A 33.ª edição do Prêmio BTG Pactual da Música Brasileira consagrou, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, não apenas nomes estabelecidos da música brasileira, mas também uma nova geração de artistas que vem redesenhando as fronteiras estéticas, identitárias e culturais do país.

Entre os 31 premiados da noite, o cantor pernambucano Fitti conquistou o prémio de Artista Revelação, num momento que confirma a sua ascensão na cena contemporânea brasileira.

Natural do Recife, Fitti tem construído uma trajectória marcada pela mistura de linguagens, cruzando música, teatro, audiovisual e performance. Cantor, compositor, actor e produtor musical, o artista tem sido apontado como um dos nomes em crescimento na nova música brasileira, com uma obra que recusa rótulos rígidos e dialoga com referências que vão de Gilberto Gil e Tom Jobim a Chico Science, Ney Matogrosso e Lhasa de Sela.

A distinção no Prêmio da Música Brasileira chega depois de uma fase particularmente importante da carreira de Fitti. Em 2024, o artista lançou o álbum “Transespacial”, trabalho que marcou uma viragem no seu percurso e lhe valeu uma indicação ao Grammy Latino de 2025, na categoria de Melhor Álbum de Música de Raízes em Língua Portuguesa. Segundo perfil publicado pelo Popline/Terra, Fitti tornou-se o primeiro cantor transmasculino indicado à premiação.

Em entrevista ao repórter Arthur Aguiar, Fitti descreveu o prémio como um momento de reconhecimento e gratidão. “É um êxtase de reconhecimento e de gratidão. Eu sou o primeiro artista transmasculino indicado ao Latin Grammy. Também fui o primeiro artista transmasculino indicado à categoria Artista Revelação do Prêmio da Música Brasileira e o primeiro vencedor. Não tem como não estar com o peito cheio de alegria e realização”, afirmou.

A cerimónia, apresentada por Débora Bloch e Alice Wegmann, distinguiu artistas, compositores, produtores e músicos em 18 categorias, reforçando a diversidade da produção musical brasileira, do clássico ao popular, do regional ao urbano. Além de Fitti, a noite teve como destaques nomes como João Gomes, Luedji Luna, Djavan, Chitãozinho & Xororó, Deize Tigrona, Hamilton de Holanda, BK’ e Maneva.

João Gomes foi um dos grandes vencedores da noite, com três prémios, incluindo Melhor Artista e Melhor Lançamento na categoria Canção Popular, além de Melhor Lançamento em Projeto Especial com “Dominguinho”, trabalho desenvolvido com Mestrinho e Jota.Pê. Luedji Luna também se destacou, vencendo nas categorias de Melhor Artista e Melhor Lançamento em Pop.

A 33.ª edição do prémio ficou ainda marcada por uma homenagem a Cazuza, um dos nomes mais emblemáticos da música brasileira. O espectáculo reuniu interpretações inéditas de clássicos do artista, com participações de nomes como Seu Jorge, Ney Matogrosso, Ludmilla, Marina Sena, Luedji Luna, Maneva, Zizi Possi, Luísa Sonza e Simone, sob direcção musical de Pretinho da Serrinha.

Depois da vitória no Prêmio da Música Brasileira, Fitti prepara-se para apresentar o projecto “Fitti Canta Ney”, marcado para 12 de Julho de 2026, às 19h00, no Blue Note São Paulo, na Avenida Paulista. O espectáculo reforça a ligação do artista a Ney Matogrosso, uma das suas referências declaradas, e surge como mais um passo na consolidação de uma carreira que alia afirmação artística, presença cénica e representatividade.

Mais do que uma vitória individual, o prémio atribuído a Fitti sinaliza uma mudança mais ampla na música brasileira. A consagração de um artista transmasculino num dos palcos mais tradicionais da cultura do Brasil mostra que a renovação estética da música também passa pela ampliação das vozes, dos corpos e das narrativas que ocupam o centro da cena.

Num país musicalmente marcado pela pluralidade, Fitti emerge como símbolo de uma geração que não pede licença para existir artisticamente. Canta, compõe, interpreta e transforma a própria experiência em linguagem. E, ao vencer como Artista Revelação, confirma que a música brasileira continua a encontrar no risco, na diversidade e na reinvenção algumas das suas maiores forças.