A origem deste dia remonta a 1948, quando especialistas de diferentes países reuniram-se no maciço Wilder Kaiser, na Áustria, para trocar experiências e criar um espírito de colaboração internacional. Dali nasceu, em 1955, a ICAR — Comissão Internacional de Resgate Alpino — que viria a ser a espinha dorsal de todas as missões conjuntas de salvamento em alta montanha.
Só décadas mais tarde a data se transformaria numa jornada mundial de homenagem, reconhecendo formalmente o trabalho destes homens e mulheres que raramente aparecem nas notícias, mas que são a linha entre a vida e a morte para milhares de aventureiros.
O resgate em montanha é, por si só, uma sinfonia de precisão. Cada corda lançada, cada âncora fixada e cada gesto coordenado carrega a diferença entre fracasso e esperança.
Imagine uma noite gélida nos Alpes, um alpinista perdido, a neblina a cair, e o rugido distante de um helicóptero que abre caminho entre as nuvens: essa imagem resume o espírito de quem escolhe viver para que outros não morram. São heróis anónimos, muitas vezes voluntários, movidos apenas pela convicção de que nenhuma vida deve ser deixada para trás.
Pouco se fala, mas estes socorristas enfrentam riscos comparáveis aos das próprias vítimas. Avalanches repentinas, quedas de pedras, tempestades inesperadas ou mesmo falhas humanas podem transformar uma missão de salvamento numa tragédia.
E, no entanto, ano após ano, milhares de equipas em todo o mundo respondem a chamados desesperados em encostas, grutas e trilhos. Só nos Alpes, estima-se que ocorram anualmente mais de 5 mil operações de resgate, muitas das quais bem-sucedidas graças ao treino constante e ao uso de tecnologia de ponta.
O que torna este dia ainda mais relevante é a sua dimensão pedagógica. Ele recorda que o turismo de aventura e o desejo humano de “conquistar” a natureza devem vir acompanhados de responsabilidade.
Respeitar limites físicos, seguir trilhos autorizados, usar equipamento adequado e conhecer os riscos climáticos são formas de honrar o trabalho daqueles que nos resgatam. Celebrar os socorristas também significa aprender com eles: planeamento, coragem, solidariedade e respeito pelo ambiente.
Há também uma dimensão cultural e espiritual neste dia. As montanhas não são apenas desafios físicos; são patrimónios de identidade para povos que nelas encontram abrigo, inspiração e sustento.
Os socorristas, ao cuidarem de vidas, também preservam histórias, tradições e a ligação profunda entre o ser humano e a natureza. Ao lembrarmos deles, lembramos também que cada vida salva é um pedaço de humanidade resgatado das garras do abismo.
Hoje, 28 de agosto, ao celebrarmos o Dia Internacional do Resgate em Montanha, somos convidados a olhar para cima não apenas com admiração pelas paisagens, mas com gratidão por aqueles que ali se arriscam para manter o mundo mais humano.
O heroísmo que nasce nas alturas não precisa de medalhas — precisa apenas do nosso reconhecimento, da nossa consciência e da promessa de que valorizaremos tanto a vida quanto eles a valorizam.