Na tradição gnóstica, há uma lenda oriunda da seita cainita, segundo a qual a a famosa Rainha de Sabá, Barcis, quando visitou o reino de Israel, na época de Salomão, não se teria apaixonado pelo famoso e sábio rei, como divulga a tradição, mas sim pelo arquiteto do Templo, Hiram Abiff.
Do romance mantido pelos dois teria nascido um filho ja depois do assassinato do mestre pelos Jubelos, razão pela qual esse filho do maior maçom da sua História era chamado de “o filho da viúva”.
Essa lenda foi inclusive tema de uma ópera composta por Gerard de Nerval, que ao que parece, nunca foi encenada.
A expressão permite o desenvolvimento de um simbolismo rico em significação e os maçons espiritualistas souberam utilizá-lo muito bem. Na tradição da Maçonaria, o Filho da Viúva serve tambem para designar os Templários “órfãos” em relação à extinção de sua Ordem e a morte de seu “pai”, o Grão-Mestre Jacques de Molay, com ainda aos partidários dos Stuarts em relação à morte de seu rei Carlos I, decapitado por ordem do Parlamento inglês.
A viúva daquele rei teria organizado a resistência, sendo a maioria dos seus partidários constituída por maçons.
A propósito, foram os stuartistas refugiados na França que desenvolveram a maior parte dos graus do Rito Escocês Antigo e Aceito.
Hiram, como muitos outros homens notáveis na história do mundo, distinguiu-se pela maneira como morreu, tal como está estabelecido na lenda, e as circunstâncias dramáticas que acompanharam a tragédia são o que dá amplitude à sua biografia.
Para além do tempo, lugar e meios do seu assassinato, a Maçonaria sabe pouco sobre o homem, nem, para além da Maçonaria, há muitos pormenores a recolher.
Tudo o que se sabe sobre ele está contido no Volume da Lei Sagrada, e mesmo aí há confusão, e uma declaração que, na opinião do Irmão Robert Freke Gould, carimba o homem como um homem de Deus. Robert Freke Gould, assume a lenda maçónica como um mito.
De acordo com o autor do Segundo Livro das Crónicas (Cap. II), Salomão enviou mensageiros a Hirão, rei de Tiro, para informar aquele soberano amigo de que tencionava erigir um Templo, convidando-o a fornecer homens e materiais para a prossecução da obra. A primeira exigência de Salomão foi a de um artesão especialmente dotado.
“Enviai-me agora”, diz ele, “um homem hábil para trabalhar em ouro, em prata, em bronze, em ferro, em púrpura, em carmesim e em azul, e que saiba fazer sepulturas com os homens hábeis que estão comigo em Judá e em Jerusalém.”
O rei de Tiro recebeu a embaixada com cordialidade e deu uma resposta favorável a Salomão.
“Enviei um homem astuto”, diz ele, “dotado de entendimento. . . Filho de uma mulher das filhas de Dan, e o seu pai era um homem de Tiro.”
O relato dado no Primeiro Livro dos Reis (Cap. VII) difere um pouco no que diz respeito à ascendência do homem.
Ali se afirma que ele era “filho de uma viúva da tribo de Naftali”.
O autor de Reis concorda com o Cronista que o pai de Hirão era um tírio, acrescentando que ele era “um trabalhador de bronze”. Josefo descreve-o como sendo da tribo de Naftali por parte da sua mãe, sendo seu pai Ur da linhagem de Israel.
Não é fácil conciliar estas diferenças.
Um estudioso da Bíblia – Giesbrecht – sugere que a aversão do editor de Reis à ideia de o Templo ter sido construído por um meio-fenício levou-o a inserir as palavras “uma viúva da tribo de Naftali”, sendo mais admissível a alteração da frase “das filhas de Dã” para “da tribo de Naftali”, uma vez que Dã ficava no território de Naftali.
Os pontos claros que emergem são que Hiram era de raça mista, filho de um trabalhador de bronze, e um homem tão elevado na sua profissão que garantiu o patrocínio do seu rei e foi considerado digno de defender a reputação de seu país.
A sua posição elevada é inferida da descrição dada pelo autor das Crónicas, que alude a ele como “Hiram Abi”, e a palavra “Abi”, que significa “meu pai”, é geralmente tomada no sentido de “mestre”, um título de respeito e distinção.
O nome é, sem dúvida, fenício, mas há alguma confusão quanto à sua forma actual. “Hiram” é a tradução mais comum, mas o autor das Crónicas adere à grafia “Huram”, e outros escritores adoptam a variante “Hirom”.
O Sr. J. F. Stenning diz que é equivalente a “Ahiram” e significa “o exaltado”.
De acordo com Movers, Hiram ou Huram é o nome de uma divindade e significa “o enrolado ou torcido”, mas outros estudiosos consideram essa derivação muito improvável.
Qualquer que tenha sido a sua verdadeira ascendência, e qualquer que tenha sido o significado exacto do seu nome, o filho da viúva da Maçonaria chegou a Jerusalém e, a partir daí, foi intimamente identificado com a construção do Templo. Que participação exacta teve ele nessa grande obra?
Os editores da “The Jewish Encyclopaedia” assinalam que existe uma diferença essencial, no que diz respeito à natureza da sua especialidade técnica, entre o relato conservado no Primeiro Livro dos Reis e o do Segundo Livro das Crónicas.
De acordo com o primeiro, Hiram era um artesão apenas em latão, e as peças que executou para o Templo foram as duas colunas, Jachin e Boaz, o mar fundido com os seus doze bois, as dez camadas com as suas bases, as pás e as bacias, tudo em latão.
Mas no Segundo Livro das Crónicas, ele é representado como um homem de muitos ofícios, e dá-se a impressão de que supervisionava todos os trabalhos do Templo.
Josefo procura conciliar os dois relatos dizendo que Hiram era perito em todo o tipo de trabalhos, mas que a sua principal habilidade era trabalhar em ouro, prata e latão.
E aí termina o nosso conhecimento exacto de Hiram. A História nada sabe sobre ele. O volume da Lei Sagrada é silencioso quanto ao seu destino.
O irmão Robert Freke Gould, baseando-se no décimo primeiro versículo do quarto capítulo do Segundo Livro das Crónicas, diz que ele “certamente estava vivo quando o Templo foi concluído”.
A partir desta pequena base de factos, a Maçonaria criou uma personagem maravilhosamente vívida.
A Ordem sustenta que ele foi o arquitecto-chefe da construção do Templo e associa-o a Hiram, rei de Tiro, e a Salomão, rei de Israel, numa base de igualdade maçónica.
Sugere que estes três eram as personagens mais exaltadas do mundo maçónico e que os segredos de um Mestre Maçom tinham descido até eles, ou tinham sido inventados por eles, e não podiam ser comunicados a mais ninguém sem o consentimento dos três.
Havia Mestres Maçons em abundância no Templo, mas aparentemente nenhum deles tinha sido admitido ao conhecimento dos segredos e mistérios do Alto e Sublime Grau.
Consequentemente, quando alguns Companheiros de Ofício curiosos procuravam obter o conhecimento oculto, eram obrigados a dirigir-se a um ou outro dos três grandes mestres. Escolheram Hiram e, quando este recusou o seu pedido, assassinaram-no da forma descrita no ritual maçónico.
“Tomada literalmente”, diz Charles William Hackethorn em “The Secret Societies of all Ages and Countries”, “a história de Hiram não oferece nada de tão extraordinário que mereça ser comemorada após três mil anos em todo o mundo por ritos e cerimónias solenes. A morte de um arquitecto não é um assunto tão importante que mereça mais honra do que a prestada à memória de tantos filósofos e homens eruditos que perderam a vida pela causa do progresso humano…. A lenda é puramente alegórica…. A parte dramática dos mistérios da antiguidade é sempre sustentada por uma divindade ou homem que perece como vítima de um poder maligno e ressuscita para uma existência mais gloriosa. Nos mistérios antigos, encontramos constantemente o registo de um acontecimento triste, um crime que mergulha as nações em conflitos e luto, sucedido por alegria e exultação.
Deixando por ora a questão do significado da alegoria, consideremos em que data a lenda de Hiram foi enxertada na Maçonaria Especulativa.
É geralmente admitido pelos estudantes que o cerimonial elaborado e a multiplicidade de graus que florescem actualmente sob o termo geral de Maçonaria são de crescimento relativamente moderno e que, antes da era das Grandes Lojas, não existiam mais do que um ou, no máximo, dois graus.
A Maçonaria de hoje parece dever muito ao entusiasmo e à imaginação de dois irmãos que estiveram activos na primeira metade do século XVIII.
Estes eram o Dr. James Anderson, um Aberdoniano, que era um ministro Presbiteriano em Londres, e o Dr. John Theophilus Desaguliers, um nativo de La Rochelle, um clérigo Episcopal, que também trabalhou na Metrópole.
O Dr. George Oliver, outro pároco que se interessava profundamente pelo Ofício, e contribuiu muito para a literatura maçónica, diz que “o nome do indivíduo que associou o afanismo de Hiram Abiff à Maçonaria nunca foi claramente determinado; embora se possa presumir que os Irmãos Desaguliers e Anderson foram partes proeminentes nisso”, acrescentando que quando “estes dois Irmãos foram publicamente” acusados pelos seus contemporâneos secessionistas de fabricarem o grau “nunca o negaram”.
O Irmão Robert Freke Gould, observando a declaração de Oliver, diz que Anderson e Desaguliers estavam há muitos anos no túmulo quando a acusação foi feita, e que, consequentemente, o seu silêncio “não é de se admirar”. Mas se o próprio Gould não atribui a culpa ou o crédito do Terceiro Grau a estes Irmãos, ele favorece a opinião de que Hiram se tornou uma personagem proeminente no ritual maçónico durante os anos da sua actividade.
“Não é fácil decidir quando é que a lenda da morte de Hiram foi incorporada pela primeira vez nas nossas tradições mais antigas”, diz ele, “mas, na minha opinião, deve ter ocorrido entre 1723 e 1729 e”, acrescenta, “estou inclinado a nomear 1725 como o ano mais provável para a sua introdução”.
Gould é levado a este ponto de vista a partir de duas considerações: primeiro, a notável escassez de referências a Hiram nas Old Charges e nos primeiros catecismos da Maçonaria e, segundo, a proeminência dada a ele na edição das “Constituições” do Dr. Anderson, publicada em 1738.
Ele pensa, e sabiamente a maioria das pessoas concordará, que se o assassínio de Hiram Abiff tivesse sido uma tradição da Ordem nos primeiros tempos, não só se encontrariam alusões a ele na literatura da Ordem, como também ele teria aparecido nos graus anteriores, e não teria sido empurrado sem qualquer tipo de aviso para o terceiro grau, para grande surpresa de todos os que consideram a Maçonaria Especulativa como um espectáculo de desenvolvimento gradual. Como diz Palgrave, “Não é bom que as personagens do drama histórico subam ao palco através dos alçapões. Eles devem aparecer primeiro entrando entre as cenas laterais. O seu papel será então melhor compreendido. Ficamos confusos quando um rei, ou um conde, aterra subitamente no nosso terreno histórico, como um cargueiro puxado para cima através de um poço.”
Não é improvável que, por volta da época mencionada por Gould – o final do primeiro quartel do século XVIII – a história tradicional tenha sido alargada, o cerimonial reorganizado e o que era anteriormente o segundo grau tenha sido alargado e depois dividido de modo a formar os graus de Companheiro de Ofício e Mestre Maçom.
O apoio a este ponto de vista é dado por uma comparação entre a primeira e a segunda edição das “Constituições” de Anderson.
Na primeira edição, publicada em 1723, o autor debruça-se longamente sobre a generosidade do Templo do Rei Salomão.
Isto é repetido na edição posterior, publicada em 1738, mas são dados vários pormenores sobre a forma como foi erigido, o que sugere que a sua importância cerimonial maçónica tinha aumentado durante os anos que se seguiram.
Por exemplo, Anderson afirma que depois que “a Pedra do Cabo foi celebrada pela Fraternidade, sua alegria foi logo interrompida pela morte súbita de seu querido ‘Mestre’, Hiram Abiff, a quem eles enterraram decentemente na Loja perto do Templo, de acordo com o uso antigo”.
Se for assumido que o terceiro grau foi inventado por volta de 1725, e que a invenção envolveu a introdução da lenda de Hiram, o próximo ponto a ser considerado é: a que fonte os fundadores recorreram para obter material?
Para além de referências casuais a ele, as Old Charges nada dizem sobre Hiram, e não há nada que indique que ele foi comemorado de alguma forma. Ele é simplesmente referido como um “Mestre da Geometria” e o chefe de todas as várias classes de trabalhadores envolvidos na construção do Templo.
Parece ter sido um pouco mais proeminente no cerimonial dos Rosacruzes, com os quais os Maçons são por vezes identificados.
O Professor Buhle, no seu “Historico-Critical Enquiry into the Origin of the Rosicrucians and Freemasons”, diz:
“A construção do Templo de Salomão tinha um significado óbvio como uma prefiguração do Cristianismo. Hiram, simplesmente o arquitecto deste templo para os verdadeiros professores da arte de construir, era para os ingleses.
Numa nota de rodapé do seu Ensaio, Buhle explica que “Hiram” era entendido pelos Maçons mais antigos como um anagrama H.I.R.A.M. derivado de duas frases latinas: uma, “Homo Jesus Redemptor AnimaruM“, e a outra, “Homo Jesus Rex Altissimus Mundi“.
Se os inventores do terceiro grau receberam dos Rosacruzes a sugestão de fazer de Hiram a figura central do seu novo esquema, é muito óbvio que encontraram os pormenores do seu assassínio em “A Lenda do Templo”, e transformaram essa história para se adequar ao objectivo que tinham em vista.
A Lenda é apresentada em pormenor na obra singularmente atraente de Charles William Heckethorn, “The Secret Societies of all Ages and Countries”, da qual se pode resumir o seguinte:
“Hiram, descendente de Tubal-Caim, que foi o primeiro a construir uma fornalha e a trabalhar os metais, construiu um edifício maravilhoso, o Templo de Salomão, ergueu o trono de ouro de Salomão e construiu muitos edifícios gloriosos. Mas, melancólico no meio de toda a sua grandeza, viveu sozinho, compreendido e amado por poucos, odiado por muitos, incluindo Salomão, que tinha inveja do seu génio e da sua glória. Quando Balkis, a rainha de Sabá, veio a Jerusalém, Salomão levou-a a contemplar o Templo, e a rainha perdeu-se de admiração.
O rei, cativado pela sua beleza, ofereceu a sua mão, que ela aceitou.
Ao visitar de novo o Templo, ela desejou repetidamente ver o arquitecto.
Salomão adiou o mais possível, mas finalmente foi obrigado a apresentar Hiram Abiff à Rainha.
Quando ela quis ver os inúmeros operários que trabalhavam no Templo, Salomão protestou contra a impossibilidade de os reunir a todos de uma só vez; mas Hiram, saltando sobre uma pedra para ser melhor visto, com a mão direita descreveu no ar o Tau simbólico, e imediatamente os homens correram de todas as partes da obra para a presença do seu mestre.
A rainha ficou muito admirada e, secretamente, arrependeu-se da promessa que tinha feito ao rei, pois sentia-se apaixonada pelo poderoso arquitecto.
Salomão propôs-se destruir este afecto e preparar a humilhação e a ruína do seu rival.
Para isso, contratou três companheiros de ofício, invejosos de Hiram, porque este se tinha recusado a elevá-los ao grau de mestres, devido à sua falta de conhecimentos e à sua ociosidade.
A negra inveja destes três projectou o fracasso da fundição do mar de bronze, que devia elevar ao máximo a glória de Hiram.
Chegou o dia da fundição e a rainha de Sabá estava presente.
Abriram-se as portas que retinham o metal fundido e torrentes de fogo líquido derramaram-se no vasto molde onde o mar de bronze devia assumir a sua forma.
Mas a massa ardente ultrapassou as bordas do molde e fluiu como lava sobre os lugares adjacentes.
A multidão aterrorizada fugia da corrente de fogo que avançava, enquanto Hiram, calmo como um deus, tentava deter seu avanço com pesadas colunas de água, mas sem sucesso.
“O desonrado artífice não podia retirar-se do cenário do seu desconforto. De repente, ouviu uma voz estranha vinda do alto e que gritava: “Hiram, Hiram, Hiram!”. Levantou os olhos e viu uma figura humana gigantesca. A aparição continuou: ‘Vem, meu filho, não tenhas medo, tornei-te incombustível, lança-te nas chamas’.
Hiram lançou-se na fornalha e, onde outros teriam encontrado a morte, ele provou delícias inefáveis; nem pôde, atraído por uma força irresistível, deixá-la, e perguntou àquele que o atraía para o abismo: ‘Quem és tu? Eu sou o pai dos teus pais’, foi a resposta: ‘Eu sou Tubal-Caim’.
“Tubal-Caim introduziu Hiram no santuário do fogo e na presença de Caim, o autor da sua raça. Quando Hiram estava prestes a ser devolvido à Terra, Tubal-Caim deu-lhe o martelo com o qual ele próprio havia feito grandes coisas e disse-lhe: ‘Graças a este martelo e à ajuda dos génios do fogo, tu realizarás rapidamente a obra deixada inacabada pela estupidez e malignidade do homem’.
Hiram não hesitou em testar a maravilhosa eficácia do precioso instrumento, e a aurora viu a grande massa de bronze ser fundida.
O artista sentiu a mais viva alegria.
A rainha exultou.
“Um dia depois disto, a rainha, acompanhada pelas suas criadas, foi para além de Jerusalém e aí encontrou Hiram, sozinho e pensativo. Confessaram mutuamente o seu amor. Salomão deu a entender aos seus companheiros de ofício que o afastamento do seu rival, que se recusava a dar-lhes a palavra do mestre, seria aceitável para si próprio; assim, quando o arquitecto entrou no templo, foi atacado e morto por eles.
Embrulharam o seu corpo, levaram-no para uma colina solitária e enterraram-no, plantando sobre a sepultura um ramo de acácia.
“Hiram, não tendo aparecido durante sete dias, Salomão, para satisfazer o clamor do povo, foi obrigado a mandar procurá-lo. O corpo foi encontrado por três mestres e estes, suspeitando que ele tinha sido morto pelos três companheiros de ofício por lhes ter recusado a palavra, decidiram, no entanto, para maior segurança, mudar a palavra.
Os três companheiros de ofício foram localizados, mas, em vez de caírem nas mãos dos seus perseguidores, suicidaram-se, e as suas cabeças foram levadas a Salomão.”
Baseada, como era óbvio, nesta Lenda do Templo, a questão continua a ser: porque é que a história da morte de Hiram foi inserida com tanto pormenor na Maçonaria?
O postulante é ensinado que o objectivo peculiar do Terceiro Grau é ensinar o coração a procurar a felicidade na consciência de uma vida bem passada, e é convidado a reflectir sobre a morte e a perceber que, para o homem justo e virtuoso, a morte não tem terrores iguais à mancha da falsidade e da desonra.
Tudo excelentes ensinamentos morais, mas que não são de modo algum ilustrados pela carreira de Hiram Abiff, de cuja vida e conduta não sabemos absolutamente nada.
E parece que temos de procurar uma explicação noutra direcção.
Muitos escritores – principalmente não-maçons – têm procurado lançar luz sobre o assunto, e a uma só voz concordam que a história da morte de Hiram é simplesmente a maneira maçónica de servir um mistério antigo.
O Sr. John Fellows, que traz uma massa de conhecimento para um estudo do assunto, diz que “a história de Hiram é apenas outra versão, como as de Adónis e Astarte, e de Ceres e Prosérpina, da fábula de Osíris e Ísis. A semelhança em toda a sua extensão”, acrescenta, “é tão exacta que não admite dúvidas. A busca do corpo de Hiram; as investigações feitas por um viajante e a informação recebida; o sentar-se de um dos participantes para descansar e se refrescar, e a dica transmitida pelo raminho sobre o túmulo; o corpo de Hiram permanecendo catorze dias no túmulo preparado pelos assassinos antes de ser descoberto, tudo tem alusão e se encaixa na alegoria de Osíris e Ísis. O estado em que se encontra a sepultura de Hiram, coberta de musgo verde e relva, corresponde muito àquele em que Ísis encontrou o caixão de Osíris.”
Assumindo que o Sr. Fellows e aqueles que concordam com ele estão correctos, qual é a razão pela qual os inventores do Terceiro Grau, no primeiro quartel do século XVIII, deram uma volta bíblica a uma fábula do velho mundo e a introduziram na Maçonaria para ensinar a doutrina da ressurreição dos mortos?
A pergunta não é fácil de responder e, no máximo, podemos apenas arriscar um palpite.
Não será que aqueles que estavam ansiosos por construir o grau encontraram o seu ponto de partida no anagrama familiar aos Rosacruzes que, por uma coincidência muito marcante, coincidia com o nome do arquitecto principal do Templo? Assim, dirigidos a Hiram, eles decidiram dar contas a esse artesão e encontraram muito material pronto para suas mãos na Lenda do Templo.
Mas a história de amor da Rainha de Sabá e os ciúmes de Salomão não tinham qualquer valor dramático para eles no desenvolvimento do grau e, consequentemente, tiveram de adaptar a história às suas necessidades particulares.
A origem última da Maçonaria pode nunca ser descoberta, mas grande parte do cerimonial elaborado tem uma estreita afinidade com o culto primitivo do sol e onde, portanto, os autores se voltariam mais prontamente do que para um dos mitos solares.
Na lenda de Osíris, encontraram algo que se encaixava exactamente no seu esquema e, tal como o H.I.R.A.M. dos Rosacruzes se referia ao Filho de Deus que é a Luz do Mundo, também o seu Hiram foi feito para representar Osíris, ou o Sol, a gloriosa luminária do dia.
Os três companheiros de ofício, tal como o cerimonial do grau toma forma, estão colocados nas entradas oeste, sul e leste, e estas são regiões iluminadas pelo Sol.
Doze pessoas desempenham um papel importante na tragédia; o número, sem dúvida, alude aos doze signos do Zodíaco, e foi sugerido que os três assassinos simbolizam os três signos inferiores do Inverno, Balança, Escorpião e Sagitário. O Sol desce a oeste, e é na porta oeste que Hiram é morto.
A acácia, que tipifica a nova vegetação que virá como resultado da ressurreição do Sol, é encontrada em muitas alegorias solares antigas e é, portanto, muito naturalmente introduzida na história maçónica.
De acordo com uma declaração, o corpo de Hiram é encontrado em estado de decomposição, tendo permanecido catorze dias; o corpo de Osíris foi cortado em catorze pedaços. Outra afirmação insiste em que o corpo foi encontrado no sétimo dia, e isto pode aludir à ressurreição do Sol, “que na verdade tem lugar no sétimo mês após a sua passagem pelos signos inferiores, essa passagem que é chamada a sua descida aos infernos”.
Outros pormenores da tragédia maçónica estão relacionados com o mito solar.
É através da instrumentalidade de Leão que Osíris é ressuscitado, pois quando ele reentra nesse signo, ele recupera a sua força anterior. Hiram foi erguido pelo aperto do Leão, e é por esse aperto que o Maçom é erguido de uma morte figurativa para uma reunião com os companheiros de sua antiga labuta.
O paralelo é maravilhosamente completo.
Um antigo catecismo da Ordem diz que a Maçonaria é “um sistema de moralidade, velado em alegoria e ilustrado por símbolos”.
Actualmente é algo mais.
O primeiro grau está de acordo com a definição; mas o segundo grau está amplamente preocupado com a construção de um Templo para o Senhor, e o terceiro grau aponta o Artesão para a Grande Loja acima da qual ele pode esperar ascender depois de ter passado pelo vale da sombra da morte.
Tudo isto é religião – não moral; e é como parte de nossa fé comum na imortalidade que a morte de Hiram é usada como uma ilustração no alto e sublime grau.
Assim como, na crença pagã primitiva, supunha-se que o Sol perdia a sua força nos dias sombrios do Inverno e ressuscitava para a glória no auge do Verão; e tal como, no cerimonial dos Rosacruzes, o Filho do Homem, que foi morto, teve uma gloriosa ressurreição para a vida eterna, assim, por todo o mundo, onde quer que a Maçonaria seja praticada, o postulante tipifica o nosso Mestre Hiram, não só para mostrar que a morte é preferível à desonra, mas para impressionar a Fraternidade de que o homem justo e virtuoso pode esperar ser recebido como um irmão digno na Grande Loja lá de cima, onde o Grande Arquitecto do mundo governa e reina para sempre.
William Harvey, Grão-Mestre Provincial de Forfarshire; autor de “The Complete Manual of Freemasonry”; “The Story of the Royal Arch”; “Robert Burns as a Freemason”, etc.
(Texto publicado em 1919)
Tradução de António Jorge, M∴ M∴
A lenda diz que Salomão, querendo fazer do seu corpo um templo digno, pediu a Hiram, rei de Tiro, um mestre arquitecto de obra.
Hiram, Rei Consciência, envia e recomenda-lhe Hiram Abiff (Mestre Construtor), filho de uma viúva.
Hiram Abiff é designado como chefe supremo dos obreiros para a construção do templo.
Estes obreiros tinham diversos graus de capacidade e diferentes talentos individuais.
Era, pois, necessário dividi-los segundo as suas capacidades para poder aproveitar melhor o trabalho de cada um.
Hiram, como sábio, justo e benevolente, repartiu-os em três categorias: aprendizes, companheiros e mestres.
Hiram deu a cada um a maneira de se fazer conhecido como tal por meio de signos, toques e palavras apropriados.
Hiram construiu e ergueu no Templo duas grandes colunas bronze, ocas.
Determinou que os Aprendizes recebessem o seu salário na primeira coluna, os Companheiros, na segunda e os Mestres na “câmara do meio”.
Cada classe de obreiro, para poder receber o seu salário, fazia-se conhecer pelo esforço e trabalho que tinha dedicado à Obra.
O trabalho foi dirigido e executado com sabedoria, ordem e exactidão, segundo as instruções recebidas, e a obra avançou em progresso e elevação rapidamente.
Apesar do número de obreiros, que entre todos eram mais de oitenta mil, e de ser feito todo o género de obra, não se ouvia nenhum ruído de instrumento de metal.
Durante sete anos ou mais de construção, não houve chuva, porque o templo estava constantemente coberto.
Igualmente reinaram a paz e a prosperidade durante a construção do Templo.
Três obreiros da classe dos companheiros, julgando-se merecedores e dignos de serem mestres, e querendo conseguir isso pela força, como acontece com todos os ignorantes, congeminaram uma conspiração para se apoderarem, pela violência, da Palavra Sagrada, e serem reconhecidos como Mestres.
Estes três trataram de convencer outros nove companheiros mestres, mas estes, no último momento, desistiram, porque foram perturbados pelo remorso.
Os três cúmplices ficaram sozinhos, e, urdindo o crime, resolveram obter a Palavra pela força, do próprio Hiram.
Os três aguardaram-no, a quem, pela sua bondade, esperavam intimidar.
Escolheram o meio-dia como a hora mais propícia, pois a essa hora Hiram costumava visitar e revisar o trabalho, e elevar as suas preces enquanto os demais descansavam.
Os três dirigiram-se para as três portas do Templo, que naquele momento já estavam desertas, porque todos os obreiros já tinham saído para descansar.
Quando Hiram terminou a sua prece e quis atravessar a porta do sul, o companheiro ali postado o ameaçou com a sua régua de vinte e quatro polegadas, pedindo-lhe a Palavra e o Sinal de Mestre.
Todavia, o Mestre respondeu-lhe: “Trabalha, e serás recompensado!”
Vendo a inutilidade dos seus esforços, o companheiro ignorante o golpeou fortemente com a régua.
E, tendo o Mestre levantado o braço direito para deter o golpe vibrado sobre a sua garganta, o seu ombro direito foi atingido, paralisando o braço.
O Mestre dirigiu-se, então, até a porta do Ocidente, e, ali, o segundo companheiro exigiu-lhe, como o primeiro, A Palavra e o Sinal de Mestre, recebendo a mesma resposta: “Trabalha, e obterás”.
Então este companheiro deu-lhe um forte golpe no peito com o esquadro de ferro.
Meio aturdido, Hiram dirigiu-se até a porta do Oriente.
Nesta porta o terceiro o esperava.
Era o pior intencionado dos três, que, recebendo a mesma negativa do Mestre, deu-lhe um golpe mortal sobre a fronte, com o malhete que tinha levado consigo.
Quando os três se encontraram novamente, comprovaram que nenhum possuía o Sinal nem a Palavra; horrorizaram-se pelo crime inútil e não tiveram outro pensamento senão o de ocultá-lo e fazer desaparecer os seus vestígios.
E, assim, de noite, levaram a vítima em direcção ao Ocidente e a esconderam no cume de uma colina, perto do local da construção.
Quando Hiram não apareceu no lugar do trabalho, todos ficaram perplexos, pressagiando uma desgraça.
Terminou o dia, e o Arquitecto não apareceu; então, os nove companheiros, que se tinham oposto à ideia dos três malvados, decidiram revelar aos Mestres o ocorrido.
Foram conduzidos à presença de Salomão, que, depois de ter escutado o relato dos três mestres e dos nove companheiros, ordenou aos primeiros que formassem três grupos, cada um deles unindo-se com os seus companheiros para esquadrinhar os territórios e regiões do Oriente, do Ocidente e do Meio-dia, em busca do Grande Mestre e Arquitecto Hiram Abiff, e dos três companheiros da Palavra Perdida, a qual nem mesmo Salomão conhecia, e que se tinha perdido com o desaparecimento de Hiram.
Durante três dias o procuraram, inutilmente; porém, na manhã do quarto dia, um dos grupos que se dirigia para o Ocidente encontrava-se sobre as montanhas do Líbano a fim de encontrar um lugar onde pudesse passar a noite; ouviu então vozes humanas numa caverna.
Eram os três companheiros assassinos.
Estes viram os visitantes fazer os sinais do castigo, sinais que foram adoptados depois para os três graus, como meio de reconhecimento.
Os três delinquentes escaparam por outra saída da caverna, e ninguém depois conseguiu encontrar os seus rastros.
Quando regressavam a Jerusalém, na noite do sexto dia (já perto da cidade), um dos três viajantes se deixou cair, extenuado, sobre um montículo.
Observou, então, que a terra tinha sido recentemente removida, e que dela emanava o odor putrefacto dos cadáveres.
Começando a escavar, chegaram a apalpar o corpo mas, como estava escuro, não se atreveram a continuar as suas pesquisas.
Recobriram então o cadáver e colocaram sobre o montículo um ramo de acácia, espécie de árvore comum, cujas flores e folhas são sempiternas.
No dia seguinte, relataram a sua descoberta a Salomão; este fez o Sinal e pronunciou a palavra, que depois foram usados como sinais de socorro.
De seguida encarregou os nove mestres de verificar se se tratava do Grande Mestre Hiram, e de buscar nele os sinais de reconhecimento, os quais ficaram fixados pelas palavras que foram pronunciadas no momento em que o corpo foi levantado da sepultura.
Assim procederam e, ao verem a fronte ensanguentada, coberta por um avental, e sobre o peito a insígnia do grau, fizeram o Sinal de Horror, que ficou sendo o sinal de reconhecimento entre os maçons.
De acordo com a lenda Maçónica, Hiram Abiff era um homem de Tire, o filho de uma viúva e o arquitecto-chefe do Templo construído pelo Rei Salomão.
Ele era o personagem principal da construção do Templo (Hiram, Rei de Tire) e também um de outros três personagens envolvidos com Salomão e ele.
Hiram Abiff, segundo a Maçonaria, era o único no mundo que conhecia os “segredos de um Mestre Maçon”, incluindo o mais importante deles, a “Grande Palavra Maçónica”, o nome de Deus (“o inefável nome”).
Do mesmo modo, na doutrina oculta, saber o nome de um espírito é uma chave de ter o seu poder, e existe um grande poder envolvido com o conhecimento desta palavra.
Saber os outros “segredos de um Mestre Maçon” habilitava os maçons/obreiros a trabalhar no projecto do Templo to go out on their own, trabalhando como Mestres Maçons e recebendo o salário de Mestres Maçons.
Hiram prometeu revelar os “segredos de um Mestre Maçon”, incluindo o nome de Deus, ao se completar a construção do templo, e fazer com que os obreiros se tornassem Mestres Maçons, aptos a frequentar o seu interior como Mestres (eles eram, por enquanto, apenas “companheiros” maçons).
Um dia, Hiram foi, como era seu costume, ao inacabado Santo dos Santos ao meio-dia (“Doze Altos”) para rezar e traçar os planos de trabalho (no seu “cavalete”) para os trabalhadores seguirem no dia seguinte.
Os trabalhadores estavam fora do Templo para a hora do almoço (“os membros foram chamados do trabalho para o recreio”)
Quando Hiram estava a sair do Templo, foi abordado por três “rufias”, em sucessão, que exigiram que receber os segredos imediatamente (sem esperar que o Templo fosse concluído).
Ele foi maltratado pelo primeiro rufia (Jubela), mas escapou.
Abordado e manipulado rudemente pelo segundo rufia (Jubelo), novamente se recusou a divulgar os segredos e novamente escapou.
O terceiro rufia (Jubelum) abordou-o então e, quando Hiram novamente se recusou a divulgar os segredos, matou-o com um golpe na testa com um Malho.
O corpo foi escondido às pressas sob algum lixo no Templo até a meia-noite (“doze baixos”), quando foi levado para o topo de uma colina e enterrado.
O túmulo foi marcado por um galho de Acácia (uma árvore perene comum no Oriente Médio), e os três rufias tentaram escapar do país.
Negada a passagem num navio para fora do país, retiraram-se para as montanhas para se esconder.
Enquanto isso, de volta ao Templo, foi notado que Hiram estava desaparecido e o Rei Salomão foi notificado.
Salomão imediatamente ordenou uma busca dentro e ao redor do Templo, sem sucesso.
Nesse ponto, 12 “companheiros” relataram ao rei que eles e três outros (os três “rufias”) conspiraram para extorquir os segredos de Hiram Abiff, mas que se arrependeram e se recusaram a prosseguir com o plano assassino.
Eles relataram que foram os outros três que assassinaram o Grão-Mestre Hiram e o Rei Salomão enviou-os em grupos de três para fazer buscas em todas as direcções.
Depois de questionar o capitão de mar que tinha recusado a passagem do assassino, três dos pesquisadores seguiram o caminho dos assassinos e descobriram o túmulo com a Acácia à cabeça.
Cavando e reconhecendo o corpo, reportaram-no a Solomon.
Salomão enviou-os de volta para localizar a sepultura, identificar positivamente o corpo como Hiram e tentar levantá-lo da sepultura com o aperto de um Aprendiz.
Eles localizaram a sepultura, mas não foram capazes de levantar o corpo porque a decomposição fez com que a carne se desligasse do osso.
Reportando esta situação a Salomão, foram orientados a voltar ao túmulo e tentar levantar o corpo com o aperto de um Companheiro.
Quando isto falhou porque a pele escorregou, eles relataram a Salomão e, ele mesmo, foi para o túmulo e ergueu o corpo com o aperto de um Mestre Maçom, o ” Aperto forte de uma Pata de Leão “. Hiram não foi apenas tirado da sepultura, mas restaurado à vida.
A primeira palavra que ele disse foi a substituição da ” Grande Palavra Maçónica” perdida na sua morte e essa palavra é a que é transmitida aos Mestres Maçons até hoje.
Esta é, então, a lenda Maçónica de Hiram Abiff, e a maioria dos maçons das Lojas Azuis acredita que é um relato factual, bíblico e histórico.
Em geral, acredita-se, apesar do facto de que as autoridades Maçónicas e escritores de doutrina concordarem que é apenas um mito, sem suporte de factos, mas reconhecem que é apenas o recontar da históriade Ísis e Osíris.
A Bíblia registra dois homens nomeados Hiram, relativo a construção do Templo do Rei Salomão; uma é Hiram, Rei de Tire, que era assistente de Salomão e quem providenciou materiais e trabalhadores para o projecto.
O outro Hiram, chamado “o filho de uma viúva da tribo de Naftali”, era um trabalhador de metais, não o arquitecto do Templo inteiro.
Ele fez os pilares, pás e bacias de metal.
As escrituras registram que este Hiram, o filho da viúva, completou todo o trabalho que ele tinha vindo fazer no Templo.
Presumivelmente, ele voltou então à sua casa em Tire, são e salvo (não há nenhuma indicação na Bíblia de que qualquer coisa tenha ocorrido).
Relativo à reivindicação maçónica que Hiram, o filho da viúva, era o arquitecto principal do Templo, a Bíblia está clara estabelecendo que ele não era tal coisa.
A Bíblia revela que Deus, Ele mesmo, era o desenhista e arquitecto do Templo, que Ele deu os planos em detalhes minuciosos para David e que David os deu a Salomão, junto com a maioria dos materiais.
É o consenso da opinião entre autoridades maçónicas, filósofos e escritores da doutrina que a lenda de Hiram Abiff somente é a versão maçónica de uma lenda muito mais antiga que a de Ísis e Osíris, a base dos Mistérios egípcios.
Osíris, Rei dos Egípcios e seu Deus, realizou uma longa viagem para abençoar nações vizinhas com o seu conhecimento das artes e ciências.
O seu irmão ciumento, Tifão (deus do Inverno) conspirou para o assassinar e roubar o seu reino.
E assim aconteceu. Ísis, irmã e esposa de Osíris e sua rainha (e também deusa da lua) partiu em procura do corpo do seu marido, investigando tudo que encontrou.
Após certas aventuras, ela encontrou o corpo com uma Acácia próxima da parte da cabeça no caixão.
Voltando ao lar, ela secretamente enterrou o corpo, pretendendo dar um verdadeiro enterro assim que os preparativos fossem feitos.
Tifão, por traição, roubou o corpo e cortou-o em 14 pedaços e escondeu-os em diversos lugares.
Ísis então fez uma segunda busca e localizou todos os pedaços com excepção de um: o phallus.
Ela fez um phallus substituto, consagrou-o e tornou-o um substituto sagrado e objecto de adoração.
Esta, de forma extremamente abreviada, é a lenda egípcia de Ísis e Osíris.
É, sem dúvida, a base para a lenda Maçónica de Hiram Abiff.
Para apoiar esta “conexão egípcia”, vamos considerar duas coisas: uma breve comparação dos elementos-chave em ambas as histórias e as conclusões das autoridades maçónicas nos escritos base Maçónicos.
A semelhança fundamental entre as duas histórias pode ser vista em muitos aspectos, a seguir estão alguns dos mais importantes:
“A lenda do terceiro grau é um Landmark importante, cuja integridade tem sido respeitada. Não existe na Maçonaria nenhum Rito, em qualquer país ou em qualquer idioma, em que não sejam expostos os elementos essenciais dessa lenda. As fórmulas escritas podem variar e, na verdade, variam; porém, a lenda do construtor do Templo constitui a essência e a identidade da Maçonaria. Qualquer rito que a excluísse ou a alterasse materialmente, cessaria, por isso, de ser um rito maçónico”
Elias Ashmole, sábio e antiquário inglês (1617-1692), iniciado em 1646, teria sido o criador dos rituais dos três graus da Maçonaria simbólica e, inclusive, da Real Arco, autoria hoje contestada por autores modernos mas a época em que eles foram criados permanece a mesma e que é uma época interessante pelos factos históricos que aconteceram e que muito tem a ver com o desenvolvimento da Maçonaria moderna.
Carlos I, príncipe da dinastia escocesa dos Stuart, foi decapitado em 1649, com o triunfo da revolução de Oliver Cromwell que instala a sua república puritana.
Elias Ashmole, que era do partido dos Stuart, teria decidido modificar o Ritual de Mestre fazendo uma alegoria do trágico fim de Carlos I e para que fora usado tanto os conhecimentos míticos como o espírito místico; Hiram ressuscita dos mortos assim como Carlos I será vingado pelos seus filhos.
Especulações foram desenvolvidas por quem procura descobrir a origem da Lenda e, de facto, nem os seus autores são conhecidos, tendo aparecidos em escritos diversos mencionados por quem ouviu falar. A Lenda não tem mais de 300 anos, dentro da ritualística maçónica e nenhum dos antigos manuscritos maçónicos menciona a Lenda de Hiram, nem mesmo a Constituição de Anderson de 1723 e nem os Regulamentos Gerais compilados por George Payne em 1720.
Uma lenda é uma narração transmitida pela tradição, de eventos considerados históricos, mas cuja autenticidade não se pode provar.
Sendo assim, não poderíamos falar que o facto realmente não existiu, somente que não temos provas sobre ela.
A Lenda de Hiram não é mencionada desde o Primeiros Graus porque sem ter os conhecimentos completos do primeiro e segundo grau, não pode ser compreendido ainda o mistério da vida, da morte e da ressurreição.
O novo Mestre, irá estudar que a morte vence porque, por deficiência nossa, nós não temos estudado o segredo da vida que é a verdade; com um estudo mais profundo veremos que a morte é negação, a vida é afirmação; a morte é como o erro; o erro existe porque existe a ignorância; procuremos o segredo da vida que vence a morte.
A morte de Hiram nas mãos dos três maus companheiros também não é mencionada na Bíblia pese a que são dedicados muitos capítulos à construção do Templo de Salomão com dados detalhados da quantidade de obreiros, financiamento, custos, arquitectura, etc.
É mencionada Hiram Abiff como Hirão de Tiro, (Reis 7, 1 3) ou Hurão Abiú sendo Hurão, meu pai, (Crónicas 2,13) filho de uma mulher viúva, filha de Dã e que, junto com ser um homem sábio de grande entendimento, sabia lavrar todos os materiais.
Mas a Bíblia não credita a Hiram Abiff o cargo de director dos trabalhos de construção do Templo e sim como um artífice encarregado de criar as obras de arte que iriam a causar admiração aos visitantes.
Todos sabemos que os livros da Bíblia não são exactos historicamente falando.
Temos o exemplo das medidas do Mar de Bronze que, conforme cálculos da engenharia moderna, é de 75.000 lts.
Conforme Reis era de 5 3.000 lts, conforme Crónicas era de 79.000 lts e, ainda, conforme uma Bíblia inglesa em Reis dá a medida de 9.273 lts.
Na própria construção do Templo a quantidade de obreiros empregados era, em Reis de 30.000 que o rei Hiram de Tiro enviava em levas de 10.000 cada mês, e havia mais 150.000 entre carregadores e cabouqueiros, sendo eles 70.000 aprendizes e 80.000 companheiros, todos eles dirigidos por 3.300 mestres.
Considerando que as dimensões do Templo (o interior de edifício era de 60 cúbitos de comprimento e 20 de largura, equivalentes a 30 x 10 mts) para a época eram grandes, mas hoje em dia não seria maior que qualquer igreja modesta, por tanto, aparece um exagero a quantidade de obreiros mencionado na Bíblia.
O filósofo holandês Spinoza, século XVII, no seu Tratado Teológico Político menciona que os livros da Bíblia não são muito autênticos, especialmente pelo facto de ter sido escrito muitos séculos depois que os factos neles relatados teriam acontecido, e os tradutores não sempre ter entendido a mensagem que a Bíblia encerra.
Noah. Conforme a tradição judaica, os três filhos de Noah tentaram ressuscitar o seu pai da mesma forma e com os mesmos resultados iniciais do nosso ritual de terceiro grau e, somente com os 5 pontos de perfeição conseguiram o seu objectivo.
Outro detalhe relacionado com a tradição judaica e da qual, aliás, o nosso ritual tem usado tantos ensinamentos, seria que o significado de dois nomes dos maus companheiros, estaria relacionado com o Bem e o Mal, na sua onomatopeia, similar para YH ou YHVH e Bel ou Baal, que para os israelitas significavam respectivamente o Bem e o Mal.
Osíris.
Osíris é assassinado pelo seu irmão Set por inveja e recupera a vida quando o seu filho Horus, usa fórmulas mágicas.
Horus era filho da viúva Isis e coincide com a origem da denominação “Filhos da Viúva” com que os maçons somos conhecidos.
Lembremos que Hiram também era filho de uma viúva.
Tammuz.
Deus fenício amado por Astarté, chamado Adónis pelos gregos onde é amado por Afrodita, esposo de Istar babilónica, morre em Primavera e desce aos infernos onde a sua viúva Istar vai procurar a fonte de água que lê devolverá a vida.
O Irmão J. S. Ward, autor maçónico inglês, falecido em 1955, escreveu ‘Who was Hiram Abiff” onde ele pensa que a Lenda de Hiram Abiff é uma adaptação do mito de Tammuz e acrescenta que Hiram Abiff pertencia a uma ordem de sacerdotes que ordenaram o seu sacrifício para dar boa ao Templo.
Sócrates.
Existe um paralelo entre as características de Sócrates e de Hiram Abiff, tanto nas suas qualidades morais como nas suas inteligências e dotes de líderes.
Os acusadores de Sócrates foram três e os três de escassa significação na sociedade ateniense, sem comparação coma importância de Sócrates. Hiram e Sócrates puderam livrar-se da morte mas isso seria uma traição aos seus ideais. Sócrates vive eternamente na sua sabedoria que deixou como legado para a humanidade e Hiram vive eternamente na acácia maçónica. Ambos simbolizam o triunfo do valor moral sobre a covardia, do espírito sobre a matéria, do bem sobre o mal, do certo sobre o errado.
A lenda e o Zodíaco
As obras do Templo estavam já por terminar-se indicando que o Sol já teria percorrido as três quartas partes do seu curso anual; os três maus companheiros situam-se nas portas do Médio dia, Ocidente e Oriente, ou seja, os pontos do céu por onde sai o Sol, onde alcança a sua maior força e onde se põe, ao morrer o dia. O primeiro golpe é dado com a régua de 24 polegadas que representa a revolução diária do Sol. O segundo golpe é dado com um esquadro; dividindo o círculo zodiacal em quatro partes temos quatro esquadros de 90 graus sendo que cada um deles representa uma estação do ano. O terceiro golpe é dado com o maço que tem uma forma cilíndrica o que acaba representando uma revolução anual.
Três CComp∴ matam o Mestre Hiram e nove Mestres procuram o seu corpo. São os doze meses do ano zodiacal sendo que os Companheiros simbolizam os meses do Outono que antecedem o Inverno, quando a natureza morre. Os três CComp∴ são Libra (23 de Setembro a 22 de Outubro), Escorpião (23 de Outubro a 21 de Novembro) e Sagitário (22 de Novembro a 21 de Dezembro) quando começa o Inverno (sempre estamos falando do Hemisfério Norte, onde foi criada a simbologia maçónica) e quando o nosso querido Mestre recebe o terceiro golpe que acaba com a sua vida. Em Capricórnio (22 de Dezembro a 20 de Janeiro) a substância terrestre está inerte mas é fecundante; é descoberto o corpo do Mestre. Em Aquário (21 de Janeiro a 19 de Fevereiro) os elementos construtivos são reconstituídos na terra e se preparam para uma vida nova.
Hiram Abiff vive para sempre.