a constituir a América do Norte, América do Sul e África. A configuração básica da bacia estava estabelecida no início do Cretácico.

Tem cerca de 1,55 milhões de quilómetros quadrados e constitui uma enorme bacia oceânica semi-fechada, ligada ao Atlântico pelo estreito da Florida e ao mar das Caraíbas pelo canal do Iucatão.

As suas margens pertencem a Estados Unidos, México e Cuba.

É também uma região extraordinariamente importante do ponto de vista económico, energético, pesqueiro e estratégico.

Talvez por isso Donald Trump tenha decidido, logo no início do seu segundo mandato, determinar que a Administração federal norte-americana passasse a designá-lo por “Gulf of America” — Golfo da América. A ordem executiva de 20 de janeiro de 2025 determina essa designação para as referências oficiais federais dos Estados Unidos.

Mas há uma diferença importante entre mudar o nome utilizado pela administração de um país e mudar a história, a geografia ou a soberania de uma região partilhada por vários Estados.

Nenhum decreto presidencial norte-americano transforma o México ou Cuba em território dos Estados Unidos.

E muito menos apaga centenas de milhões de anos de história geológica.

É curioso recordar que, quando existia a Pangeia, também o território que viria a formar a Península Ibérica fazia parte desse enorme supercontinente.

O Atlântico que hoje separa Portugal da América ainda não existia.

A geografia política que hoje tomamos como permanente é, à escala geológica, apenas um instante.

Groenlândia: quase quatro mil milhões de anos de história geológica — e um povo que não está à venda

A Groenlândia torna esta discussão ainda mais extraordinária.

Algumas das suas rochas têm aproximadamente 3,8 a 3,9 mil milhões de anos, encontrando-se na região de Isua algumas das formações rochosas mais antigas conhecidas no planeta.

Muito antes de qualquer discussão entre Washington e Copenhaga, aquele território já tinha uma história humana própria.

Os primeiros povos conhecidos chegaram à Groenlândia há aproximadamente 4.500 anos, incluindo as culturas Saqqaq e Independence.

Séculos mais tarde chegaram populações nórdicas. Érico, o Vermelho, explorou a região no final do século X e a tradição histórica associa-lhe a designação Grønland — Terra Verde, utilizada para tornar o território mais atraente a possíveis colonos.

Depois vieram séculos de relações com a Noruega e a Dinamarca.

Hoje, a Groenlândia possui autogoverno dentro do Reino da Dinamarca, dispondo de instituições políticas próprias e de amplas competências internas.

E, perante as pretensões norte-americanas, a posição do próprio Governo groenlandês dificilmente poderia ser mais clara:

A Groenlândia não quer ser propriedade dos Estados Unidos, não quer ser governada pelos Estados Unidos e não quer fazer parte dos Estados Unidos.

Há frases que deveriam encerrar discussões.

Esta é uma delas.

E depois há o Canadá…

Também o Canadá parece ter passado a integrar esta nova cartografia imaginária de Donald Trump.

Trump tem repetidamente sugerido a possibilidade de o Canadá se transformar no 51.º Estado norte-americano, provocando sucessivas reações de rejeição por parte das autoridades canadianas.

Mas o Canadá não apareceu ontem.

A sua própria estrutura geológica contém algumas das formações mais antigas do planeta. O Escudo Canadiano constitui uma enorme massa de rochas pré-câmbricas e inclui os gnaisses de Acasta, com aproximadamente 4,03 mil milhões de anos, entre as rochas mais antigas conhecidas na Terra.

Do ponto de vista político, a Confederação canadiana nasceu em 1867, inicialmente através da união da Província do Canadá, Nova Escócia e New Brunswick, dando origem às quatro primeiras províncias: Ontário, Quebec, Nova Escócia e New Brunswick.

A autonomia canadiana foi-se construindo progressivamente.

O Estatuto de Westminster de 1931 consolidou uma ampla autonomia legislativa e externa, e a patriation constitucional de 1982, através do Canada Act e da Constitution Act, retirou ao Parlamento britânico o papel remanescente na alteração da Constituição canadiana.

Portanto, convém recordar o essencial:

o Canadá não é uma extensão territorial dos Estados Unidos à espera de integração. É um Estado soberano com uma história, instituições e identidade próprias.

A velha tentação dos impérios

É aqui que Golfo do México, Groenlândia, Canadá, Venezuela, México e Colômbia começam a fazer parte da mesma discussão.

Não porque sejam realidades iguais.

Não são.

Mas porque a linguagem utilizada para falar deles revela uma determinada conceção do poder internacional.

Uma conceção segundo a qual força militar, dimensão económica e capacidade de coerção confeririam às grandes potências uma espécie de direito especial sobre territórios, recursos e decisões de Estados mais pequenos ou mais dependentes.

É precisamente esta lógica que o direito internacional contemporâneo tentou superar depois de séculos de colonialismo, anexações e guerras territoriais.

Podemos discutir interesses estratégicos norte-americanos.

Podemos discutir a segurança do Ártico.

Podemos discutir petróleo, minerais críticos, rotas marítimas, narcotráfico, migração e competição com a China ou com a Rússia.

Tudo isso é legítimo.

O que não deveria voltar a ser normalizado é a ideia de que um país pode reivindicar outro território simplesmente porque é mais poderoso e considera que esse território lhe seria economicamente ou militarmente útil.

Porque quando essa lógica regressa, não estamos apenas a discutir Donald Trump.

Estamos a discutir algo bastante mais antigo:

o regresso da ideia de que a força cria direitos.

E a História já nos ensinou demasiadas vezes onde essa ideia termina.