Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, no nordeste do país, a Alternativa para a Alemanha (AfD), partido classificado como de extrema-direita, terminou à frente do Partido Social-Democrata (SPD). As contagens ainda provisórias divulgadas durante a noite apontavam para cerca de 38% para a AfD, contra aproximadamente 35% para o SPD. A CDU de Merz ficou em torno dos 5%, correndo inclusivamente o risco de não ultrapassar a barreira eleitoral necessária para permanecer no parlamento estadual.
É o pior resultado da CDU numa eleição estadual desde a fundação da República Federal Alemã, em 1949. E surge apenas duas semanas depois de outra derrota importante para a AfD na Saxónia-Anhalt, aumentando a pressão sobre a liderança de Merz.
O próprio chanceler não procurou disfarçar a dimensão da derrota.
“É um desastre”, reconheceu, referindo-se ao resultado em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. Merz admitiu igualmente que a CDU foi esmagada pela polarização da disputa entre o SPD e a AfD.
Mas tratou imediatamente de travar as especulações sobre uma eventual saída.
Poucos minutos depois das primeiras projeções, apareceu perante as câmaras na sede da CDU, em Berlim, para garantir que permanecerá no cargo e continuará a executar a agenda de reformas do Governo.
Para Merz, essas reformas são precisamente uma resposta ao crescimento dos movimentos políticos que considera autoritários. O chanceler afirmou que a Alemanha precisa de prosseguir as mudanças estruturais e reiterou que pretende continuar a liderar esse processo.
A mensagem foi clara: derrota eleitoral, sim; mudança de rumo, não.
Se Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental trouxe a vitória da AfD, Berlim apresentou um quadro político completamente diferente.
Na capital alemã, o Die Linke — A Esquerda — venceu as eleições, com cerca de 25% dos votos, ficando a CDU em segundo lugar, com aproximadamente 19%. A AfD surgiu depois, na casa dos 16%.
A vitória coloca o Die Linke em posição privilegiada para liderar as negociações destinadas à formação do próximo governo de Berlim, mas não significa, por si só, que assumirá automaticamente a chefia da cidade: isso dependerá da composição parlamentar final e das negociações para uma coligação.
Para a CDU, porém, a conclusão política é difícil de contornar: perdeu terreno nas duas frentes.
No nordeste, foi praticamente esmagada entre AfD e SPD.
Na capital, perdeu a liderança para A Esquerda.
As derrotas surgem num momento em que a liderança do chanceler já vinha sendo contestada.
Merz enfrenta índices de popularidade muito baixos e um crescente debate dentro da CDU sobre a capacidade do chanceler para recuperar o eleitorado perdido, particularmente depois dos resultados obtidos pela AfD no leste alemão.
Perante a dimensão do risco, Merz reuniu a direção do partido em Berlim na própria noite eleitoral.
O ambiente estava longe de ser confortável.
Ainda assim, dirigentes da CDU procuraram travar uma discussão imediata sobre uma eventual substituição do chanceler e defenderam que o partido deveria concentrar-se novamente nas questões políticas e económicas que enfrenta.
A dúvida, porém, permanecerá.
Até que ponto uma CDU fragilizada por sucessivas derrotas regionais continuará disposta a acompanhar Merz no seu programa de reformas?
O chanceler colocou uma parte substancial do seu capital político numa reforma profunda do modelo económico e social alemão.
O pacote apresentado pelo Governo inclui alterações nas pensões, medidas fiscais, mudanças no mercado de trabalho, redução da burocracia e incentivos destinados a recuperar a competitividade da maior economia da União Europeia. Entre as propostas encontra-se uma subida gradual da idade de reforma ao longo das próximas décadas e regras mais exigentes relativamente às baixas médicas.
Merz argumenta que estas medidas são necessárias porque o tradicional modelo económico alemão — fortemente dependente das exportações, da indústria e da competitividade externa — enfrenta uma transformação profunda.
A concorrência chinesa, os custos energéticos, a evolução demográfica, as tensões comerciais internacionais e a necessidade de aumentar o investimento estão a pressionar um modelo que durante décadas sustentou o crescimento alemão.
O problema político é evidente: várias das reformas implicam custos ou alterações concretas para trabalhadores e famílias antes de produzirem benefícios económicos mensuráveis.
E é precisamente nesse intervalo entre o sacrifício imediato e o resultado prometido que AfD e Die Linke encontram espaço eleitoral.
Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, a social-democrata Manuela Schwesig conseguiu recuperar terreno durante a reta final da campanha.
O SPD apresentou a eleição como uma escolha fundamental contra a extrema-direita, numa estratégia fortemente personalizada em Schwesig, que procurou simultaneamente distanciar-se das políticas do Governo federal.
Apesar da vitória da AfD em número de votos, o partido enfrenta sérias dificuldades para chegar ao Governo estadual porque as restantes forças políticas mantêm, até agora, a política de exclusão de coligações com a formação. Assim, o SPD poderá continuar a desempenhar um papel central na formação do próximo executivo.
Schwesig procurou também colocar o custo de vida no centro da campanha, argumentando que Berlim não pode limitar-se a pedir reformas e crescimento económico sem responder simultaneamente às dificuldades concretas das famílias.
É precisamente aqui que está uma das grandes fragilidades de Merz.
As eleições deste domingo mostram duas Alemanhas politicamente distintas.
Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, a AfD confirmou a sua enorme capacidade eleitoral no leste do país.
Em Berlim, uma das grandes metrópoles europeias, foi o Die Linke quem capitalizou o descontentamento, sobretudo num contexto marcado pela crise da habitação e pelo forte aumento das rendas.
No meio encontra-se a CDU.
O partido que durante décadas ocupou uma posição central no sistema político alemão vê-se agora pressionado simultaneamente pela direita e pela esquerda, enquanto o seu chanceler tenta convencer uma população cada vez mais cética de que reformas economicamente difíceis produzirão resultados no futuro.
Merz garante que não recuará.
Mas depois da Saxónia-Anhalt, de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e de Berlim, a questão deixou de ser apenas saber se o chanceler consegue aprovar as suas reformas.
A questão política que começa agora a impor-se dentro da própria CDU é outra:
quanto tempo estará o partido disposto a esperar pelos resultados?
Nota: à hora de redação, as contagens das eleições de 20 de setembro ainda não tinham sido formalmente encerradas em todos os casos. Por isso, alguns valores são apresentados como aproximados ou provisórios.