A guerra entre Rússia e Ucrânia está a consolidar-se como um conflito de negação aérea mútua, onde o volume, a velocidade de adaptação e a inovação tática contam tanto quanto o território.

Nas últimas 48 horas, as autoridades russas divulgaram uma sequência de números que, a confirmar-se, traduzem um padrão de ataques por saturação e de resposta defensiva em camadas, com impacto direto em regiões fronteiriças e na cintura metropolitana de Moscovo.

Segundo o Ministério da Defesa russo, as defesas aéreas intercetaram e destruíram 36 drones ucranianos em três horas sobre várias regiões do país. Em paralelo, o presidente da câmara de Moscovo, Sergei Sobyanin, afirmou que o número de drones intercetados na aproximação à capital chegou a 22, com equipas de emergência acionadas para os locais de queda.

Noutro comunicado, Moscovo declarou ter abatido sete foguetes HIMARS e 326 drones (UAV de asa fixa) num período de 24 horas, além de “bombas guiadas” — uma contabilidade que sublinha a dimensão do que a Rússia descreve como uma pressão aérea constante sobre a sua retaguarda.

Belgorod: guerra de proximidade e custo humano

No terreno, a região de Belgorod mantém-se como um dos pontos mais expostos. Agências estatais russas e veículos associados reportaram que um ataque com drone FPV terá morto um civil, após atingir deliberadamente um camião perto de uma localidade do distrito de Belgorod. Estes incidentes ilustram a natureza íntima e brutal dos drones FPV: baratos, rápidos, difíceis de detetar e capazes de transformar estradas secundárias em corredores de risco.

O pano de fundo: a guerra dos drones já não é “um detalhe”, é o conflito

A sucessão de comunicados russos sobre interceções coincide com uma tendência mais ampla: o conflito tem vindo a ser descrito, por analistas e reportagens internacionais, como uma guerra em que os drones passaram do papel de “apoio” para o centro da doutrina operacional, com efeitos profundos na mobilidade, na logística e nas baixas.

É essencial, contudo, manter uma lente crítica: muitos dos números divulgados são afirmações de parte (Ministério da Defesa russo e autoridades locais) e nem sempre podem ser confirmados de forma independente em tempo real, sobretudo quando se trata de interceções e contagens agregadas.

Ainda assim, o sinal estratégico é claro: quando um conflito precisa de “centenas” de drones para testar defesas e impor desgaste, estamos perante uma guerra de atrito tecnológico, onde a capacidade de produzir, adaptar e aprender mais depressa vale tanto como a capacidade de avançar.

“A guerra é a continuação da política por outros meios.” — Carl von Clausewitz
Em 2026, esses “outros meios” têm hélices, GPS e uma câmara em primeira pessoa.

Fontes consultadas (com ligações nas citações): Reuters (contexto e incidentes relacionados), Associated Press, TASS, Kyiv Independent, Xinhua (via republicação), entre outras fontes noticiosas e comunicados reportados.