Depois de um período relativamente extenso de recuos em relação à sua posição histórica de independência, a França finalmente parece ter caído em si, ao não se sujeitar aos ditames do novo rei do planeta terra.

Se não apoiou, em 2003 a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, não poderia agora, sob o mesmo argumento, apoiar a guerra de Israel e EUA contra o irã. Esta postura é de suma importância. Nem todo mundo consegue perceber o seu alcance, ou por miopia política ou por desconhecimento histórico.

Mas ela será avaliada brevemente pelos historiadores e cientistas políticos como um marco histórico, ao lembrarem do dia em que a França começou a olhar com mais atenção para as mudanças em curso no cenário internacional, não só no âmbito da geopolítica como da paz mundial.

O saldo positivo que disso advier será provavelmente incorporado ao esforço internacional em prol da convivência pacífica entre os homens de todos os países do mundo. E isso já diz muito. É hora, portanto, de lembrarmos um pouco do general Charles De Gaulle.

Embora De Gaulle fosse um político de direita, seu papel em defesa da França invadida e submetida pelos nazistas, assim como na soberania e recuperação do país no pós-guerra foi, incontestavelmente, notável.

Lembremos que os Estados Unidos mantinham explícita reserva à sua atuação como chefe supremo da resistência francesa e como presidente do Governo Livre da França, criado ainda no exílio londrino do general, em 18 de junho de 1940. Do lado de baixo, os Estados Unidos continuavam a manter uma estreita relação com o governo traidor de Vichy e só rompeu com este depois que a Alemanha ocupou o resto da França, já no final de 1942. Além disso, só reconheceram oficialmente o Governo da França Livre depois da libertação de Paris e a criação do Governo Provisório.

Quando as forças aliadas se preparavam para o desembarque na Normandia, no famoso “Dia D”, De Gaulle já estava na Argélia, organizando as Forças Francesas Livres (FFL) e as Forças Navais Livres (FNFL), que desembarcaram na Bretanha no curso da campanha pela libertação da Normandia e, logo a seguir, de Paris, que culminou em 15 de agosto de 1944. Ele sabia que se não fizesse isso, seria relegado a um segundo plano e os Estados Unidos submeteriam a França. Sempre foi visto com maus olhos por Roosevelt e, em menor escala, por Churchill. E se não fosse pelos esforços próprios dos partisans e das tropas francesas livres que desembarcaram na Bretanha, estas nem teriam participado da retomada de Paris, quando De Gaulle entrou na capital francesa como símbolo de esperança, de resistência e de liberdade, ali estabelecendo o Governo Provisório da França livre. A postura de Roosevelt, é claro, se devia ao conhecimento prévio de que De Gaulle jamais se submeteria aos Estados Unidos e Roosevelt só pensava nisso. Dito e feito: não conseguiu. De Gaulle conhecia bem a essência dos demônios.

Por que devemos lembrar de Charles De Gaulle agora, depois de tantos anos? Porque, simplesmente, ele deixou um exemplo inesquecível aos países soberanos do mundo. Pode ter cometido grandes erros em seus governos, pode ter tropeçado aqui e ali, pode ter sido reacionário em muitos incidentes históricos, pode até ter ficado sozinho, como realmente ficou em alguns momentos, mas tinha uma coisa que não se pode negar: amou a França como ninguém amou; a defendeu como ninguém o fez; a valorizou como poucos. Nesse aspecto, foi um baluarte na defesa da soberania francesa e da luta contra o colaboracionismo e o fascismo. Nunca abriu mão da soberania; jamais aceitou uma França manipulada por interesses estrangeiros; e não concebia que os norte-americanos fossem uma exceção. Durante sua vida, consolidou este padrão, que já vinha de grandes antecessores seus, como Jaurès, Victor Hugo e outros. Portanto, se existe uma marca indelével na história da França, é esta: nunca se submeter; não abdicar jamais da sua soberania. Em certo grau, esta é uma obra de De Gaulle.

É preciso dizer tudo isso porque a França está sendo novamente posta à prova. Os Estados Unidos tentaram subjugá-la; deram ordens de que participasse de uma guerra que não lhe diz respeito; tentaram enganá-la com histórias da Carochinha; ousaram suborná-la de todas as maneiras, com manipulação de tarifas alfandegárias e outras medidas unilaterais. Mas, ressuscitando o imortal espírito de De Gaulle, a França disse não!

Donald Trump, o novo “rei” do império ocidental, não desistiu. Continuou a fazer trapaças; taxou-a de covarde; ameaçou retirar os EUA da OTAN se seus membros não lhe ajudassem na suja e ilegal empreitada de atacar e destruir o Irã. A França mantém-se firme. Trump ora debocha dela e de outros países que não se curvam, ora os chantageiam: “está bem, se virem sozinhos, sem nossa ajuda; mas vão se arrepender”, como se o império estadunidense fosse a salvação do mundo. Acontece que a França não é um país de súditos. E, pela sua história, jamais o será.

Diante do cenário internacional marcado pelo avanço do multilateralismo e o declínio do império norte-americano, o desespero estadunidense cresceu assustadoramente. Daí as gravíssimas tentativas de sobrevivência e dominação, que têm no trumpismo a sua mais elaborada expressão, e das quais resultou o ataque descontrolado e irresponsável, em parceria com Israel, à República Islâmica do Irã, com o subsequente fechamento do Estreito de Ormuz por esta nação soberana. Com isso, as possibilidades de uma Terceira Guerra Mundial aumentaram drasticamente. Para se compreender o que se passa no mundo no momento, é importante lembrarmos do passado. É hora de reler uma vasta literatura. Entre outros, um dos livros indispensáveis é QUANDO OS ROBLES SE ABATEM, de André Malraux.

 Duas personalidades históricas gigantescas, dois escritores da melhor estirpe, aparecem neste livro frente a frente. Durante horas e horas, conversam; falam sobre tudo: história, literatura, II Guerra Mundial, política, cultura. A personalidade de De Gaulle vem à tona. Seu papel extraordinário se sobressai em detalhes desconhecidos do grande público. Malraux, que privava da amizade do general, foi suficientemente inteligente para surpreender suas palavras e pensamentos no recinto de sua intimidade. Se não fizesse isso, a humanidade sairia perdendo, como já perdeu tantas e tantas interlocuções, diálogos e pensamentos extraordinários que não foram registrados, de escritores, filósofos e cientistas pelos tempos afora. Estas memórias das conversações de Malraux com De Gaulle são, assim, imprescindíveis e admiráveis.

“De Gaulle é tentado pela França, do mesmo modo que Lenine o foi pelo proletariado, como Mao é tentado pela China, como talvez o tenha sido Nehru pela India. Explicar-se-á um dia? Não foi ele o primeiro a dizer que a França é uma pessoa, foi Michelet. Mas quando atacava os últimos Bourbons, quando ultrajava Napoleão, Michelet não punha a França em causa. O general De Gaulle fê-lo sempre. Ela existia a seus olhos como a Igreja, para os que a defendiam -- ou atacavam. A primeira frase das suas Memórias de Guerra é-lhe consagrada, e creio que, no seu íntimo, a França era algo menos simples que a princesa lendária de que ele fala. Foi com a França que ele se casou, antes de casar com Yvonne Vendroux. Por mais nobre que seja o seu drama, ele aparenta-se aos dos chefes comunistas que se afastaram do Partido. E o general De Gaulle está longe de pensar que a França o trocou pelos seus sucessores; ela traiu-o com o Destino… e talvez com os franceses.” (André Malraux, Quando os robles se abatem).

Resta saber até onde o presidente Emmanuel Macron será capaz de ir. A julgar pela posição da França na última reunião do Conselho de Segurança da ONU nesta Semana Santa, para discutir a reabertura do Estreito de Ormuz, ele está disposto a continuar ao lado da soberania e da independência da França, defendendo a paz mundial em parceria com a China e a Rússia. A França não aceitará o uso da violência bélica para reabrir o Estreito de Ormuz, não será submissa às manipulações imperialistas do guerreiro-mor do planeta. Ao menos isso. Se for além, todos bateremos palmas para ele. Tenho certeza que os franceses farão isso abundantemente, pois Já estão bastante decepcionados e cansados com as consequências desastrosas desta guerra inútil e perigosa. Ao mesmo tempo, Macron precisa se redimir ainda mais diante do olhar temeroso do mundo.

Torcendo por isso, acabo este pequeno artigo gritando novamente:

VIVE LA FRANCE!