A 70.ª edição do Festival Eurovisão da Canção arrancou oficialmente este domingo com a tradicional passadeira turquesa, momento simbólico que reúne artistas, fãs e delegações de dezenas de países antes das atuações em palco.
Portugal sobe já esta terça-feira, 12 de maio, à primeira semifinal do concurso com o tema “Rosa”, interpretado pelo grupo Bando do Cante. O quinteto português, composto por Miguel Costa, Duarte Farias, Francisco Raposo, Luís Aleixo e Francisco Pestana, apresenta uma proposta musical que funde o cante alentejano com sonoridades pop contemporâneas.
Os artistas mostraram-se entusiasmados com a participação portuguesa num festival que este ano decorre num clima particularmente sensível. A maioria dos participantes do Festival da Canção da RTP, realizado em março, tinha anunciado previamente que recusaria representar Portugal caso vencesse o concurso, em protesto contra a presença de Israel na Eurovisão.
A edição de 2026 conta com 35 países em competição, depois das desistências de Espanha, Irlanda, Países Baixos, Eslovénia e Islândia, todas associadas à contestação internacional em torno da participação israelita.
Durante a passadeira turquesa, os protestos fizeram-se ouvir de forma visível. À passagem da delegação de Israel foram exibidas bandeiras palestinianas e o cantor israelita Noam Bettan surgiu acompanhado por um forte dispositivo de segurança.
A polémica intensificou-se após a Amnistia Internacional acusar a União Europeia de Radiodifusão (EBU) de aplicar “um flagrante duplo padrão” ao manter Israel na competição, depois de a Rússia ter sido excluída em 2022 devido à invasão da Ucrânia.
“A recusa da EBU em suspender Israel do Festival Eurovisão, tal como fez com a Rússia, é um ato de cobardia”, afirmou Agnès Callamard, secretária-geral da Amnistia Internacional.
A organização considera que a participação israelita serve para “normalizar o genocídio em curso na Faixa de Gaza”, referindo-se aos ataques militares israelitas no território palestiniano desde outubro de 2023, que já provocaram mais de 72 mil mortos, segundo várias entidades internacionais.
A Amnistia Internacional acusa ainda a EBU de trair os valores históricos da Eurovisão, afirmando que “não se pode permitir que canções e lantejoulas abafem as atrocidades e o sofrimento do povo palestiniano”.
Também no mundo da cultura multiplicam-se os protestos. Em abril de 2026 foi divulgada uma carta aberta assinada por mais de 1.100 músicos e profissionais culturais de vários países, incluindo Portugal, defendendo que o concurso não pode ser usado para “branquear e normalizar o genocídio, o cerco e a ocupação militar de Israel contra os palestinianos”.
Apesar da controvérsia, o festival mantém-se como um dos maiores eventos televisivos do planeta. Criada em 1956, a Eurovisão já excluiu países em situações políticas anteriores, como a Bielorrússia em 2021 e a Rússia em 2022. Israel participa desde 1973 e venceu o concurso por quatro ocasiões.
Enquanto os debates políticos dominam os bastidores,
Portugal procura agora conquistar o público europeu através da força emocional do cante alentejano reinventado em “Rosa”, numa edição onde a música volta a cruzar-se inevitavelmente com a geopolítica e os direitos humanos.
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