Nunca fui aquilo que se poderia chamar um “ciclista militante”. Porém, no jornal Estrategizando, acompanhamos com genuína simpatia o ativismo cívico e ambiental de pessoas como José Ramalho, cuja militância em prol da mobilidade sustentável representa um contributo importante no combate à poluição e na construção de cidades mais humanas.
Talvez eu próprio não esteja entre os maiores “prevaricadores ambientais”: nunca conduzi automóvel nem outros meios fortemente poluentes. É verdade que utilizo táxis, Uber e avião — embora, sempre que possível, prefira o comboio, por uma questão prática, ecológica e até civilizacional.
Ainda que ligeiramente atrasados — desculpa, Zé Ramalho! — associamo-nos ao espírito do Dia Mundial da Bicicleta, celebrado a 3 de junho, recuperando a mensagem deixada pelas Nações Unidas sobre a importância deste meio de transporte que continua a transformar vidas em todo o planeta.
Criado oficialmente pela ONU em 2018, o Dia Mundial da Bicicleta procura reconhecer aquilo que muitos países já perceberam há muito: a bicicleta não é apenas um veículo de lazer ou desporto. É um instrumento de inclusão social, combate à pobreza, sustentabilidade ambiental e acesso a oportunidades.
Estima-se que existam atualmente cerca de mil milhões de bicicletas em circulação no mundo, assegurando diariamente a mobilidade de milhões de pessoas.
Na Europa, países como a Holanda e a Dinamarca tornaram-se exemplos de políticas públicas inteligentes, onde existe praticamente uma bicicleta por habitante. Nessas sociedades, pedalar não é um ato alternativo — é um comportamento normal, incentivado, seguro e integrado no planeamento urbano.
Já no chamado Sul Global, especialmente em vários países africanos, a bicicleta assume frequentemente um papel ainda mais vital: é a diferença entre chegar à escola ou ficar em casa; entre ter acesso a cuidados de saúde ou permanecer isolado; entre transportar água potável ou caminhar quilómetros sob condições adversas.
Um dos exemplos mais inspiradores destacados pela ONU é o do fotógrafo português Daniel Rodrigues, que em 2023 decidiu atravessar o continente africano numa bicicleta elétrica, numa viagem de mais de 6 mil quilómetros, entre a Cidade do Cabo, na África do Sul, e Nairobi, no Quénia.
Daniel admite que nunca tinha feito grandes distâncias de bicicleta antes desta aventura. Mas aquilo que encontrou mudou profundamente a sua visão do mundo.
Percebeu que, em muitos países africanos, a bicicleta não é uma escolha ideológica ou estética — é uma necessidade. Na Zâmbia, Tanzânia ou Quénia, observou bicicletas a transportarem água, mercadorias, famílias e até a funcionarem como autênticos “bike-táxis”, semelhantes ao fenómeno do mototáxi no Brasil.
Mais do que um meio de deslocação, a bicicleta revelou-se uma ponte humana.
“Permitiu um contacto mais direto e genuíno com as pessoas”, relatou Daniel à ONU News. “Crianças corriam ao meu lado e algumas pessoas acompanhavam-me durante quilómetros nas suas bicicletas. De carro, essa experiência seria impensável.”
Há aqui uma metáfora poderosa sobre a vida moderna: talvez a velocidade excessiva nos esteja a afastar uns dos outros.
Num tempo em que as alterações climáticas deixaram de ser uma ameaça distante para se tornarem uma realidade concreta — ondas de calor, secas, incêndios e fenómenos meteorológicos extremos — a bicicleta assume-se como um símbolo de resistência sustentável.
A ONU lembra que integrar a bicicleta nos sistemas de transporte urbanos e regionais ajuda a:
Talvez esteja na altura de olharmos para a bicicleta não como um acessório recreativo, mas como parte da solução.
Porque, no fim de contas, talvez algumas das maiores transformações sociais comecem exatamente assim: em silêncio, sobre duas rodas.
E sim — usem a bicicleta.
Fontes:
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