A tentativa de homicídio do jornalista Carlitos Cadangue, ocorrida no início de fevereiro na cidade de Chimoio, província de Manica, voltou a colocar Moçambique sob forte escrutínio internacional no que respeita à liberdade de imprensa e à proteção dos direitos humanos.
A Amnistia Internacional considera o ataque “extremamente preocupante” e exige às autoridades uma investigação imediata, rigorosa e independente.
Em comunicado, Tigere Chagutah, diretor regional da Amnistia Internacional para a África Oriental e Austral, sublinhou que o ataque demonstra “o aumento dos ataques a jornalistas no país simplesmente por estarem a fazer o seu trabalho”. O responsável defende que as autoridades moçambicanas devem agir “de forma rápida, exaustiva, imparcial, eficaz e transparente” para apurar responsabilidades e levar a julgamento justo todos os suspeitos envolvidos.
O ataque ocorreu a 4 de fevereiro, por volta das 18h, quando homens armados desconhecidos — que, segundo o próprio jornalista, envergavam uniformes da polícia nacional — dispararam dezenas de tiros contra o veículo de Carlitos Cadangue. O jornalista da SOICO Television seguia para casa acompanhado pelo filho, que também se encontrava no interior da viatura no momento do ataque.
Antes da tentativa de homicídio, Carlitos Cadangue vinha a receber ameaças de morte relacionadas com as suas reportagens sobre a mineração ilegal de ouro na província de Manica. As investigações jornalísticas que desenvolveu conduziram, segundo a Amnistia Internacional, à suspensão de todas as empresas mineiras a operar na província, incluindo aquelas envolvidas em atividades ilegais — um facto que, para a organização, ajuda a compreender o contexto de intimidação e violência.
Para Tigere Chagutah, este foi “um ato descarado, destinado a silenciar um jornalista que tem evidenciado os erros dos poderosos e a intimidar outros para que não façam o mesmo”. O dirigente alerta ainda para a necessidade urgente de proteger jornalistas, defensores dos direitos humanos e ativistas, quer face a ameaças de agentes estatais, quer de interesses privados, sublinhando que a persistente cultura de impunidade continua a alimentar estes ataques.
A Amnistia Internacional recorda que este não é um caso isolado. João Chamusse, editor da revista Ponto por Ponto, foi encontrado morto em casa a 14 de dezembro de 2023. Já Arlindo Chissale está desaparecido desde 7 de janeiro de 2025. Testemunhas relataram à família que, no dia do seu desaparecimento, Chissale foi retirado de um autocarro público, espancado e levado por indivíduos alegadamente ligados às forças de defesa e segurança.
Perante este cenário, a Amnistia Internacional insiste que Moçambique enfrenta um momento crítico. A proteção da liberdade de imprensa, a salvaguarda da vida dos jornalistas e o fim da impunidade não são apenas obrigações legais do Estado, mas pilares essenciais de qualquer sociedade democrática. A resposta das autoridades a este caso será, por isso, determinante para avaliar o compromisso real do país com os direitos humanos e o Estado de direito.