Por baixo das fronteiras, das bandeiras, das religiões e das identidades que fomos construindo, existe uma realidade mais antiga e bastante mais simples: pertencemos todos à mesma humanidade.

O problema começa quando transformamos diferenças legítimas em muros, hierarquias e razões para desprezar o outro.

Há vídeos que passam depressa e outros que ficam a trabalhar connosco durante algum tempo. The DNA Journeypertence claramente ao segundo grupo. A experiência é simples: junta pessoas de origens diferentes, pergunta-lhes quem são, de onde vêm, com quem se identificam e de quem se sentem distantes. Algumas respostas revelam orgulho na própria identidade, outras deixam escapar preconceitos e certezas bastante rígidas sobre determinados povos ou nacionalidades. Depois chegam os resultados dos testes de ancestralidade genética e aquilo que parecia muito arrumado começa a desfazer-se.

Pessoas que se imaginavam ligadas quase exclusivamente a um país descobrem origens familiares em vários outros lugares. Algumas encontram no próprio ADN ascendências precisamente entre populações em relação às quais tinham acabado de manifestar reservas. E há ainda um momento particularmente feliz, quase cómico, em que dois participantes descobrem que são parentes distantes. Primos.

A força do vídeo está precisamente aí. Não tenta dar uma lição pesada nem transformar a genética numa espécie de sermão moral. Limita-se a confrontar as pessoas com a complexidade da própria história. E essa complexidade lembra-nos algo que tantas vezes esquecemos: a humanidade nunca viveu dentro das fronteiras rígidas que mais tarde desenhámos nos mapas.

As populações deslocaram-se, fugiram de guerras, procuraram alimento, trabalho e segurança, cruzaram mares e montanhas, encontraram-se, misturaram-se, apaixonaram-se e tiveram filhos. A história humana é também a história desse movimento constante. Somos, todos nós, resultado de encontros anteriores que já não conseguimos sequer reconstruir por completo.

Talvez por isso faça cada vez menos sentido olhar para a identidade como se ela fosse uma pureza a preservar. Podemos ser portugueses, cabo-verdianos, angolanos, franceses, muçulmanos, cristãos, ateus, africanos, europeus ou aquilo que a nossa história pessoal nos tenha tornado, sem que nenhuma dessas pertenças precise de transformar o outro numa ameaça.

O problema começa exatamente quando a identidade deixa de ser uma forma de pertença e passa a funcionar como uma trincheira.

É aí que a questão deixa de ser apenas cultural e passa a ser profundamente política.

Nos últimos anos voltámos a ouvir com demasiada facilidade discursos públicos que tratam comunidades inteiras como se fossem blocos homogéneos. Fala-se de “os imigrantes”, “os estrangeiros”, “os muçulmanos”, “os africanos”, “os ricos”, “os pobres”, “os de cá” e “os de fora” como se milhões de pessoas pudessem ser explicadas por uma única palavra.

A simplificação é tentadora porque os problemas sociais são difíceis. A imigração é complexa. A integração é complexa. A desigualdade é complexa. A segurança também. E, quando os problemas são complexos, há sempre quem prefira escolher um grupo, dar-lhe um nome e transformá-lo na explicação para quase tudo o que corre mal.

A política conhece bem esse mecanismo e os media nem sempre lhe resistem. As redes sociais, por sua vez, aceleraram-no de forma brutal, porque a indignação circula mais depressa do que a nuance.

Nada disto significa que não se deva discutir imigração, segurança, integração, religião ou identidade nacional. Pelo contrário. Uma sociedade adulta tem obrigação de discutir esses temas, estabelecer regras e avaliar políticas. Mas existe uma enorme diferença entre discutir políticas e discutir o valor humano de quem é afetado por elas.

Podemos discordar de uma política migratória sem transformar o imigrante numa categoria moral. Podemos questionar práticas religiosas sem concluir que todos os seguidores de uma religião são iguais. Podemos discutir criminalidade sem atribuir comportamentos individuais a uma comunidade inteira.

Quando deixamos de falar de pessoas concretas e começamos a falar apenas de categorias, a distância torna-se muito mais fácil.

Primeiro deixa de ser o António, o Mohamed, a Fátima ou a Sara. Passa a ser “o imigrante”, “o estrangeiro” ou “essa gente”. Parece uma diferença pequena de linguagem, mas não é. As palavras ajudam a preparar a forma como passamos a olhar para os outros.

Talvez seja esse um dos pontos mais interessantes do vídeo. Aquelas pessoas começam por falar como se as identidades fossem sólidas, evidentes e perfeitamente separadas. Depois descobrem que a própria história familiar atravessou muitas das fronteiras que imaginavam tão importantes.

A genética não sabe onde acaba Portugal e começa Espanha. Não conhece a fronteira entre França e Alemanha. Não lê passaportes nem reconhece as bandeiras que fomos inventando ao longo dos séculos. Isso não significa que os países, as culturas ou as identidades não tenham importância. Têm. Mas ajuda a relativizar a ideia de que pertencemos a caixas humanas completamente separadas.

Aliás, talvez nunca tenhamos deixado verdadeiramente de ser tribais.

Durante milhares de anos, viver em grupo foi uma condição de sobrevivência. O nosso bando protegia-nos, alimentava-nos e ajudava-nos a enfrentar ameaças. Essa capacidade de cooperação foi essencial para a nossa evolução, mas trouxe também uma tendência para distinguir rapidamente quem pertence ao grupo e quem está fora dele.

Hoje já não vivemos em cavernas, mas o mecanismo continua reconhecível. Mudaram os símbolos. Antes eram tribos; agora podem ser países, partidos, religiões, clubes de futebol ou comunidades digitais.

Basta assistir a certas discussões futebolísticas para perceber como é pequeno o estímulo necessário para transformar um “nós” e um “eles” numa questão quase existencial. O problema é quando levamos esse mesmo mecanismo para temas muito mais sérios.

Uma camisola de futebol pode separar-nos durante noventa minutos. Uma ideologia baseada no desprezo pelo outro pode separar sociedades durante gerações.

Talvez seja essa a questão central que The DNA Journey acaba por colocar, mesmo sem o dizer diretamente. Não se trata de afirmar que somos todos iguais, porque não somos. Temos histórias, culturas, crenças e experiências muito diferentes. Trata-se de reconhecer que nenhuma dessas diferenças nos torna mais ou menos humanos.

E isso parece hoje menos óbvio do que deveria.

Entre a tradição cristã do amor ao próximo e diferentes correntes humanistas que, de Marx a tantos outros pensadores, imaginaram sociedades menos marcadas pela exploração, há uma pergunta que atravessa séculos e continua por resolver: o que fazemos com o outro?

Podemos vê-lo como ameaça, tolerá-lo enquanto permanecer suficientemente longe ou reconhecer que, apesar das diferenças, pertence à mesma história humana que nós.

Curiosamente, nunca tivemos tanto conhecimento para compreender essa proximidade. Decifrámos o genoma humano, reconstruímos antigas migrações, sabemos que as populações sempre se misturaram e conseguimos falar em segundos com alguém do outro lado do planeta.

Ao mesmo tempo, continuamos perfeitamente capazes de odiar alguém porque nasceu alguns quilómetros para lá de uma fronteira.

Há qualquer coisa de profundamente absurdo nisso.

Talvez o grande salto civilizacional que ainda nos falte não seja eliminar as diferenças. Isso seria impossível e, provavelmente, indesejável. É aprender a viver com elas sem precisar de transformar diferença em ameaça.

Podemos gostar da nossa cultura sem desprezar a dos outros. Podemos amar o nosso país sem odiar o país ao lado. Podemos ter uma religião sem considerar inferiores os que não a seguem. Podemos discordar politicamente sem retirar humanidade ao adversário.

No fundo, talvez seja isto que o vídeo nos recorda de forma tão simples e tão eficaz: a identidade pode dizer-nos muito sobre quem somos, mas não nos autoriza a esquecer quem os outros são.

Pessoas.

Tal como nós.

E, se recuarmos suficientemente na enorme árvore genealógica da humanidade, a frase deixa mesmo de parecer apenas uma metáfora simpática:

somos, de uma forma ou de outra, todas e todos primos.

Vamos pois recusar as logicas racistas divisionistas que as vezes dominam os media e aparecem ate no Parlamento e no governo!

Vale ver e ouvir este video que vai alem das etnias, das tribus, das castas e nos mostra com muito humor o como podemos ir contra as manipulações.

Enfim dos bandos da “idade da pedra” aos bandos dos “clubes de futebol” ou das “seitas religiosas” muito caminho ha a fazermos para que consigamos olhar o Outro com Amor e nao com Odio e Desprezo!

Entre Jesus Cristo e Marx chegaremos la se optarmos pelo suicidio deste absurdo guerreirismo