Lisboa prepara-se para receber um dos projetos mais singulares da temporada teatral. Fantasia Sem Abrigo, uma trilogia cómico-musical com texto e encenação de Tiago Mateus, estreia no próximo dia 10 de janeiro, na Sala Luís Miguel Cintra do Teatro São Luiz, onde permanecerá em cena até 18 de janeiro.

Mais do que um espetáculo, Fantasia Sem Abrigo propõe uma viagem estética e filosófica através de três peças — Fantasia Sem Abrigo, Na Porra do Texas e Notícias do Novo Mundo — que, começando paradoxalmente pelo fim, desafiam o espectador a repensar conceitos como liberdade, ética, pertença e futuro.

A trilogia nasce de um impulso comum: provocar o acaso a partir de um desejo profundo de emancipação. Em diferentes tempos e espaços — uma casa sem teto, um deserto improvável ou uma metrópole em colapso — as personagens reinventam sentidos para a vida, o amor e o medo, num registo onde o humor convive com a inquietação existencial.

Na primeira parte, Fantasia Sem Abrigo, dois amigos de rua vivem à margem de compromissos e convenções. Envoltos em mantos de veludo, estes vagabundos-poetas encarnam uma liberdade radical, vivida como gesto estético e posição ética. Em cena, questionam frontalmente a ideia de que a sociedade se resolve apenas por via da lei, propondo antes uma “liberdade enquanto poética”, uma forma mais ampla e humana de estar no mundo.

Em Na Porra do Texas, o tom absurdo intensifica-se. Dois amigos atravessam o Atlântico para assistir ao funeral de um antigo companheiro de adolescência, cuja morte permanece envolta em dúvida. Entre situações cómicas e um perigo inesperado — agudizado pelo canto improvável de baleias no Texas — a peça joga com o nonsense para falar de perda, memória e da fragilidade das certezas.

A trilogia encerra com Notícias do Novo Mundo, onde ordem e caos coexistem num ambiente de ressonâncias apocalípticas. Dois jovens enamorados lutam por um futuro possível, enquanto a figura do Indiferente, imóvel na sua poltrona, recusa qualquer resolução terrena. Aqui, as personagens assumem um valor simbólico, representando diferentes respostas humanas perante uma narrativa de fim do mundo inspirada no imaginário bíblico.

A música assume um papel central em toda a encenação, não como mero acompanhamento, mas como força dramatúrgica e emocional. Sob a direção musical de Marcos Magalhães, uma pequena orquestra de sete músicos interpreta e reinventa obras de Donizetti, Banchieri, Webern, Bizet e Bach, criando atmosferas que ampliam o impacto sensorial e narrativo de cada momento.

O elenco reúne atores e cantores líricos — David Pereira Bastos, Dinarte Branco, Marcello Urgeghe, Sofia Fialho, Tiago Barbosa, Zé Alves, Susana Gaspar e Luís Beirão — acompanhados por um conjunto de músicos que reforça o carácter híbrido e performativo do espetáculo.

Antes da estreia, o ensaio de imprensa terá lugar a 8 de janeiro, às 17h30, no Teatro São Luiz, com apresentação de excertos para televisão, entrevistas e cobertura fotográfica.

Fantasia Sem Abrigo afirma-se, assim, como um exercício de liberdade artística e pensamento crítico, cruzando teatro, música e humor para lançar perguntas incómodas e necessárias sobre o mundo que habitamos — e sobre aquele que ainda insistimos em imaginar.