“A Casa Branca lançou um 'site' que cria uma completa ficção sobre o que aconteceu no 06 de janeiro [de 2021]

e o que as pessoas foram lá fazer", afirmou o cineasta, numa entrevista à Lusa.

"O facto de que [Trump] perdoou em massa todos os que foram condenados ou acusados em conexão com esse dia contribui para dar permissão a futuros atos de violência política", argumentou.

Uma primeira versão do documentário "Homegrown" foi lançada em 2024, seguindo de perto líderes do movimento de extrema-direita Proud Boys -- Chris Quaglin, Randy Ireland e Thad Cisneros -- antes, durante e depois do ataque ao Capitólio, a sede do Congresso estadunidense em Washington.

Mas o regresso de Donald Trump como 47.º Presidente dos Estados Unidos e os indultos aos condenados pelos ataques ao Capitólio levaram Michael Premo a reeditar o filme com uma atualização do que se seguiu à libertação dos condenados.

Chris Quaglin, que foi condenado a 12 anos por atacar polícias com violência no Capitólio, saiu da prisão após cumprir apenas quatro anos da sentença.

Apesar do impacto na sua vida pessoal, com o divórcio iniciado pela mulher e a distância do filho na altura recém-nascido, Quaglin não mudou de ideias quanto ao sucedido. 

"Ele não se arrependeu, de todo", explicou Michael Premo.

"Os indultos vindicaram a sua incapacidade de sentir remorsos nos últimos quatro anos que passou na prisão antes de ser perdoado", prosseguiu o realizador.

Quaglin entrou com um processo contra o Governo federal e pede uma indemnização de 150 milhões de dólares (cerca de 129 milhões de euros, ao câmbio atual) por alegadas violações dos seus direitos civis.

Também está a pedir represálias contra os procuradores e juízes que condenaram os atacantes do Capitólio. 

"Os indultos são Trump a dizer: 'Aquilo que fizeste não foi assim tão mau. O que fizeste foi justificado porque foi por mim'", considerou Michael Premo.

"Isso reforçou este pensamento intrincado de que o que ele fez estava certo, mesmo que tenha sido à custa de pessoas que amava e que lhe disseram que não, não estava certo", frisou.

Esta  nova versão do documentário surge  cinco anos depois  fos ataques e um ano após os indultos, e estará disponível até 16 de fevereiro no serviço direto ao consumidor Gathr, uma plataforma que permite aos cineastas manter controlo total sobre o filme. 

"'Homegrown' é único porque é o único filme de que tenho conhecimento que acompanha as pessoas no terreno, desde o período que antecedeu as eleições de 2020 até aos indultos", disse Premo.

"Esse é um registo sem precedentes do que aconteceu", reforçou.

Michael Premo espera que o documentário ajude a audiência a perceber as complexidades da situação e que os indivíduos atraídos para movimentos extremistas o fazem por muitas razões. 

"Uma grande conclusão a que cheguei e tentamos passar no filme é que muitos destes indivíduos não são movidos pela ideologia", referiu.

"As pessoas são movidas por uma necessidade de comunidade, de pertença, de propósito. Estão frustradas, têm queixas legítimas, preocupações culturais, preocupações económicas", descreveu.

O realizador, que é também um fotojornalista com vários prémios na carreira, optou por um documentário sem entrevistas aos intervenientes, a políticos ou a comentadores.

"Se falássemos com liberais ou progressistas, iriam fazer pronunciamentos e generalizações sobre pessoas de quem discordam", justificou.

"Se nos sentássemos com os conservadores que aparecem no filme, isso dar-lhes-ia potencialmente uma plataforma para promover desinformação", acrescentou.

Por isso, continuou, optou por um estilo puramente de observação, focado nas motivações destes indivíduos. 

"Através de justaposição de cenas em que eles falam de quem são com cenas em que mostram quem são, as pessoas podem tirar as suas conclusões de uma forma que é irrefutável até para as pessoas que estão no espetro conservador", finalizou.

Com uma abordagem paciente e implacável, Homegrown acompanha um futuro pai em Nova Jersey, um veterano da Força Aérea na cidade de Nova York e um ativista carismático do Texas, percorrendo o país em um ambiente de profunda fragmentação nacional, do verão de 2020 à primavera de 2025.

Entao testemunhamos o desmoronamento das normas democráticas não por um único evento, mas por centenas de escolhas pessoais feitas por pessoas comuns