Diziam que se alimentava principalmente de água, mas a minha irmã e eu adorávamos brincar à beira do rio, não tínhamos motivos para temer o risco. Passávamos horas na margem, a inventar histórias e teatros, o murmúrio da corrente era o nosso público. A minha irmã, Sofia, era a favorita da aldeia. Inteligente, bonita, paciente em tudo o que fazia, fosse a cozinhar, bordar ou a escrever poesia.
A nossa mãe perguntava muitas vezes como era possível ter criado duas pessoas tão diferentes sob o mesmo teto. Eu era teimosa, impaciente, e tinha o péssimo hábito de desistir de tudo o que me cansasse as mãos. Mas não me incomodava, pelo menos não assim tanto.
Nunca entrávamos na floresta. Ninguém entrava. Não porque fosse proibido, mas porque simplesmente não fazia falta. Tínhamos tudo o que precisávamos.
Até ao dia em que o filho do homem mais rico da aldeia, um rapaz enfadonho e arrogante, mudou de um momento para o outro transformado como uma borboleta, embora uma traça fosse mais adequado. Tornou-se num génio de língua afiada, cheio de ideias brilhantes que surgiam a uma velocidade quase desumana, enriquecendo ainda mais a sua família. Todos o admiravam. E quando lhe perguntaram como conseguira tal feito, respondeu, orgulhoso:
— Ah, eu só perguntei ao monstro.
Não demorou muito até que outros seguissem o mesmo caminho. Primeiro, por conhecimento: queriam aprender línguas antigas, segredos de sábios e filósofos. Depois, por conveniência: conselhos para decisões simples, coisas que antes resolviam por si próprios. Poucos resistiram à tentação. E quanto mais o monstro dava, mais parecia crescer.
A aldeia prosperou. As pequenas casas coloridas deram lugar a grandes construções de pedra branca. Mas aqueles que recusaram ir à floresta começaram a definhar.
A luz desaparecia dos seus olhos. As mãos tornavam-se ossudas, a pele seca como a terra estéril que já não conseguiam percorrer. A minha irmã foi uma dessas pessoas. Nenhum médico conseguiu ajudá-la, por mais que procurassem respostas na floresta. O som grave e distante da criatura ecoava como uma promessa de salvação, mas nenhum milagre chegava.
Foi no último suspiro do outono, quando a primeira neve começava a cair e o sol ficou meigo, escondendo-se atrás do horizonte, que a Sofia desapareceu.
A minha mãe disse que era inevitável. Que todos que não aceitavam a mudança acabavam assim. Não me trouxe consolo nenhum.
Os poemas e pinturas da minha irmã, espalhados pelas mesas e pelas paredes do quarto, atormentavam-me. Nem o som do rio, agora seco, me acalmava. Os vizinhos repetiam que tudo era por uma boa causa. Que a vida era mais fácil. Que agora havia mais tempo. Mas ninguém sabia para quê.
Eu não aceitava a resposta que me davam, curiosa como sou.
Nada fazia sentido. Nada era verdadeiro. Tudo carregava o odor pútrido e familiar da criatura que se tornara o nosso deus bastardo. E esse embusteiro tinha levado a minha irmã.
Foi como acordar de um sonho.
A decisão caiu sobre mim como o vento gelado quando saltei pela janela, apertando o manto contra o corpo. O tecido vermelho dançava à minha volta como uma chama, e eu só desejava que pudesse derreter a neve que feria os meus pés.
A floresta era bela, escura e profunda. Cada passo puxava-me mais para dentro. Já não sabia se tremia de frio ou de medo. As árvores erguiam-se altas e finas, e a luz da lua desenhava sombras paralelas, como se não houvesse lugar para me esconder.
Mas eu não queria esconder-me.
Parei. O corpo doía, a respiração falhava, mas tinha promessas a cumprir, e um longo caminho antes de descansar. Arranquei o manto e ergui-o no ar como uma bandeira de vitória no final de uma guerra.
— Ouve-me! — gritei. — Invoco-te, Guardião do Apócrifo!
Ouvi-o antes de o ver. A terra tremeu. A neve caiu dos ramos nus. E então surgiu.
O lobo.
Alto como a floresta, vasto como o mar. O seu pelo era feito de fumo e cinza, contorcendo-se em rostos. Rostos que gritavam em silêncio.
— Como posso servir-te? — rugiu, com mil vozes sobrepostas.
E no meio daquele caos… ouvi-a. A Sofia.
Engoli em seco.
— Devolve-ma. Fica com os outros, se quiseres. Mas devolve-me a minha irmã.
O lobo aproximou-se, olhos ardentes fixos em mim.
— Isso… não posso fazer… Como posso servir-te?
O meu coração batia descontrolado.
— Tens de fazer! — gritei. — Dá-me a minha irmã! Não quero mais nada!
A criatura inclinou a cabeça, numa falsa curiosidade.
— Porquê? Posso dar-te tudo. Talento. Conhecimento. Tudo o que desejas, sem esforço.
Hesitei.
Lembrei-me das críticas. Das tentativas falhadas. Do abandono.
— Posso fazer de ti alguém como a tua querida irmã…
Quase cedi.
Quase.
Mas então vi-a, presa naquele corpo de cinza.
E soube.
— Não quero — disse, firme. — Não preciso.
A criatura vacilou. Aproximei-me.
— Eu não sou como ela. É verdade. Faço pinturas horríveis. Nunca aprendi a dançar. Nunca terminei um único poema.
Dei mais um passo.
— Mas tudo o que faço… é meu. Só meu. E ninguém mo vai tirar.
A minha voz cresceu.
— Nunca entenderás o amor! És apenas um amontoado de vidas roubadas! Nem a tua voz é tua!
O monstro encolheu-se, as suas patas cravadas na neve, enquanto eu invadia o seu espaço
— Eu amo o que faço. Amo o que ainda vou criar. Mas, acima de tudo… amo a minha irmã.
Observei enquanto ele começava a dobrar-se sobre si mesmo, com os ouvidos a sangrar ao som dos ombros a curvarem-se para trás, uma mistura catastrófica de aço a guinchar e um estrondo trovejante, a vibrar tanto no ar como no solo.
— Devolve-ma.
Com a cabeça inclinada para trás e o corpo cinzento a tremer, cada fibra do seu ser parecia gritar de dor. Os tendões e a pele artificial rasgavam-se em fios secos e quebradiços, e da sua cavidade, escaparam as almas. Uma a uma, como cometas vindo das estrelas, caíram sobre a terra, retornando à segurança de seus lares.
Quando voltei para casa, ainda com resquícios de sangue e bile do monstro escorrendo pelo meu cabelo, encontrei minha querida irmã despertando em sua cama. Corri para abraçá-la, apertando-a contra mim até que nenhuma de nós mais conseguisse respirar. «Tive um pesadelo horrível», sussurrou ela aliviada, enquanto deixava as lágrimas dela cair nos meus ombros.
O monstro não tinha desaparecido, continuava a vaguear pela floresta, continuava a beber da água do rio que, milagrosamente, voltara a correr na primavera. As pessoas simplesmente sabiam melhor, e com o passar do tempo, cada vez menos se aventuravam na floresta. Com sorte, um dia, ninguém o faria. O homem rico e o seu filho tolo, que deram início a toda esta confusão, mudaram-se para outro lugar. Para onde não me interessa. A minha irmã estava em casa, e eu mal podia esperar o que ela iria imaginar a seguir.
Bernardo Florentim