Quem ouviu Jorge Palma durante anos sabe que havia qualquer coisa nele que escapava ao formato habitual de um cantor português. Não era apenas a voz, o piano ou aquela forma tão própria de estar em palco. Era sobretudo a sensação de estarmos perante alguém que não precisava de parecer outra coisa.
Jorge Palma era Jorge Palma.
Com as suas contradições, a sua irreverência, os excessos, a sensibilidade, o humor, a melancolia e uma relação com a música que nunca pareceu obedecer demasiado às conveniências.
Talvez por isso tantas canções tenham ficado.
Frágil, Bairro do Amor, Estrela do Mar, Deixa-me Rir, Dá-me Lume, Encosta-te a Mim, A Gente Vai Continuar.
Quem viveu algumas décadas em Portugal dificilmente passou ao lado de todas elas. Umas acompanharam amores, outras separações. Algumas apareceram em noites felizes e outras naqueles dias em que uma canção consegue dizer aquilo que nós não conseguimos explicar muito bem.
Os que o ouviram nos anos 70 e 80 continuaram com ele. Outros chegaram através de Só, de Norte, de Voo Nocturno ou de uma música encontrada muito mais tarde, algures numa playlist.
A história começou cedo.
Nascido em Lisboa, em 1950, Jorge Palma teve aulas de música ainda criança e entrou no Conservatório de Música de Lisboa aos dez anos. A formação clássica ficou-lhe para sempre nas mãos, mesmo quando decidiu seguir outros caminhos.
Passou pelos Black Boys e pelo Sindicato, tocou em Vilar de Mouros em 1971 e, já no início dos anos 70, começou a gravar em nome próprio. Foi chamado para o serviço militar, desertou e viveu na Dinamarca. Regressou a Portugal depois do 25 de Abril.
Compôs, escreveu, orquestrou, gravou, tocou com outros músicos, fez música para teatro, integrou projetos como os Rio Grande e os Palma's Gang e, sobretudo, foi fazendo discos que correspondiam às diferentes fases da sua vida.
Ele próprio explicou isso numa entrevista à Lusa em 2022: cada álbum estava ligado às pessoas com quem vivia, ao que ouvia, ao que lia e à vida que levava naquele momento.
Talvez seja também por isso que os discos de Jorge Palma não soem como capítulos fabricados de uma carreira. Há vida lá dentro.
Em 1991 surgiu Só, um daqueles discos que dispensam grandes explicações. Jorge Palma voltou a canções anteriores praticamente entregue ao piano. E funcionou porque as canções aguentavam.
Depois vieram outros trabalhos, entre eles Norte, Voo Nocturno e Com Todo o Respeito. Em 2023 editou VIDA, o seu último álbum de originais.
Nos últimos anos houve ainda um encontro bonito com os filhos, Vicente e Francisco Palma, no espetáculo 3 Palmas na Mão. Jorge Palma no palco com os dois filhos. Não é preciso inventar simbolismos à volta disto. A imagem chega.
Ao longo da carreira recebeu várias distinções, entre elas o Prémio José Afonso, o Prémio Pedro Osório, a Medalha de Mérito Cultural da Câmara Municipal de Lisboa e a condecoração como Comendador da Ordem do Infante D. Henrique. Em abril deste ano recebeu também o Prémio Carreira dos PLAY — Prémios da Música Portuguesa.
Mas hoje, no Estrategizando, não nos apetece muito fazer a contabilidade dos prémios.
Os prémios ficam nos currículos. As canções ficam nas pessoas.
E é por isso que esta é, acima de tudo, uma palavra de agradecimento.
Pelo piano, claro. Mas sobretudo pelas palavras. Por teres escrito sobre a fragilidade sem a transformar em fraqueza. Pelo amor sem o tornar açucarado. Pela liberdade sem grandes discursos. Pelo desencanto sem desistência.
Obrigado também por aquela imperfeição tão assumidamente humana. Num tempo em que tanta gente parece empenhada em construir versões impecáveis de si própria, Jorge Palma nunca pareceu particularmente interessado nisso.
Ainda bem. Parte da beleza estava precisamente ali. Na voz que nem sempre vinha limpa. Na figura desalinhada. Na ironia. Na maneira como podia passar da ternura para a provocação quase sem aviso. E depois havia o piano. Sempre o piano.
A família pediu agora privacidade e agradeceu a amizade demonstrada ao longo dos anos. É uma dor que pertence primeiro aos que lhe eram próximos e que merece ser respeitada.
Daqui a alguns anos, alguém que hoje ainda é demasiado novo para saber quem foi Jorge Palma vai ouvir Bairro do Amor ou Frágil pela primeira vez. Talvez goste. Talvez não. Mas a música estará lá, disponível para uma geração que ele nunca chegou a conhecer.
É uma das poucas maneiras que encontrámos de contrariar o tempo.
Jorge Palma morreu. As canções não.
E há uma delas cujo título, inevitavelmente, fica hoje a ecoar de outra maneira:
Obrigado, Jorge.