A recente Cimeira Global sobre Fraudes, realizada em Viena pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) em parceria com a Interpol, colocou no centro do debate uma ameaça crescente: o uso intensivo da inteligência artificial por redes criminosas altamente organizadas.
No encontro, que reuniu mais de 1.300 participantes — entre ministros, autoridades policiais, empresas tecnológicas, instituições financeiras e académicas — ficou claro que os métodos tradicionais de combate ao crime estão a ser ultrapassados.
O diretor-executivo interino do UNODC, John Brandolino, sublinhou um dos principais desafios atuais: os criminosos conseguem deslocar-se entre jurisdições em questão de segundos, operando numa velocidade superior à capacidade de resposta das autoridades.
Este novo paradigma permite que uma fraude seja planeada num país, executada noutro e tenha as suas provas armazenadas num terceiro, criando um labirinto jurídico e operacional extremamente complexo.
Um dos pontos mais críticos destacados na cimeira foi o uso crescente da inteligência artificial para conceber, automatizar e escalar esquemas fraudulentos.
Ferramentas digitais permitem hoje alcançar milhões de potenciais vítimas em pouco tempo, com mensagens altamente personalizadas, manipulação de identidade e até simulação de vozes e imagens — técnicas que aumentam significativamente a taxa de sucesso dos golpes.
A Interpol confirmou que as redes criminosas estão a integrar a IA de forma sistemática, tornando as campanhas mais eficazes, difíceis de detetar e quase impossíveis de travar com os modelos tradicionais de investigação.
O impacto económico desta nova vaga de fraude é avassalador. Estima-se que estes crimes gerem lucros ilícitos de vários biliões de dólares por ano, afetando indivíduos, empresas, governos e instituições em todo o mundo.
Entre os fenómenos mais alarmantes estão as chamadas “fábricas de golpes”, estruturas organizadas que operam em diferentes regiões e que, em muitos casos, recorrem a vítimas de tráfico humano como mão de obra forçada para executar fraudes em massa.
Este cenário levou o UNODC a classificar a fraude moderna como um verdadeiro “ecossistema criminoso global”, onde diferentes atores — desde especialistas em tecnologia até redes de lavagem de dinheiro — colaboram de forma estruturada.
Perante esta realidade, a resposta não pode ser isolada. A cimeira reforçou a necessidade de uma cooperação internacional mais profunda, envolvendo governos, forças de segurança, setor privado e empresas tecnológicas.
A Interpol destacou avanços significativos na colaboração entre autoridades policiais, mas reconheceu que o combate eficaz exige também o envolvimento ativo de bancos, plataformas digitais e empresas de tecnologia.
Novas parcerias estão a ser desenvolvidas para enfrentar práticas emergentes, como a integração da extorsão em esquemas digitais, o uso de redes especializadas em branqueamento de capitais e a globalização de centros de fraude sustentados por redes de tráfico humano.
O crescimento exponencial da fraude digital não é apenas um problema tecnológico ou criminal. É um reflexo de um mundo onde a inovação avança mais rápido do que a regulação e onde as desigualdades e vulnerabilidades continuam a ser exploradas por redes altamente organizadas.
A resposta exige mais do que tecnologia: exige ética, cooperação internacional e um compromisso coletivo com a proteção das pessoas e das instituições. Num contexto em que a inteligência artificial pode ser tanto uma ferramenta de progresso como de manipulação, a linha que separa inovação de risco torna-se cada vez mais ténue.
UNODC – United Nations Office on Drugs and Crime: https://www.unodc.org
Interpol – International Criminal Police Organization: https://www.interpol.int
Relatórios internacionais sobre fraude e cibercrime (UNODC / Interpol, 2024–2026)
Europol – Internet Organised Crime Threat Assessment: https://www.europol.europa.eu
"A tecnologia é um servo útil, mas um mestre perigoso." — Christian Lous Lange
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