O Presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, partiu este domingo, 20 de setembro, para Nova Iorque, onde participará na 81.ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas.

Antes da viagem, deixou clara a mensagem política que pretende levar à principal tribuna diplomática mundial: o Brasil respeita os outros países, mas exige que a sua soberania seja igualmente respeitada.

Na terça-feira, 22 de setembro, Lula fará a primeira intervenção nacional no Debate Geral da Assembleia Geral, mantendo uma tradição que cabe ao Brasil desde 1955. Depois do Presidente brasileiro discursará o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Numa publicação feita este domingo no seu perfil oficial na rede social X, Lula antecipou o tom da intervenção:

“A caminho de Nova York. Lá, mais uma vez, terei a honra e a responsabilidade de representar o Brasil e o povo brasileiro na Assembleia Geral da ONU. Somos um país soberano, de economia forte e que cuida da sua população e das suas riquezas. Que respeita todo mundo e exige respeito. E que defende a paz e o diálogo entre as nações. É este o Brasil que estará presente, terça-feira, na abertura na ONU.”

O Presidente desejou igualmente “um bom trabalho” ao vice-presidente Geraldo Alckmin, que assume interinamente a Presidência da República durante a sua ausência.

O Debate Geral da 81.ª Assembleia Geral decorrerá entre 22 e 26 de setembro e será concluído no dia 28, na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque. O tema escolhido para este ano é “Restaurar a confiança, gerir a transformação: uma Organização das Nações Unidas que atenda a todas as pessoas”.

Uma tradição brasileira desde 1955

O facto de Lula discursar em primeiro lugar entre os representantes dos Estados não decorre de uma regra formal inscrita nos procedimentos da organização.

Trata-se de uma tradição consolidada desde a 10.ª sessão da Assembleia Geral, em 1955, relacionada historicamente com o papel desempenhado pelo diplomata brasileiro Oswaldo Aranha nas primeiras sessões das Nações Unidas. Depois do Brasil, cabe tradicionalmente aos Estados Unidos, enquanto país anfitrião, tomar a palavra.

É, por isso, uma posição de particular visibilidade internacional.

E este ano o discurso brasileiro deverá adquirir uma relevância política acrescida.

O Itamaraty já indicou que entre os temas esperados estão a reforma das Nações Unidas, o fortalecimento do multilateralismo, a promoção da paz, a cooperação internacional e o combate à pobreza e à fome.

Mas a declaração feita por Lula antes do embarque mostra que a soberania brasileira deverá ocupar igualmente um lugar importante na intervenção.

Soberania ganha novo peso na relação com Washington

Não se trata de um tema novo na política externa brasileira.

Lula tem defendido repetidamente que as decisões políticas, institucionais e eleitorais do Brasil competem aos brasileiros e às instituições do país.

Mas essa posição ganhou nova intensidade perante as tensões verificadas entre Brasília e Washington durante o segundo mandato de Donald Trump.

As relações entre os dois governos conheceram episódios de forte divergência política e comercial desde 2025, apesar de Lula e Trump terem mantido contactos diretos e de os dois países continuarem a procurar canais de negociação. Os dois presidentes estarão novamente na Assembleia Geral na terça-feira, embora, até ao momento, não esteja anunciado um encontro bilateral entre ambos.

É neste contexto que a defesa da soberania adquire significado adicional.

A proximidade das eleições presidenciais brasileiras torna ainda mais sensível qualquer discussão sobre uma eventual influência externa no processo político do país.

A questão dos “dissidentes políticos”

Nos últimos dias, uma nova polémica veio acrescentar tensão ao debate.

Eduardo Bolsonaro, atualmente nos Estados Unidos, declarou considerar-se um “dissidente político” e elogiou referências a “dissidentes políticos” incluídas numa proposta apresentada pela administração norte-americana ao Brasil durante as negociações comerciais de 2025.

Segundo documentação revelada pela imprensa brasileira, a administração Trump chegou a apresentar ao Governo brasileiro um conjunto de exigências que incluía referências à participação de “dissidentes políticos” nas eleições brasileiras de 2026.

O Governo Lula rejeitou esse enquadramento, sustentando que questões relacionadas com o funcionamento das instituições e do sistema eleitoral brasileiro não deveriam integrar uma negociação comercial entre os dois países.

A controvérsia reforçou precisamente o tema que Lula agora leva a Nova Iorque: o princípio de que as relações internacionais devem assentar no respeito pela soberania dos Estados.

Entre a soberania e o multilateralismo

Há, contudo, uma dimensão mais ampla na intervenção brasileira.

Ao longo dos seus diferentes mandatos, Lula tem utilizado a Assembleia Geral para defender a reforma da governação internacional e uma maior representação das economias emergentes e do Sul Global.

O Brasil reclama há muito uma reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas e contesta uma arquitetura internacional que considera insuficientemente representativa da distribuição contemporânea do poder económico, demográfico e político.

Em discursos anteriores, Lula defendeu também o reforço da Assembleia Geral, a reforma das instituições financeiras multilaterais e uma maior presença da América Latina e de África nas estruturas de decisão internacional.

É essa tradição diplomática que deverá voltar a surgir na terça-feira, agora combinada com uma palavra que ganhou particular força no atual contexto brasileiro:

soberania.

Não necessariamente como sinónimo de isolamento, mas, na formulação que Lula tem defendido, como condição para que o diálogo internacional se realize entre Estados que se reconhecem mutuamente como politicamente autónomos.

E será precisamente perante quase duas centenas de Estados que o Presidente brasileiro procurará apresentar essa mensagem.

Na primeira intervenção nacional do Debate Geral da ONU, Lula terá perante si não apenas a Assembleia Geral.

Terá também, sentado no mesmo palco diplomático algumas intervenções depois, Donald Trump.

Num momento particularmente delicado das relações entre Brasília e Washington, essa circunstância confere ao discurso brasileiro um peso político que ultrapassa em muito o protocolo anual das Nações Unidas.