Joe Kent diretor do Centro Nacional Contra o Terrorismo dos Estados Unidos, considerou "evidente" que a guerra no Irao foi desencadeada "devido à pressão de Israel e do seu poderoso 'lobby' nos Estados Unidos"
O diretor do Centro Nacional Contra o Terrorismo dos Estados Unidos, Joe Kent, apresentou hoje terça-feira,17.03, a demissão ao Presidente Trump, em protesto contra a guerra que o país e Israel travam contra o Irão.
Joe Kent, veterano do Exército dos Estados Unidos com 11 missões de combate no Médio Oriente e noutras regiões, afirmou que “não pode, em sã consciência”, apoiar a guerra.
Segundo o próprio, Israel terá pressionado os Estados Unidos a entrar no conflito através de uma campanha destinada a “enganar” o presidente Donald Trump, acrescentando que o Irão “não representava nenhuma ameaça iminente à nossa nação”.
Em resposta, Trump declarou, na terça-feira, que “sempre achou” Kent um homem simpático, mas classificou-o como “fraco em segurança, muito fraco em segurança”.
“Eu não o conhecia bem, mas achei que ele parecia um tipo bem simpático. No entanto, quando li a declaração dele, percebi que foi uma boa decisão a sua saída, porque disse que o Irão não era uma ameaça. O Irão era uma ameaça para todos os países”, afirmou Trump durante um evento no Salão Oval.
Importa recordar que foi o próprio Trump quem nomeou Kent, em fevereiro de 2025, para diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo. O Senado, de maioria republicana, confirmou a nomeação em julho do mesmo ano, por 52 votos contra 44, sem apoio dos democratas.
Antes da sua confirmação, vários relatos apontavam para ligações de Kent a figuras e grupos extremistas de extrema-direita, incluindo indivíduos associados aos Proud Boys e ao Patriot Prayer. Em 2021, Kent manteve uma conversa com Nick Fuentes, um neonazi com influência junto de setores mais jovens do Partido Republicano, sobre uma possível colaboração na sua estratégia de comunicação digital para a campanha ao Congresso. Posteriormente, Kent procurou distanciar-se desse contacto, garantindo não manter qualquer relação com Fuentes.
Regressando ao atual conflito com o Irão, Kent formalizou a sua posição numa carta dirigida a Trump, onde escreveu: “Não posso, em boa consciência, apoiar a guerra que se trava no Irão. O Irão não representava qualquer ameaça iminente à nossa nação e é evidente que iniciámos esta guerra devido à pressão de Israel e do seu poderoso ‘lobby’ nos Estados Unidos”.
O Centro Nacional de Contraterrorismo, organismo integrado na estrutura de segurança dos Estados Unidos, foi criado na sequência dos atentados de 11 de setembro de 2001, que causaram milhares de vítimas em território norte-americano.
Na mesma carta, Kent recorda que Trump fez campanha com a plataforma “America First” (“A América Primeiro”), defendendo que “as guerras no Médio Oriente eram uma armadilha que custou aos Estados Unidos vidas preciosas” e comprometeu “a prosperidade” do país.
O então diretor demissionário acusou ainda altos responsáveis israelitas de conduzirem “uma campanha de desinformação” para justificar a ofensiva contra o Irão, alegando tratar-se “da mesma tática que os israelitas usaram” para arrastar os Estados Unidos para a “desastrosa guerra do Iraque”.
“Rezo para que reflita sobre o que estamos a fazer no Irão e para quem estamos a fazê-lo. O momento de agir com coragem é agora. Pode mudar de rumo”, escreveu Kent na missiva.
O conflito com o Irão, no qual morreram pelo menos 13 militares norte-americanos e que provocou uma subida significativa dos preços da energia, tem sido alvo de críticas por parte de algumas figuras próximas de Trump. Entre elas, o jornalista Tucker Carlson, que considera a guerra uma contradição face à promessa eleitoral de priorizar questões internas e evitar envolvimento em conflitos externos.
No terreno, os números são expressivos. Desde o início da guerra, registaram-se pelo menos 1.348 mortos no Irão, incluindo o ayatollah Ali Khamenei, líder supremo desde 1989, entretanto sucedido pelo seu filho Mojtaba Khamenei, e mais de 10.000 civis feridos. Já a organização não-governamental Human Rights Activists News Agency (HRANA) indicou, a 11 de março, um número superior a 1.825 mortos, incluindo cerca de 1.300 civis, entre os quais pelo menos 200 crianças.
Kent, considerado até então um aliado fiel de Trump, divulgou a sua carta de demissão nas redes sociais, reiterando que continua a apoiar “os valores e a política externa” defendidos pelo presidente durante a campanha.
“Até junho de 2025, você entendia que as guerras no Oriente Médio eram uma armadilha que roubava dos Estados Unidos as preciosas vidas de nossos patriotas e esgotava a riqueza e a prosperidade de nossa nação”, escreveu.
A dimensão pessoal desta posição é também relevante: a esposa de Kent, a suboficial-chefe da Marinha Shannon Kent, morreu em serviço na Síria, em 2019.
Na conclusão da carta, Kent deixou um apelo direto ao presidente: “Reflita sobre o que estamos a fazer no Irão e para quem estamos a fazê-lo”. Acrescentou ainda que Trump pode “mudar de rumo e traçar um novo caminho para a nossa nação, ou deixar-nos deslizar ainda mais rumo ao declínio e ao caos. As cartas estão nas suas mãos”.
As declarações de Kent foram, contudo, criticadas por Ilan Goldenberg, vice-presidente sénior da organização pró-Israel J Street, que considerou que os seus alertas sobre uma alegada conspiração israelita para enganar os Estados Unidos “exploram os piores estereótipos antissemitas”.
“Donald Trump é o presidente dos Estados Unidos e é o responsável final por enviar tropas americanas para o perigo”, escreveu Goldenberg na rede X, sublinhando também a sua própria oposição à guerra.
Por sua vez, o senador democrata Mark Warner, da Virgínia, vice-presidente da Comissão de Inteligência do Senado, afirmou concordar com a oposição de Kent ao conflito, embora tenha recordado que não apoiou a sua nomeação para o cargo.
Joe Kent
@joekent16jan19
Tradução para o Português (texto da postagem + texto completo da carta da imagem):
Após muita reflexão, decidi renunciar ao meu cargo de Diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo, com efeito a partir de hoje.
Não posso, em boa consciência, apoiar a guerra em curso no Irã. O Irã não representava uma ameaça iminente à nossa nação, e está claro que iniciamos esta guerra devido à pressão de Israel e de seu poderoso lobby americano.
Foi uma honra servir sob @POTUS e @DNIGabbard e liderar os profissionais no NCTC. Que Deus abençoe a América.
Presidente Trump,
Após muita reflexão, decidi renunciar ao meu cargo de Diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo, com efeito a partir de hoje.
Não posso, em boa consciência, apoiar a guerra em curso no Irã. O Irã não representava uma ameaça iminente à nossa nação, e está claro que iniciamos esta guerra devido à pressão de Israel e de seu poderoso lobby americano.
Eu apoio os valores e as políticas externas nas quais você fez campanha em 2016, 2020 e 2024, que você implementou em seu primeiro mandato. Até junho de 2025, você compreendia que as guerras no Oriente Médio eram uma armadilha que roubava da América as preciosas vidas de nossos patriotas e esgotava a riqueza e a prosperidade de nossa nação.
Em sua primeira administração, você entendia melhor do que qualquer Presidente moderno como aplicar o poder militar de forma decisiva sem nos arrastar para guerras intermináveis. Você demonstrou isso eliminando Qasem Soleimani e derrotando o ISIS.
No início desta administração, altos oficiais israelenses e membros influentes da mídia americana lançaram uma campanha de desinformação que minou completamente sua plataforma America First e semeou sentimentos pró-guerra para encorajar uma guerra com o Irã. Esta câmara de eco foi usada para enganá-lo, fazendo-o acreditar que o Irã representava uma ameaça iminente aos Estados Unidos, e que, se você atacasse agora, haveria um caminho claro para uma vitória rápida. Isso foi uma mentira e é a mesma tática que os israelenses usaram para nos arrastar para a desastrosa guerra do Iraque que custou à nossa nação as vidas de milhares de nossos melhores homens e mulheres. Não podemos cometer esse erro novamente.
Como um veterano que foi desdobrado em combate 11 vezes e como um marido Gold Star que perdeu minha amada esposa Shannon em uma guerra fabricada por Israel, eu não posso apoiar o envio da próxima geração para lutar e morrer em uma guerra que não traz benefício ao povo americano nem justifica o custo de vidas americanas.
Eu oro para que você reflita sobre o que estamos fazendo no Irã e para quem estamos fazendo isso. O tempo para ação ousada é agora. Você pode reverter o curso e traçar um novo caminho para nossa nação, ou pode nos permitir escorregar ainda mais em direção ao declínio e ao caos. Você segura as cartas.
Foi uma honra servir em sua administração e servir nossa grande nação.
Joseph Kent
Diretor, National Counterterrorism Center
Texto original em inglês (texto da postagem + texto completo da carta da imagem):
After much reflection, I have decided to resign from my position as Director of the National Counterterrorism Center, effective today.
I cannot in good conscience support the ongoing war in Iran. Iran posed no imminent threat to our nation, and it is clear that we started this war due to pressure from Israel and its powerful American lobby.
It has been an honor serving under @POTUS and @DNIGabbard and leading the professionals at NCTC. May God bless America.
President Trump,
After much reflection, I have decided to resign from my position as Director of the National Counterterrorism Center, effective today.
I cannot in good conscience support the ongoing war in Iran. Iran posed no imminent threat to our nation, and it is clear that we started this war due to pressure from Israel and its powerful American lobby.
I support the values and the foreign policies that you campaigned on in 2016, 2020, 2024, which you enacted in your first term. Until June of 2025, you understood that the wars in the Middle East were a trap that robbed America of the precious lives of our patriots and depleted the wealth and prosperity of our nation.
In your first administration, you understood better than any modern President how to decisively apply military power without getting us drawn into never-ending wars. You demonstrated this by killing Qasem Soleimani and by defeating ISIS.
Early in this administration, high-ranking Israeli officials and influential members of the American media deployed a misinformation campaign that wholly undermined your America First platform and sowed pro-war sentiments to encourage a war with Iran. This echo chamber was used to deceive you into believing that Iran posed an imminent threat to the United States, and that should you strike now, there was a clear path to a swift victory. This was a lie and is the same tactic the Israelis used to draw us into the disastrous Iraq war that cost our nation the lives of thousands of our best men and women. We cannot make this mistake again.
As a veteran who deployed to combat 11 times and as a Gold Star husband who lost my beloved wife Shannon in a war manufactured by Israel, I cannot support sending the next generation off to fight and die in a war that serves no benefit to the American people nor justifies the cost of American lives.
I pray that you will reflect upon what we are doing in Iran, and who we are doing it for. The time for bold action is now. You can reverse course and chart a new path for our nation, or you can allow us to slip further toward decline and chaos. You hold the cards.
It was an honor to serve in your administration and to serve our great nation.
Joseph Kent
Director, National Counterterrorism Center
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