José Maria Neves e a Crioulidade como Visão do Mundo

Num encontro que reune o Atlântico em Cabo Verde, o Presidente da República foi muito além do protocolo. Propôs uma filosofia.

 

 

Há discursos que cumprem a agenda e há discursos que ficam. A intervenção do Presidente José Maria Neves na abertura do Encontro Internacional da Crioulidade Atlântica foi, sem dúvida, do segundo tipo. Não porque seguisse um guião inspirador, mas porque revelou algo mais raro: uma visão coerente do mundo, dita com convicção e com raízes.

O encontro, realiza-se na Universidade de Cabo Verde sob o lema "Edificar Pontes, Construir um Futuro Melhor", reune académicos, representantes das Nações Unidas, membros da CPLP, governantes, intelectuais e vozes da diáspora. O programa ambicioso: genealogia, memória, resistência, diplomacia crioula, inovação cultural, identidade e modernidade.

Mas foi no momento em que o Presidente tomou a palavra que o encontro ganhou outra dimensão.

 

Entre a ferida e a reinvenção

José Maria Neves começou por nomear aquilo que muitos evitam: a ambivalência histórica da crioulidade. Para uns, ela representa um encontro extraordinário de povos, culturas e humanidades. Para outros, permanece indissociável da escravatura, da violência colonial, da desigualdade e do sofrimento que marcaram o Atlântico durante séculos.

Seria fácil  e politicamente cómodo  escolher um dos lados. O Presidente não o fez.

Em vez disso, propôs algo mais difícil e mais honesto: olhar a crioulidade como um processo de reinvenção humana. Um processo que não apaga o trauma, mas que é capaz de transformar a adversidade em novas formas de convivência, pertença e cultura.

Esta posição exige maturidade política e coragem intelectual. Num tempo em que os extremos ideológicos disputam narrativas simplificadas do passado, José Maria Neves escolheu a complexidade. Escolheu reconhecer a dor sem ficar prisioneiro dela. E isso, por si só, já é um ato de liderança.

 

A identidade que se constrói no encontro

Há uma ideia central que percorre toda a intervenção presidencial e que vale a pena fixar: A identidade não se constrói contra o outro. Constrói-se através do encontro com o outro.

Numa época em que o mundo assiste ao ressurgimento de nacionalismos fechados, discursos de exclusão e polarizações culturais cada vez mais agressivas, esta formulação não é apenas poética, mas também política.

Ao afirmar que "a universalidade não se constrói pelo apagamento das diferenças, mas pela capacidade de reconhecer, valorizar e colocar em diálogo", o Presidente cabo-verdiano não está apenas a falar de Cabo Verde. Está a propor um modelo alternativo de civilização.

A diversidade, nesta visão, não é uma ameaça à coesão. É a própria fonte da riqueza. Não se trata de dissolverem-se identidades num caldo uniforme, mas de criar aquilo que o próprio discurso designa como um "universal dos particulares" — onde cada cultura preserva a sua singularidade enquanto participa numa construção comum.

É uma ideia profundamente moderna. E profundamente necessária.

 

As línguas que guardam mundos

Há um momento no discurso presidencial que merece ser destacado com atenção especial. Quando José Maria Neves fala das línguas crioulas, não as trata como curiosidades folclóricas nem como relíquias de um passado distante. Trata-as como arquivos vivos. Espaços onde sobrevivem histórias, afetos, deslocações, saberes e modos de habitar o mundo que nenhum documento oficial alguma vez registou. A língua, nesta perspetiva, não é apenas meio de comunicação.

É memória emocional. É identidade em movimento. É uma forma de continuar a existir quando a História quis apagar.

Esta valorização vai muito além do patriotismo cultural. Está próxima das correntes mais avançadas dos estudos pós-coloniais, que reconhecem às culturas periféricas um papel central e insubstituível na produção de conhecimento global.

E revela, também, uma sensibilidade que é rara na linguagem política institucional: a capacidade de escutar o que as palavras guardam, para além do que dizem.

 

Um reencontro entre iguais

Talvez a frase mais poderosa de toda a intervenção tenha surgido no momento em que o Presidente evocou o historiador José Carlos Gomes dos Anjos e a ideia do "encontro desigual" que esteve na origem de Cabo Verde.

Séculos depois, disse José Maria Neves, o objetivo deve ser diferente. Deve ser "um reencontro entre iguais". Três palavras. Uma visão de mundo inteira.

Esta formulação não é ingénua. É exigente. Porque propõe que a cooperação internacional, a diplomacia cultural e as relações entre povos se construam a partir de outro lugar: não da condescendência nem da dependência, mas do respeito mútuo, da reciprocidade e da dignidade partilhada.

Num contexto global ainda marcado por profundas desigualdades entre o Norte e o Sul, entre antigas potências coloniais e ex-colónias, esta declaração assume uma densidade política que vai muito além da retórica e passa a ser uma exigência e  também uma esperança.

 

Cabo Verde como posição no mundo

O Encontro Internacional da Crioulidade Atlântica é uma afirmação de identidade estratégica.

Ao colocar Cabo Verde no centro de uma reflexão global sobre diversidade, memória e diálogo intercultural, José Maria Neves reforça uma narrativa que o país tem vindo a construir com consistência: a de um pequeno Estado insular com uma capacidade singular de mediação simbólica e cultural.

Cabo Verde não tem fronteiras terrestres com ninguém. Mas tem algo que muitos países maiores não têm: a experiência histórica de ser, desde a origem, um lugar de encontro.

E isso confere-lhe uma autoridade moral que não se compra com dimensão territorial.

 

A crioulidade como proposta de futuro

Se houvesse uma ideia a reter de tudo o que foi dito, seria esta: A crioulidade não é uma memória fossilizada do passado. É uma possibilidade de futuro.

Num tempo marcado por guerras, intolerância, fragmentação e crises de identidade, Cabo Verde escolheu apresentar uma alternativa. Não com armas nem com poder económico. Com uma filosofia.

A mensagem de José Maria Neves pode ser dita de forma simples: A humanidade avança quando aprende a transformar diferenças em pontes.

Simples de dizer. Extraordinariamente difícil de praticar.

E é precisamente por isso que vale a pena ouvir quem ainda acredita que é possível.

Foto de destaque: Facebook da Presidência da República de Cabo Verde